Em voga

Como as bonecas Barbie influenciaram a imagem que eu tenho do meu corpo.

12.03.17

Como as bonecas Barbie influenciaram a imagem que eu tenho do meu corpo.Foi depois de tirar de casa os últimos vestígios da minha infância, depois que encontrei duas imaculadas bonecas Barbie e uma Susi intacta, foi que tive aquele lampejo. O que aquelas bonecas haviam feito comigo durante todo esse tempo? Muito se fala sobre o corpo padronizado da Barbie, mas pouco ainda se comenta sobre os reais efeitos que a boneca provoca. Falando assim, parece mais que estou te apresentando a descoberta de um veneno que mata lentamente, ano a ano, e bom, é exatamente isso do que se trata.

Não, eu não estou dizendo que as bonecas Barbie devam ser extintas, que não devemos comprar mais elas para nossas irmãs ou primas e muito menos estou declarando guerra a elas. Na verdade, muito pacificamente, eu queria relatar o que foi a minha vida no quesito aceitação do meu corpoe como a Barbie sempre dificultou essa tarefa.

Já percebeu a minúscula cintura da boneca? Esses dias eu estava distraidamente observando um livro das princesas e assustada me dei conta: a cintura da Ariel era, proporcionalmente ao desenho, do tamanho do fininho braço da sereia. Foi ai que notei, aterrorizada, como essa realidade nunca antes havia me parecido tão gritante. Resgatei em ninha memória toda a imagem de Barbies e de Princesas, e todas elas, vinha, inexoravelmente acompanhadas de uma cintura inumanamente impossível de ser conquistada, com um cabelo cumprido e sedoso que só a mais rica das celebridades poderiam sequer ousar chegar perto; um corpo milimetricamente bem feito e proporcional; nenhuma manchinha na pele, nenhuma acne no rosto, nem sinal da mínima descompostura na maquiagem – e muito menos uma estriazinha que fosse. E tudo não seria terrivelmente assustador se não fosse pelo fato de que: eu sempre havia aceitado isso sem nem mesmo questionar.

Agora, se eu, com meus quase 20 anos de idade só fui me ater a isso agora, imagine essas bebês que com 3 anos já tem nas princesas da Disney e nas bonecas Barbie um ideal inalcançável e mentiroso de beleza? Você deve estar resmungando ok, mas aonde exatamente você quer chegar com isso? Bem, para responder essa questão, vou ter que contar um pouquinho sobre mim. Eu sempre, sempre mesmo, fui a gordinha da escola; em uma cidade pequena em que uma das melhores escolas da cidade era relativamente de alto padrão, não seria de se estranhar que as alunas fossem, eu sua grande maioria, simplesmente perfeitas. Quando digo isso, não quero ser rude, afinal se trata de minhas amigas, mas quero dizer que, todas tinham ótimas possibilidades e encorajamentos para frequentar uma academia na adolescência (lembro até hoje de uma amiga reclamando que estava gorda e feia por ter ganhado 2 quilinhos em uma viagem internacional), todas tinham acesso aos melhores dermatologistas, shakes para emagrecer, atividades físicas, cremes dermatológicos, tratamentos capilares e toda sorte de coisas estéticas que o povo diz “para nos deixar mais bonitas” Não que eu as esteja julgando, eu mesma já frequentei academia, usei/uso cremes para o rosto e infinitos para o cabelo entre tantas outras coisas, a questão não é essa, a questão é a cultura no corpo perfeito. O corpo perfeito sempre fora o meu sonho, passei boa parte da minha vida imaginando como eu seria feliz se tivesse o meu grande sonho de corpo, na minha mente pequena eu montava uma Samira Frankestein com um pedaço de um cabelo perfeito aqui, uma perna torneada de uma amiga alí, uma cintura de uma Barbie aqui e uma pele de uma fulana alí. Na minha mente, eu fazia listas enormes de tratamentos que eu gostaria de fazer, antes mesmo de sequer cogitar a possibilidade de me relacionar com alguém (sim, o meu trauma era tão grande que eu sequer pensava na possibilidade de alguém “me querer”)Como as bonecas Barbie influenciaram a imagem que eu tenho do meu corpo.E quem sempre estava comigo em minha mente? Quem sempre me lembrava que eu deveria ter uma cintura fina e uma pele macia? Quem sempre me encorajava a mais uma vez, pensar em intervenções cirúrgicas ou caminhos que me levariam à doenças como bulimia? Lá estava a maldita boneca Barbie, como que zombando de mim e de todos os meus esforço para me igualar a ela. E não queira mentir, você sabe que todas sonham ser ela, você sabe, quando sua filha leva sua boneca para todo canto; sabe que para ela só existe a loira e branca Barbie, a perfeita e rica Barbie, a linda, a glamourosa, a perfeita boneca – que tem tantas profissões quanto seja possível mensurar, que tem tanto dinheiro quanto alguém poderia imaginar, que tem tudo o que ela, eu e você sempre quisemos. Então, o erro talvez não esteja no status que a boneca apresenta – isso pode ser até um estímulo para as meninas estudarem com mais afinco – mas sim no caráter irreal que ela nos apresenta. Hoje eu falei apenas do que me marcou, do que me tocou na minha infância, mas talvez outros males tenham sido alimentados a partir da figura icônica e inalcançável que a Barbie é.

