Literatura

“Pornô Chic” – Hilda Hilst | Inteligência e Sexualidade

16.02.17

Resenha e crítica obra Pornô Chic de Hilda Hilst por Samira Oliveira

ATENÇÃO: A resenha a seguir é sobre um livro indicado para maiores de 18 anos.

Livro: Pornô Chic
Série: -
Autor(a): Hilda Hilst
Editora: Biblioteca Azul
Genero: Ficção erótica
Páginas: 276
Classificacao:
Sinopse: Se “O caderno rosa de Lori Lamby” parece obsceno ao apresentar uma menina de oito anos relatando suas experiências sexuais, a autora surpreende os leitores com seu desfecho. “Cartas de um Sedutor” narra o cotidiano de um homem rico, amoral e culto, que diante de sua incompreensão da vida recorre ao sexo em busca de respostas. “Contos d’escárnio” é uma reunião de textos satíricos, em que a sexualidade é matéria de reflexões imprevisíveis. “Bufólicas” é um livro de “fábulas safadas” concluídas com uma “moral da estória”.
A “Fortuna Crítica” apresenta um texto inédito do professor de História da Arte e da História da Cultura da Unicamp Jorge Coli, e inclui textos de especialistas na obra de Hilst, como a professora do departamento de Literatura Brasileira da FFLCH-USP Eliane Robert de Moraes, e o professor de Teoria Literária da Unicamp Alcir Pécora – que organizou as obras completas de Hilst para a Globo Livros. Além disso, a edição recupera textos publicados na imprensa nos anos 1990, como um perfil da autora feito pelo jornalista Humberto Werneck e uma entrevista da poeta ao amigo e escritor Caio Fernando Abreu.

Conheci Hilda Hilst por meio de um poema na aula de linguística. Me lembro bem de como fiquei encantada com a “pornoticidade” (essa palavra existe?) tão bem camuflada – a qual só fomos perceber depois que o professor explicou. Logo depois, ele já falava um pouco sobre as verdadeiras escritoras, que, segundo ele, não recebiam seu devido valor. A seguir comentou sobre o livro rosa de Hilda, o Pornô Chic – e seja porque o título me pareceu tão curioso, seja porquê a edição não parecia denunciar seu conteúdo, a obra passou a ser um grande anseio de ter um exemplar na minha estante.Resenha e crítica obra Pornô Chic de Hilda Hilst por Samira OliveiraHilda Hilst (1930-2004) foi considerada pela crítica uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século 20. Passeou entre vários gêneros literários, como romance, crônica, drama, poesia e ficção. Sua produção literária iniciou-se em São Paulo com a obra Presságio (1950), mas foi em  1965 que a escritora se muda para Campinas e começa a construção da Casa do Sol, um lugar de retiro para a sua criação – algo que deu bastante certo, pois foi na Casa do Sol que Hilda realizou mais de 80% de sua obra, já que se dedicava integralmente à produção literária. Em 1967, ela estreia na dramaturgia e em 1970, na ficção, com Fluxo floema. O acervo pessoal deixado pela escritora se divide, hoje, entre a Sala de Memória Casa do Sol — onde há, inclusive, produções inéditas — e o Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio da Universidade Estadual de Campinas (Cedae-Unicamp). Para saber mais visite: Instituto Hilda Hilst Apesar de prestigiada pela crítica, seus livros não vendiam e tampouco conquistavam os leitores da forma que ela desejava. Foi assim, que em 1990, Hilda “estilhaçou o próprio prestígio” e foi em busca de seu público, caminhando entre a mais profunda e ao mesmo tempo visível qualidade humana: a sexualidade.

“Resolvi escrever este livro porque ao longo da minha vida tenho lido tanto lixo que resolvi escrever o meu” – Crasso

