Literatura

Literatura Angolana – ONDJAKI “Os Transparentes”| Desdobramentos da Política e do Imaginário

12.07.17

Literatura Angolana - ONDJAKI "Os Transparentes"| Desdobramentos da Política e do Imaginário - Análise Literária feita por Samira Oliveira para o trabalho final de Literatura Africana I da USP

Este semestre fiz a matéria Literatura Africana I (Angola) e minha análise para o trabalho final foi sobre o livro “Os Transparentes” de Ondjaki. Ao invés de uma resenha, desta vez vou postar uma análise – com menos spoilers possível –  espero que vocês gostem e, possam aprender tanto quanto eu, um pouco mais sobre a literatura angolana.

A obra de Ondjaki se insere no quadro da literatura angolana pós-independência – e só assim poderia ser, pois o escritor nasceu apenas dois anos após a independência do país, acontecida em 11 de novembro de 1975 –, com publicações feitas no começo do século XXI.  Afirmar isto não significa dizer que sua escrita desconsidera a produção literária anterior (do período de 1940 a 1975), colonial ou de “pré-independência”. De acordo com Cláudia Neves:

Ondjaki não rompe com a tradição literária angolana: em seus livros, podemos observar o mesmo compromisso com a construção da identidade nacional que é uma das características da literatura angolana(p. 25).

E seria mesmo difícil uma ruptura total; Após a independência, a população angolana tinha de pensar nos caminhos a seguir e construir, de fato, uma identidade nacional. Além disso e como reflexo dos tempos passados, os movimentos que lutaram pela libertação de Angola – MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), apoiado pela URSS e por Cuba, FNLA (Frente Nacional para a Libertação de Angola) e Unita (União Nacional para a Independência de Angola), ajudados pelos Estados Unidos, pela França e pela África do Sul, por influência dos EUA –, ainda na época de transição de colônia portuguesa para nação independente, deram início em um conflito entre si, por não conseguirem estabelecer um projeto político comum para o país, que se desenrolou na guerra civil, com um fim apenas em 2002. O MPLA acabou assumindo o poder, de forma reconhecida pela então Organização da Unidade Africana (OUA), após derrotar o FNLA e a Unita com o apoio das tropas cubanas. Porém, enfrentou muitas dificuldades, entre elas, uma economia destruída em função do “colapso da autoridade portuguesa, a perda de vidas e a desordem provocada pela guerra civil, bem como o êxodo da maior parte da população europeia até finais de 1975” (WHEELER E PÉLISSIER, 2009, p. 362) e crises internas, que levou a uma tentativa de golpe de Estado em 1977. Com esforços diplomáticos internacionais para dar fim ao conflito – através do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) – como por exemplo, o reconhecimento do governo de Angola em 1993 pelos Estados Unidos e com a morte de Jonas Savimbi, líder da Unita, em 2002 – antes disso, no final da década de 1970, a FNLA já havia se dissolvido. Tais acontecimentos históricos de Angola não podem ser ignorados pois eles perpassam e vivem na escrita de Ondjaki, que “apresenta-se como um universo particular, mescla de um mundo em que ocorreram colonizações, disputas de poderes, guerras, lutas, desejo de liberdade, utopias socialistas, poesia, infâncias, árvores, mais-velhos, histórias e estórias”. É a luz dessa mescla que tentaremos uma interpretação de “Os Transparentes” no presente trabalho.

Literatura Angolana - ONDJAKI "Os Transparentes"| Desdobramentos da Política e do Imaginário - Análise Literária feita por Samira Oliveira para o trabalho final de Literatura Africana I da USP

Apesar de direcionarmos a análise para uma relação entre o interno e o externo, entre a literatura e a política, há outros pontos de relevâncias que merecem a devida atenção. Entre eles, alguns aspectos mais técnicos como é o caso da escrita sem letra maiúsculas e com escassos recursos de pontuação. Essa característica torna a leitura mais próxima da oralidade e da linguagem da cidade, que acompanha o ritmo desta – rápida e incessante – e, igualmente, para se aproximar do gênero literário relacionado à cidade por excelência, que é a crônica. “Os Transparentes” tem como principal personagem o prédio, que já nas primeiras páginas sofre uma antropomorfização e atua no espaço desta obra como metáfora de algo muito maior, a própria Angola. Este microcosmos abriga pessoas de variados tipos e poder aquisitivo, indo do jornalista PedroPausado, que tem uma melhor condição econômica, a outros simples trabalhadores.

