Literatura

“Só Animais os Salvam” – Resenha| A verdade que não ousamos ver

09.07.17

Livro "Só Animais os Salvam" da DarkSide resenhado por Samira Oliveira (Blog Dezoito em Ponto)

“Só os Animais os Salvam” é um livro da DarkSide escrito por Ceridwen Dovey e narrado por animais, mais precisamente, pela alma deles. Com uma emoção sincera, e profundamente o que chamamos de “humano”, a obra consegue nos levar aos mais elevados sentimentos e nos convida a presenciar a vida e a morte de célebres (e outros nem tanto) animais. Com objetivo de homenagear alguns cânones literários que escreveram sobre animais, a autora por vezes transcreve e parafraseia escritos destes homens elevados. Entre os que tiveram sua obra homenageada em “Só Animai os Salvam” estão: Franz Kafka, Thomas Man, Leo Tolstói, Virginia Wolf, José Saramago, entre outros, que foram aquecendo mais ainda o coração.

E o que chamamos de humano? De amor, de amor sincero, o que chamamos de pico da inteligência, do mais evoluído ser, da consciência suprema, da mais alta sapiência. O que chamamos de animal, o que somos, além de animais?  Algumas questões como estas me foram sendo levantadas ao longo da leitura; detectei muito de biológico, é visível que a autora fez uma boa pesquisa sobre a fisiologia e costumes sociais dos animais com que ela trabalhou. Também notei uma louvável questão de gênero levantada ao longo dos variados contos (ou mais correto, fábulas?!); em alguns momentos, como é o caso da alma de Tartaruga, que ao viver com um eremita que a considerava como macho, aceitou para si essa verdade, e só se descobriu como fêmea ao mudar de dona – na verdade, ao ser recebida pelos pensamentos da nova dona:

Livro "Só Animais os Salvam" da DarkSide resenhado por Samira Oliveira (Blog Dezoito em Ponto)

Até conhecer a condessa Alexandra, eu não havia pensado muito sobre meu próprio gênero. Na verdade, pelas décadas que vivi com Oleg, ele acreditou que eu era macho (o gênero das tartarugas é algo difícil de decifrar), equívoco que encorajei para meu próprio entretenimento… (p.118)

Sua consciência como “mulher” só foi aflorada quando a condessa Alexandra passou a ler em voz alta – para si e para a tartaruga – uma das pioneiras autoras feminista, Elizabeth Cady Stanton. Essa qualidade foi reforçada, quando a tartaruga foi dada de presente para Virginia Wolf enquanto esta escrevia “Flush: memórias de um cão” inspirado na relação entre Elizabeth Stanton e seu cão, narrado pela perspectiva deste.

Ao ler este conto pensei ter notado referências ao relacionamento entre Virginia e Vita Sackville-West, sua amante, e indiretamente – ao notar o grupo de Bloomsbury, ver surgir outras mulheres essenciais na vida de Virginia e na construção de sua literatura feminista. Ao tratar da francesa Colette, seu relacionamento homossexual também foi ressaltado, o que serviu de exemplo à gata Kiki-la-Doucette para ignorar com todas as forças as investidas do gato da vizinhança. A sexualidade é um ponto forte na obra e aparece mais gritante no conto do Chimpanzé ao aproximá-lo ao máximo do humano.

Livro "Só Animais os Salvam" da DarkSide resenhado por Samira Oliveira (Blog Dezoito em Ponto)

Ser mãe me ensinara a viver no presente, no instante imediato, a estar preparada para responder às necessidades mais urgentes e a me desconectar de outros pensamentos e ondas de ansiedade, a estar com ela sem pensar em passado ou futuro. Tão logo nasceu, surpreendeu-me sua inteireza e discrição. Eu esperava uma tábula rasa, mas ela já era alguém completamente formado. (p.208)

Outras questões importantes são as mais variadas guerras humanas e os efeitos colaterais delas – causadas injustamente nos animais. Neste ponto, o conto do Golfinho é o mais tocante. Todos os animais estão mortos – visto que sua alma quem narra suas histórias – e todos contam como foi a sua morte, não de um modo deprimente e desesperador, mas com a máxima leveza com que este processo possa ser tratado. Você não consegue chorar em lágrimas, mas por dentro há aquele comichão no coração, aquela sensação forte de injustiça, tristeza e serenidade. Guerra Fria, Primeira e Segunda Guerra Mundiais e guerras mais contemporâneas, todas afetam os animais, todas são rcebidas com horror frente ao horror humano, deixado uma mensagem geral: os animais matam, matam sim, mas para sobreviver e se alimentar – mas só os humanos, matam uns aos outros, apenas por matar.

E importa, agora? Que alguns de nós morram de doença, outros de subnutrição, outros por abandono? Todos morreremos famintos, mas apenas eu escolhi passar fome. Os humanos não são melhores. Seus laços são frágeis demais, mantidos por não mais que comida partilhada à mesa. Isso é tudo que separa os comportamentos de macacos e humanos? Refeições quentes e regulares?

Elementos tão caracterizados por nossa “civilização” são mostrados nos animais; cultura, fé, respeito aos mais velhos e aos antepassados, respeito ao outro e até mesmo ao predador, segurança da família e dos que eles amam, alegria, emoção, vícios, sonhos, remorso, desejo… E inúmeras outras formas do nosso sentir. “Após a primeira fagulha de criação, todos somos deixados sem lar, cada criatura sobre a Terra. (p.144)”

Livro "Só Animais os Salvam" da DarkSide resenhado por Samira Oliveira (Blog Dezoito em Ponto)

O refino do pensamento, cultura e sentimento dos animais é tão acentuado que eles até mesmo reconhecem seu nome científico e aceitam a sua derradeira relação com os humanos: “Qual é nosso sabor para os humanos?” Em dado momento, há a sensação clara, de que os selvagens somos nós, em uma perfeita inversão de valores e papéis, – senti-me mais e mais injusta, cruel e desonrosa perante os animais. Uma obra que deixa todo ser, que ama os animais (do vegetariano até o mais frequentador de churrascaria) completamente tomado.

Em um dos contos, a morte do animal começa a ser narrada do futuro, provocando uma sucessão de acontecimentos que deixam a ação e a cena como certa e imutáveis, como se a alma do animal quisesse logo contar isso – antes que se arrependesse, antes que sofresse. Apesar do tom mais triste, todas as histórias são incríveis e muito lindas, ótimo para refletir e se divertir com uma ótima leitura! DarkSide, obrigada por esse livro tão lindo, Belinha e eu ficamos apaixonadas!

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