Em contrapartida, a boneca Susi. Minha sábia vó sempre me disse essa boneca é muito mais bonita que a Barbie, mas eu, em meus sentidos cegos de criança, nunca acreditei. Hoje, quando avistei minha boneca novamente, fui obrigada a concordar com a minha avó; eu havia me visto na Susi. A Susi é mais torneada, musculosa, alta e senhora de si; sua cintura não é do tamanho de seu pulso, suas pernas não são dois cambitos por onde um boing poderia passar. Seus braços não são fininhos ao ponto de quebrar e nem seu cabelo parece ansiar ser a tremenda perfeição que a Barbie quer. Então porque será, que eu achava a Susi uma boneca tão feia? No fundo, eu sei a verdade, eu a odiava porque ela estava muito mais próxima a mim do que a minha ídola Barbie, ela poderia muito bem me representar, poderia muito bem ser um lampejo do meu futuro – e nada, absolutamente nada, que não fosse tremendamente magro e esquio, loiro e liso, claro e belo, eu queria para o meu futuro e para o meu presente. Isso porque eu sempre fui humilhada pelo meu peso, odiada pelo meu cabelo meio armado, desprezada por não ter uma pele perfeita, mas principalmente por não ter aquela cintura perfeita, aquele peso correto, aquele corpo escultural e sequinho. Nunca ninguém quis ser menos do que a Barbie – e nem pensaram em me apresentar firmemente, algo que fosse menos do que ela.

Este é um post da Blogagem Coletiva Coletivando. Para conferir os pots das outras participantes, clique no nome do Blog de cada uma: Blog Notável LeituraBlog Garota IndependenteBlog Dá um ZoomBlog Eu RandômicaBlog Quero ser MirandaBlog A Menina da Janela
Os Meus 13 Porquês| Podem acreditar numa garota viva?
Desculpa, mas não dá pra ser um “Feliz Dia” das Mulheres
Possíveis abordagens ao tema “Intolerância Religiosa” no Enem 2016

:D :-) :( :o 8O :? 8) :lol: :x :P :oops: :cry: :evil: :twisted: :roll: :wink: :!: :?: :idea: :arrow: :| :mrgreen:
  • Gabriela Dahmer Coitinho Em 12 . 03 . 2017

    Sabe, nunca tinha parado para pensar nisso e olhando seu post percebi como isso faz todo sentido e como influenciava demais na minha infância. Lembro que quando eu ia brincar na casa de algumas amiguinhas e elas tinham a Susi, sempre havia aquela briga de quem ficaria com a Barbie, já que era a mais bonita. Tudo isso porque a boneca Susi era mais corpulenta. O mais engraçado é que não era gorda, só tinha um corpo maior, que muitas vezes é só por a pessoa ter ossos mais largos. Hoje em dia já não ligo mais pra isso, mas claro que algumas coisas no meu corpo ainda me incomodam, mas vejo tudo pelo lado saudável da questão e não pelo estético.

