Literatura

Resenha “Madame Bovary” | Feminismo e Psicologia

16.01.17
Resenha Crítica Madame Bovary de Gustave Flaubert. Pioneiro da escola literária romantismo, importante obra para a literatura mundial.
Livro: Madame Bovary
Série: -
Autor(a): Gustave Flaubert
Editora: Martin Claret
Genero: Romance Realista
Páginas: 397
Classificacao:
Sinopse: “Texto de suma importância, “Madame Bovary” é uma leitura essencial, sendo considerado um dos melhores romances da literatura, sendo, provavelmente, o melhor dos livros do romance realista de caráter psicológico do século XIX. Para mostrar seu mundo, Flaubert põe em cena uma personagem em total desacordo com sua realidade, com sua posição social e com seu sexo. É nessa personagem que se centrarão as ações desenvolvidas na narrativa e os principais dilemas da obra.”

Com um tema tão forte e polêmico, o livro é atormentador em qualquer época ainda mais em 1857, quando a sociedade e a religião oprimiam e sufocavam as mulheres. Considerado o pioneiro entre os romances realistas e famoso pela sua originalidade, gerou posteriormente o termo psicológico “bovarismo” em referência ao comportamento da protagonista. Foi impossível não recordar da obra “Primo Basílio” de Eça de Queirós, principalmente nas cenas de luxúria entre Emma e Léon e  na descrição sobre toda a decoração do quarto, sobre o Champagne que tomavam e os queijos que comiam. Pelo teor de sua obra e pelas críticas ao clero e à burguesia, Gustave Flaubert foi condenado pela Sexta Corte Correcional do Tribunal de Sena e se esquivou das acusações com a célebre alegação “Emma Bovary c’est moi” (Emma Bovary sou eu), ao fim, o autor foi absolvido porém continuou a ser acusado de ofensa moral à religião e aos bons costumes pelos críticos literários puritanos da época. O traço da escola Realismo (inaugurada pela obra) é interessante, principalmente ao ter como personagem principal uma mulher romântica. Apesar do adultério, Emma é inteiramente uma personagem romântica, e como no realismo é costume criticar a escola anterior, é de se imaginar que a personagem teria um fim trágico – uma quase conversa com os costumeiros fins do Romantismo, em que, ou os amantes morriam ou se convertiam para o celibato. O aspecto sombrio e “corrompido” de Emma, anteciparam por quase um século o movimento feminista e libertário de emancipação da mulher. Dessa forma, a obra preparou o terreno para o que seriam os ideais da luta pela igualdade de direitos civis e da ascensão da mulher ao mercado de trabalho – propostas que iam muito além do radicalismo proposto por  Glória Stein, o da “queima de sutiãs”. É interessante notar que a anti-heroína de Flaubert foi criada à imagem de um fato real ocorrido no sul da França.  Segundo a biografia do autor, Alfred Le Pottevin foi um importante personagem em sua vida, o filósofo compartilhava das atitudes negativas do jovem autor e foi o responsável por fazê-lo se aprofundar em seus sentimentos sombrios. Assomado à esse fato, a morte precoce do pai, a epilepsia e a influência de autores marcados pela melancolia como Lord Byron e Rousseau, formaram a psique de Falubert – um homem antissocial e introspectivo.

“Felicidade, paixão e embriaguez não faziam, como já destacamos anteriormente, parte do repertório feminino daquele tempo. Prazer e satisfação sexual definitivamente não eram coisas de “moças de família”. Os estereótipos femininos são construídos sob a base do coração, centro de toda a vida da mulher, e que a psicanálise viria mais tarde, a definir e a reduzir pelo útero. Basta ver que o termo histeria, vem etimologicamente do grego hustéra, cujo significado é útero. O termo passa então a ser adotado para designar distúrbios de origem mental que afligem as mulheres: sua condição feminina é, para a Ciência, positivamente patológica.” – Haroldo Cesar Michiles,  2012

Atenção, essa crítica contem spoilers, então se você não conhece a obra e não gosta de saber alguns detalhes, melhor pular essa parte :wink:



Resenha Crítica Madame Bovary de Gustave Flaubert. Pioneiro da escola literária romantismo, importante obra para a literatura mundial.