O excerto acima parece ecoar um pouco as palavras de abertura de “Pôrno Chic”, como que falando com o mundo por meio de seu personagem, novamente para se expandir, se assumir, e sem desculpas dizer: Só espero que não resolvam encontrar implicações hegelianas ou metafísicas nos textos pornográficos. E como que para se livrar da enxurrada de gritos de “maldita!” que receberia, temos um adendo: “É melhor se desentender com o mundo todo do que com a única pessoa com quem se é forçado a viver após ter se despedido de todo” Penso do mesmo modo. Se você é coerente consigo mesmo, o resto é suportável. Eu suporto.Resenha e crítica obra Pornô Chic de Hilda Hilst por Samira OliveiraAssim, gosto de pensar que Hilda Hilst não escreveu suas “grossas bandalheiras” apenas para ganhar mais fama e dinheiro, acredito que o pornô estava entranhado dentro dela e teve de ser extravasado com essa trilogia erótica e maldita – por editores, doutores e leitores – mas que pelo menos, trouxeram seu nome à tona, que pelo menos nos mostraram um novo jeito de ver o pornô – isso bem antes da famosa “literatura hot” – e que nos apresentou um jeito novo de ler o sexo. “Pornô Chic” contém a Trilogia Amaldiçoada, composta por: O caderno rosa de Lori Lamby, Contos d’escárnio – textos grotescos, Cartas de um sedutor e o livro de poemas Bufólicas. O caderno rosa de Lori Lamby e Bufólicas contam com as ilustrações de Millôr Fernandes e Jaguar, e para ilustrar Contos d’escárnio e Cartas de um sedutor foram convidadas Laura Teixeira e Veridiana Scarpelli, que apresentaram um traço contemporânea ao pornô de Hilst.Resenha e crítica obra Pornô Chic de Hilda Hilst por Samira OliveiraNo começo da narração não tem como não se assombrar. Lory Lamby é uma menina de 8 anos que escreve em seu caderno rosa (como o livro que realmente estamos lendo) suas experiências sexuais. Ai temos um empasse, as cenas são pornográficas ao máximo e, eu pessoalmente, lutei a todo instante com vozes gritando dentro de mim “isso tá muito errado, isso é uma bela porcaria. Larga esse livro”. Mas então, pouco a pouco, Hilda vai te dando pistas e você vai começando a cogitar o quão real aquilo tudo pode ser – afinal você já não crê que está condenado ao inferno, nem você e tampouco a autora, e começa a refletir sobre a psicologia da criança em relação ao meio (bem o meio determina o homem, sabe?) Aos poucos você pensa que todas as outras narrativas se conectarão com Lory Lamby, afinal, é o caderninho rosa dela que você está segurando! Mas então, ele finalmente acaba e, pessoalmente, eu não senti saudades nenhuma. As próximas histórias que ficam interessantes; o humor quase negro e o cinismo de Hilda se mostram visíveis (e risíveis, me perdoe o trocadilho besta) e ai você já passa a amar essa autora de todo coração. Pensamentos e manifestações de arte, que hoje já são comuns – quem nunca viu a pintura de uma vagina ou a escultura de um pênis? – na época não eram tão faladas e tampouco vistas. Essa introdução de elementos sexuais na narração, de poemas pornográficos, de descrição de sexo, de práticas peculiares e exóticas, tornam a trilogia erótica, mais importante ainda, e corroboram para a imortalidade de Hilda.

“Assim, Hilst e seu objeto de escrita se encontram – ela, como autora, banida do cânone literário tanto quanto a pornografia precisa ser banida da sexualidade. Ao mesmo tempo, Hilst ridiculariza toda pretensão – metafísica, por que não? – de afastar a perversão em nome da boa escrita. Esta que, para responder pelo nome de escrita, é intrinsecamente pervertida.” – Carla Rodrigues, professora de ética da UFRJ

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  • jazz Em 16 . 02 . 2017

    fiquei meio confusa miga, ok uma menina de 8 anos relatando suas experiencias sexuais, mas como assim? com quem? com pedofilos ? ou consigo mesma? pq se for com ela mesmo (masturbaçao) é algo normal na verdade, na psicologia a gente aprende que na psicanalise, Freud fala que a criança sente prazer (nao necessariamente no ato sexual) mas ela tem fases “oral, anal” e mais duas que nao lembro hahah e crianças se tocam e tal, mas pq acham aquilo legal, mas ne… se for uma criança de 8 anos tendo relação sexual com um homem adulto (ou ate mesmo com 12 anos pra cima) sinceramente eu nunca colocaria as maos neste

    http://www.inocentementeingenua.net/

  • Samira Em 16 . 02 . 2017

    Então, vou tentar explicar com spoilers. Porque só no final que dá pra entender sem querer tacar o livro no fogo kkkk. A menina pega livros, videos pornôs, e rascunhos do livro pornô do pai, ai ela também pega tudo o que ouve de brigas dos pais e coloca no livro dela. Mas na verdade nada disso aconteceu, tanto é que os pais ficam apavorados com esse comportamento e ficam até meio loucos e deixam a menina com os avós. A Hilda quer provocar esse pavor e estranhamento sabe? Mas ainda bem, é tudo imaginação e cópia do meio em que a menina vive.

  • Flavi – Memorias de uma Guerreira Em 16 . 02 . 2017

    Que blog mais lindoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo, que coisa mais perfeita, organizada e delicada!!!!
    Não vim pelo post em si (apesar de ser um tanto quanto polemico)
    Conheci seu blog agora pouco, confesso que fiquei andando por algumas postagens e me deparei com essa e tive que deixar um recado elogiando e também dizer que gostei tanto que estou seguindo o seu blog! Muito sucesso pra você, você vai longe!

    Memórias de uma Guerreira

  • Samira Em 16 . 02 . 2017

    Ain que comentário mais lindo da vida! Me enche de alegria e de vontade em melhorar cada vez mais o blog para leitoras como você, que já demonstram tanto carinho ♥ Fico muito feliz que tenha gosta, viu? E então, menina do céu Pornô Chic é um tapa na cara da sociedade hahaha, e apesar de bem louco é maravilhoso! Vale muito a pena se aventurar nessa outra face do “Hot”