    Beijos,
    Última postagemBlog Gaby DahmerFanpage

  • Samira Em 12 . 03 . 2017

    Isso mesmo Gabi, temos que parar na saúde – e é interessante frisar como existem várias gordas (ex, eu) que tem uma saúde excelente (todos exames maravilhosos) que muita magra não tem. E como é dificil a gente dissociar o perfil estético do saudável mesmo, é muito fácil confundimos um com o outro e continuar nesse sofrimento.
    E olha que engraçado né? A Susi é tão real e sempre foi tão apedrejada. Uma pena, poderíamos ter sido crianças menos frustradas com nosso corpo né? hehe
    Um beijão pra você minha linda! ♥

  • Jade Amorim Em 12 . 03 . 2017

    Eu não fui tão influenciada pelas barbies assim, sofri muito por conta de bullying por ser mais gordinha, mas nunca atribui isso às barbies.
    É muito triste como esse padrão irreal de beleza intoxica a mente de crianças e adolescentes, não é verdade?
    Espero que hoje você se aceite muito mais e seja muito feliz com seu corpo!

    Beijos

  • Samira Em 12 . 03 . 2017

    Então Jade, peguei a Barbie como um dos maiores exemplos por ser uma figura bem icônica e de conhecimento de todos. Mas citei outros exemplos – como o caso da Ariel e de toda a trupe de princesas – que influenciam o consciente e o inconsciente das meninas. Obrigada lindona ♥

  • Kaila Garcia Em 12 . 03 . 2017

    Nunca fui influenciada assim pela imagem da boneca, mesmo sendo completamente fã de Barbie. Sempre tive esse certo ”complexo” por ver tantas meninas com o corpo escultural serem bem vistas, comentadas e por todos acharem aquilo bonito. ❤

    http://www.kailagarcia.com

  • Lina Em 12 . 03 . 2017

    Quando eu nasci, tinha a pele bem mais escura que hoje em dia, sempre fui a gordinha, vivia de trança pois era errado viver com afro. Eu ganhava diversas barbies mas odiava todas elas. Eu era apaixonada pela Suzi haha Eu me via nela, sentia que me transmitia mais realidade. Tinha horror a filme de princesa, preferia filme de animais, o meu preferido é Rei Leão, me ensinou falsidade, morte, força… Pode parecer que tento me exaltar por nunca ter dado força pra princesas mas não, eu realmente nunca gostei do que a midia sempre quis me impor como criança menina. Hoje em dia, feminista, dou graças a deus por não ter ligado pra isso. Infelizmente mesmo sem ligar eu sofri o mesmo bullying e segui frustrada sem entender o motivo de ser tão rejeitada. E sigo cheia de marcas até hoje.

  • Samira Em 12 . 03 . 2017

    Boa noite Lina, eu entendo perfeitamente essa angústia, também sempre sofri bullying na escola – no caso por ser a gorda da turma. E também nunca que mi na Barbie, a única diferença é que eu amava as princesas haha mas confesso, Rei Leão me atraía muito mais! E que bom que o feminismo nos dá forças hoje para lutar por nossos direitos, né? Obrigada pelo comentário amor ♥

  • Laura Nolasco Em 12 . 03 . 2017

    Sá, tô apaixonada por esse post! Digamos que eu dei sorte: Escolhi nascer de cara numa família com mãe e tia feministas esquerdistas super criticas e tals, sabe? Fui ganhar a primeira Barbie da mãe de uma amiga já tinha meus 6 ou 7 anos e já tinha ouvido muito sobre todas as críticas à boneca. Já tinha gente me dizendo, desde cedo, que eu não precisava ser daquele jeito. Que minha aparência não importava, que não era saudável querer ser como ela. E, ainda assim, não posso negar que vez ou outra olhei pro corpo da boneca como um ideal. Que vez ou outra, nas mil mudanças pelas quais meu corpo passou, me senti um lixo por estar tão distante daquele ideal. Espero que, no futuro, a gente consiga ser pras crianças e adolescentes e outras mulheres o que minha mãe e minha tia foram sempre pra mim – uma lembrança de que a gente vai muito além do que o tamanho da cintura, a sedosidade do cabelo e tantas outras coisas.
    Beijos!

  • Samira Em 12 . 03 . 2017

    Laurinha você realmente nasceu no berço de ouro ideológico hahaha super sortuda! E realmente não tem como fugir e como não passar por isso uma vez na vida que seja; os padrões estão a todo momento em nossa volta, sempre gritando pra a gente segui-los, e a caída, bom, ela é inevitável.