Acredito ser impossível se manter imune aos encantos e pensamentos de Emma, por essa maneira, achei apropriado fazer muito mais que uma resenha, mas comentar os pontos mais chamativos da obra. Também porquê durante toda a sua leitura não consegui passar um dia sem que me envergonhasse por Charles ou odiasse as extravagâncias de Madame – ou talvez porque, agora depois de tê-lo terminado, é impossível não comentar algumas partes. Portanto se você ainda não conhece o livro e não gosta de spoilers, pare por aqui, mas se já conhece essa obra prima, pode continuar e depois me conte quais foram as suas impressões sobre nossos personagens. O livro é dividido em 3 partes, uma para cada amante de Emma, o primeiro pelo Visconde (o inicial traço de seus sentimentos de adultério se acumulam nessa figura), o segundo inicialmente por Léon e finalmente por Rodolphe e o terceiro inteiramente por seu amor com Léon.

Na primeira parte o livro começa descrevendo e comentando um pouco sobre Charles – apesar de eu estar ansiosa por conhecer a famosa Madame Bovary, resolvi me ater aos detalhes que apresentavam aquele ilustre personagem. Por vários momentos cheguei a pensar que ele seria um jovem rebelde, que no final se indignaria com a forma como que o professor, os colegas de classe e o padre o tratavam – mas isso não aconteceu. Pensei que mais tarde, ao ser obrigado a estudar medicina, descobriria não ser aquele seu real desejo e finalmente falaria à mãe que ele gostaria de estudar alguma outra coisa – mas isso também não aconteceu, nesse ponto mal sabia eu, que sua fraqueza seria, de uma forma ou de outra, o motivo de sua ruína. Essa parte era deprimente, toda a atmosfera de estudos de Charles, toda a sua vida – incluindo seu casamento arranjado com uma viúva intrépida – e toda a sua submissão às vontades dos pais, me faziam ter uma profunda irritação, metade pela mãe e o pai dele, metade por ele. Quando sua esposa foi apresentada, já fiquei indignada, querendo logo largar o livro – seria aquela a Madame Bovary? Sério? E quanto ela finalmente morreu, fiquei imensamente aliviada, tanto quanto Charles, que se via finalmente livre. O livro ficou interessantíssimo quando foram chamar o médico até a fazenda do Senhor Rouault que sofria com uma perna fraturada. Ali, perto do pai, sua filha, Emma parecia a imagem de um anjo; cheia de pudores e de gentilezas ela parecia sutil e delicada, toda tímida e mal falava. Charles de cara já se encantou pela donzela – que havia passado a vida toda morando em um convento e, mais tarde saberemos, lendo livros de heroínas e romances repletos de amores. Não tardou muito para o pai Rouault tratasse de arranjar o casamento entre a filha e o médico. A primeira parte do livro se encerra depois que eles já passaram todo o tempo de amor e de lua de mel; depois que Emma vai à uma festa em um castelo e dança com um Visconde – depois que a riqueza e os costumes da alta sociedade fazem fermentar em seu ser tudo o que ela sempre sonhara – toda a riqueza e pompa que ela nunca tivera. Depois do baile cada dia parecia excruciante para ela, que queria a todo custo se elevar à esse padrões, queria resgatar no ínfimo da memória todas aquelas lembranças da finesse e da pompa. Como a mente se encarregou de apagar tais vestígios, seu corpo definhou e ela ficou doente; doente por querer a riqueza que não teria, por almejar sempre os altos títulos, queria os veludos, os vestidos, os perfumes e tudo que para ela era elevado e belo.

Resenha Crítica Madame Bovary de Gustave Flaubert. Pioneiro da escola literária romantismo, importante obra para a literatura mundial.


Com a doença da esposa, Charles, sempre servo, solícito, preocupado e bom esposo, tratou de planejar a mudança de Tostes para Yonville-l’Abbaye se afastando mais ainda dos sonhos parisianos de Emma e se entranhando mais ainda no território rural da França. Nessa segunda parte, o ponto principal é o conhecimento de León como o homem que ela precisa e procura – que domina moda, música, artes, que estuda, que é jovem e que tem sonhos e almeja uma alta posição – que inclusive conhece Paris. Suas tardes juntas são repletas de discussões que ela julga serem importantes e sua admiração por aquele moço jovem finam rapidamente em amor – que se mostra recíproco.

Resenha Crítica Madame Bovary de Gustave Flaubert. Pioneiro da escola literária romantismo, importante obra para a literatura mundial.

Emma me provoca uma irritação e uma mistura de outros sentimentos tão contraditórios! Eu acabo sempre me exasperando com seus luxos e extravagâncias, com suas decorações para à casa, com seus sentimentos de traição e com a sua bipolaridade. Se ela deseja outro e pensa em meios de fugir do seu marido, ao mesmo tempo, ela resolve voltar à Charles, negar seu amor por Léon e se mostrar uma esposa fiel e dedicada – e no entanto, essa fidelidade feita “pra inglês ver” na verdade é a máscara para todo o seu ódio pelo marido.