Nota-se também a interação entre duas forças absolutas: a água e o fogo. O fogo aparece primeiro, mas em passagens específicas: no começo e no fim da narrativa. Já a água acompanha a maioria das cenas em que o prédio aparece, e mais que isso, a água que escorre pelas paredes do primeiro andar tem um certo poder.

a água acontecia por corredores invisíveis, molhava os seus pés sobre sandálias gastas, primeiro sentiu uma tontura, uma tontura ao contrário, não era a cabeça que rodopiava, eram os pés que pareciam querer ensaiar minúsculos passos de dança (p.25)

Em “A anatomia da crítica” de Northrop Frye a água e fogo são elementos explicitados que se digladiam e que carregam um simbolismo mais extenso do que o aparente. No plano anagógico, o homem contém a natureza, e suas cidades e jardins já não são pequenos arranhões na superfície da terra mas as formas de um universo humano. Por isso, no simbolismo apocalíptico não podemos confinar o homem a seus dois elementos naturais (a terra e o ar) e, passando de um plano a outro, o simbolismo deve – como Tamino na Flauta Mágica – transpor os ordálios do fogo e da água. O simbolismo poético habitualmente põe o fogo exatamente acima da vida do homem neste mundo e a água exatamente abaixo dela (p. 146).

O mundo do fogo é um mundo de demônios malignos como os fógos-fátuos, ou espíritos irrompidos do inferno, e surge neste mundo sob a forma do auto-de-fé como se mencionou, ou das cidades em chamas como Sodoma. Contrasta com o fogo do purgatório ou purificador, como o forno ardente em Daniel. O mundo da água é a água da morte, amiúde identificada com o sangue derramado, como na Paixão e na figura simbólica da História, em Dante, e acima de tudo “o mar insondável, salgado, apartador”, que absorve todos os rios deste mundo, mas desaparece no apocalipse em favor de uma circulação de água doce. (FRYE, 2014, p. 151).

Também é notável como o fogo e a água surgem cercado de temáticas sexuais, seja na ocasião da água do prédio e seus efeitos de excitação, seja na passagem no final do livro, com o fogo que destrói a cidade:

beijaram-se de bocas abertas, desajeitadas, estreando nos seus ventres um fogo que assim se autorizava a chegar.(p.384)

E em seguida, o derradeiro acontecimento:

o fogo/ começou num curto-circuito (…)

E ainda pode carregar o significado de fogo purificador, de modo que a destruição da cidade também simbolizasse um recomeço. Recomeço esse que pode ser pensado em relação à descoberta de petróleo em Luanda que trouxe uma certa ideia de progresso e fez com que a população pensasse em uma nova realidade para si. Na narrativa, a massa (a população) não está ciente da situação, escondida ao máximo pelas pessoas poderosas, havia somente uma desconfiança por parte dos moradores do prédio e do jornalista sobre a escavação do petróleo. Ao descobrirem, alguns se perdem ao imaginar o que ganhariam com isso. A melhoria na vida do povo, no entanto, não aconteceu; o que poderia ser uma reviravolta na questão socioeconômica – tão desigual – de Luanda acabou em lucro apenas para os poderosos, para a classe exploradora (a burguesia).

Literatura Angolana - ONDJAKI "Os Transparentes"| Desdobramentos da Política e do Imaginário - Análise Literária feita por Samira Oliveira para o trabalho final de Literatura Africana I da USP

A exceção de personagens mais complexas como é o caso, por exemplo, de Odonato e Amarelinha, as personagens são planas e estão sempre em uma mesma situação já esperada pelo leitor, não apresentando grandes reviravoltas. A exemplo disso, o Carteiro, que passa a narrativa toda aguentando o destrato de muitos a quem ele tenta entregar suas cartas solicitando uma motorizada e, ao final, em uma postura mais ativa, observa o fogo consumir – quase que magicamente, visto que ele havia desejado a atuação de uma força superior – o lixo que o impedia de chegar até sua casa pelo caminho recorrente. Além disso, o narrador conserva uma posição mais distante destas personagens, aproveitando apenas o que os outros falam sobre ela. Em contrapartida, outros personagens recebem uma atenção do leitor em posição de narrador onisciente. É nome das personagens que classifica sua função, como o VendedorDeConchas, ou que pontua sua ideologia social – o Esquerdista – e até mesmo carrega em si a crítica social – DomCristalino –, aproximando-se outra vez da oralidade, por ignorar o nome de batismo destas personagens e incorporar a elas o nome pelo qual ela é conhecida, seja pela sua função, seja por uma crítica mais velada. Os nomes DestaVez e DaOutra causam certa comicidade, pois se tratando de indivíduos que buscam tirar proveito das mais variadas situações pelas quais passam os mais humildes, ao tentar extorquir e chantagear, elevando seus títulos e seus encargos e até mesmo “aturando” uma situação dita “incorreta” desta vez porquê da outra a situação se complicará