“os burgueses admiravam-lhe a economia; os clientes a polidez; os pobres a caridade, todavia, ela fremia de desejos, de raiva, de ódio. Aquele vestido de pregas escondia um coração revoltado, e aqueles lábios tão pudicos nada revelavam de seu intimo tormento”

 No final, fica mais implícito ainda que ela julga o marido ser a sua ruína – ele é o culpado por ela não ter tido uma gloriosa ascensão social, ele a privou dos prazeres, do luxo e do amor. Léon então se caracteriza apenas como um affair com quem só foi se relacionar depois que Rodolphe (o primeiro com quem traiu, de fato, o marido) a abandona.


Resenha Crítica Madame Bovary de Gustave Flaubert. Pioneiro da escola literária romantismo, importante obra para a literatura mundial.

Apesar da minha indignação com Emma, ela é um marco na história da literatura, assim como o é o Realismo. Ela se mostra uma personagem forte por ser uma mulher forte. Ela decide o que fazer da sua vida, sem ficar à sombra do marido, sem se entregar aos afazeres domésticos, sem tentar ser a esposa que a sociedade queria. Ela anseia mais, e ela busca mais, ela tem coragem para agir quando algo não lhe agrada. Infelizmente, todo poder tem um custo, e ela não poderia deixar de ter defeitos. Egoísta e egocêntrica, a tal ponto de esquecer-se completamente de Berthe, sua filha, renegando-à aos completos cuidados de sua ama. Faz de todo o dinheiro do marido, regalias e luxuosidades para seu bel prazer, gasta tudo que é dele, chegando ao ponto de fazê-lo pagar aulas de piano na cidade – que nunca foram frequentadas, apena para servirem de pretexto para seus encontros com Léon.

Resenha Crítica Madame Bovary de Gustave Flaubert. Pioneiro da escola literária romantismo, importante obra para a literatura mundial.

Essa edição da Martin Claret é sem dúvida a mais bonita e caprichosa. Além de capa dura ela também é almofadada e conta com uma introdução sucinta e bem útil, além de ilustrações belíssimas. As páginas que inauguram as partes são coloridas e com floreios que trazem aquela atmosfera de luxo.

Um ponto incrível da obra é o narrador onisciente. Flaubert, em seu caprichado trabalho (o livro levou 5 anos para ser escrito, com um trabalho de aproximadamente 16 horas por dia) inovou na escrita, nos apresentando um autor que é quase como um personagem, e que sem percebermos, vai apresentando as opiniões mais profundas de cada um e vai nos apresentando lentamente a cena retratada. Podemos perceber tal artifício nas descrições sobre Emma – uma pelo ponto de vista de Charles e depois sobre o ponto de vista de Rodolphe – onde podemos ter a visão de uma personagem mais completa, complexa e viva. Tal estilo faz com que a história seja apresentada através de “cenas”, artificio hoje responsável por mover a indústria cinematográfica. Outra técnica inaugurada pelo livro é o diálogo entrecruzado – em que as falas não precisam vir apresentadas de artifícios que a denunciem fazendo-as se unirem à narração.

Resenha Crítica Madame Bovary de Gustave Flaubert. Pioneiro da escola literária romantismo, importante obra para a literatura mundial.

Apesar de algumas infelicidades que tive ao ler o livro – por exemplo, os mistos sentimentos que tive acerca dos personagens – o livro é muito bom, e não poderia ser diferente. Alguns personagens, como o Sr L’Heureux – com sua ambição e seus atos de aproveitador e mentiroso – Abade Bournisien – com sua religiosidade quase frágil e sua falta de atenção na primeira vez em que Madame tenta procurar a Igreja para acalmar seu espírito – conseguem ser tão contraditórios, falsos e sombriamente reais que causam até um certo incômodo. Isso sem contar a própria Emma, que com suas vontades fortes, luxos rasos e ações estúpidas conseguem suscitar no leitor aquela estranheza que poucas obras conseguem.

Para falar do aspecto sombrio do personagem (aos olhos da sociedade da época), temos que trazer alguns conceitos de Jung. Segundo ele, possuímos um lado consciente e outro inconsciente, desconhecido. Um dos elementos desse inconsciente é a sombra. O ideal do ego, diz-nos que devemos ser perfeitos, leais, honestos (Ema bem que tentou) mas, a nossa personalidade tem também aspectos negativos (mesmo que não queiramos ou passamos mostrá-los), como a mesquinharia, a maldade, a traição, agressividade, a raiva, a inveja, que também são próprios do ser humano e reprimimos na nossa sombra. – Haroldo Michiles

Segundo o crítico literário Austríaco, Otto Maria Carpeaux “O verdadeiro personagem desse romance é a estupidez humana”. Por essa frase já se pode ter uma ideia, Emma, mesmo sendo forte não é um exemplo a ser seguido em hipótese alguma, sendo uma obra polêmica e controvérsia, porém essencial e marcante. Além disso, ilustra como – em termos psicológicos – o nosso lado de “sombra” (que registra todos os sentimentos e pensamentos que o individuo teve mas reprimiu)  acaba sendo saciado em comportamentos como o de Emma, em que ela se deixa viver em um mundo ilusório e sonhador.  Para saber mais sobre os conceitos de Persona versus Sombra leia esse ensaio 


Mãe Sem Manual – Rita Lisauskas| Lançamento da Editora Belas Letras
“The Beauty of Darkness” – Mary E. Pearson | Lealdade e Transformação.
Resenha: O Canto Mais Escuro da Floresta – Holly Black| O encanto cruel das fadas

:D :-) :( :o 8O :? 8) :lol: :x :P :oops: :cry: :evil: :twisted: :roll: :wink: :!: :?: :idea: :arrow: :| :mrgreen:
  • Bruna Em 16 . 01 . 2017

    Estou para ler esse livro desde julho(2016) e não consigo. Não gostei do estilo da escrita e fico perdida! Sempre volto para tentar mas acho que vou desistir viu?!

    http://blogbruuhmorais.blogspot.com.br/?m=1

  • Samira Em 16 . 01 . 2017

    Bru, no começo pode ser meio difícil porque ele não é contemporâneo né, mas olha, persista que você vai gostar!

  • Stephanie Ferreira Em 16 . 01 . 2017

    Não sou muito de romances de época mas já tinha ouvido falar do termo bovarismo e fiquei curiosa pra ler sobre, então vou adicionar este na lista de leitura. Fora que a capa e a diagramação do livro são lindos né <3

  • Samira Em 16 . 01 . 2017

    Simmm Ste, esse livro é almofadado! ♥ quase chorei de amor né? hehhe Você vai gostar!

  • Lívia Madeira Em 16 . 01 . 2017

    AMEI essa sua edição! e gostei bastante da sua analise do livro, eu o li faz uns 2 anos e gostei

    http://www.tofucolorido.com.br
    http://www.facebook.com/blogtofucolorido

  • Samira Em 16 . 01 . 2017

    Linda de mais mesmo, digno de livro de estante! Obrigada Lívia linda! ♥

  • Ana Em 16 . 01 . 2017

    Que resenha completa! Fiquei de queixo caído logo no primeiro paragrafo.
    Eu fiquei MUITO interessada pela leitura, ainda mais por ser um livro que significou tanto para os movimentos de libertação da mulher.
    Vou confessar aqui: não li a resenha até o final, porque fiquei tão empolgada pra ler, que não quis estragar o final haha.

    Beijos, Blog Ana do dia ♥

  • Samira Em 16 . 01 . 2017

    Que fofinha!! Siiimm, você fez bem! Apesar de eu não ter falado beeem o final, dei uns spoilerzinho hehehe. Depois me conta o que achou ein?

  • Ariani Martins Em 16 . 01 . 2017

    Adorei a resenha, quero ler o livro e vou comprar, sem dúvida!
    Só uma pergunta, você foi escrevendo a resenha enquanto lia o livro ou deixou pra fazer tudo isso só no final? Pq olha…. que memória!!!
    Sou do tipo que termina o livro e já não se lembra de tanta coisa. Aí quase não faço resenha nenhuma!

    Beijos

  • Samira Em 16 . 01 . 2017

    Então Ari, eu tenho uma “técnica” que desenvolvi na faculdade. Eu vou lendo e vou anotando alguma crítica ou alguma ideia sobre o que vai acontecer mais pra frente, e vou marcando as partes que mais me interessam e que devem aparecer mais na resenha. Mas olha, acho que nesse caso e nem fiz muito esse método não hehe, é que as cenas ficaram bem na minha memória, esse livro marcou demais por me fazer entender alguns aspectos da minha própria personalidade sabe? Então rolou uma grande identificação, e assim fica fácil escrever sobre ele ♥