–sempre se pode falar de “quanto”, meus amigos, estamos em Luanda. (p.332)

A crítica a governança é visível em passagens e figuras como a de DomCristalino e sua ambição em privatizar a água ou na do Ministro e do Assessor, que solicitam a DestaVez e DaOutra que busquem os mais diversos feriados de todos os países para os introduzir no calendário de Angola, o que também demostra como eles não bendizem as guerras que lutaram e ganharam, tendo de usar de “solidariedade” para com outras culturas, mas, para além disso, a ideia de que se deve trabalhar cada vez menos enquanto que o desenvolvimento real fique para um futuro incerto. Estas questões mostram a transparência, a invisibilidade, do povo para o governo – de modo a justificar o título “Os Transparentes” – e ficam bem claras nas seguintes passagens:

– Há controvérsias, meus amigos… nas primeiras entrevistas ele falou dos cuidados, dos riscos, das potenciais consequências, agora já ninguém o ouve… o sistema já deve ter dado um jeito, agora é só falar nas vantagens, já inauguraram nova empresa de distribuição de águas… onde é que já se viu!… águas privatizadas…(p. 236)

e

[…] porque somos globalmente corruptos, aqui a cidade vai ser furada, a água vai ser privatizada, o petróleo vai ser sugado sob as nossas casas, os nossos narizes, e as nossas dignidades… enquanto os políticos fingem que são políticos… enquanto o povo dorme… enquanto o pobre dorme… (p. 237).

Literatura Angolana - ONDJAKI "Os Transparentes"| Desdobramentos da Política e do Imaginário - Análise Literária feita por Samira Oliveira para o trabalho final de Literatura Africana I da USP

“A miséria da África não tem causas naturais. Ela é um legado da escravidão, da dominação colonial e, mais recentemente, do jogo entre as superpotências durante a Guerra Fria” É o que afirma José Arbex Jr e o que podemos encontrar entranhado na obra de Ondjaki ao denunciar a invisibilidade da população diante de outras preocupações do governo. A questão colonial não foi realmente superada, a independência aconteceu, mas os países africanos se mantiveram ligados a outras potências, no caso de Angola através dos próprios movimentos que lutaram por sua libertação. O que deveria ser o momento de construir e pensar no rumo a ser tomado como nação independente virou um conflito entre esses movimentos – movimentos que se tornaram partidos, entre eles o MPLA, apoiado pela URSS e Cuba, que esteve à frente do governo Angolano depois da independência e passou por diversas crises, entre elas uma tentativa de golpe de Estado – e uma guerra que chegou até a população. A chance de uma melhoria na economia – quebrada em função da guerra – com a descoberta do petróleo não aconteceu. A invisibilidade da opinião popular nesse assunto foi substituída pelo interesse internacional em explorar esse recurso. No livro, o Partido governador sucumbe aos interesses da extração do petróleo, autorizando que ele seja retirado do subsolo e espalham fogos de artifícios que seriam soltos com o final da escavação.

o fogo

começou num curto-circuito no coração do LargoDaMaianga, onde já se haviam instalado muitos quilos de explosivos que mais tarde, programados, fariam o prometido espetáculo de fogos de artifício que o Partido pagara e promovera. (p.348)

O que acontece, no entanto, é que há um curto-circuito que gera um incêndio e, o que dominou a imaginação da população, como uma alternativa para a construção de uma nova vida, torna-se destruição ou, numa perspectiva mais otimista, em um recomeço, não mais ligado aos interesses alheios. Entretanto, a obra de Ondjaki é uma mescla de temas e não trata só sobre a história política de seu país. No que diz respeito a tradição cultural, alguns aspectos vistos inadvertidamente como “realismo mágico” são melhor interpretados como realidade carregada de simbolismo. A exemplo disso, a Kianda, a sereia africana, entidade que habita os lagos e mares e que cuida da água. No trecho “é marginal nova com prédios construídos em areias dragadas sem pedir licença à Kianda” (p. 237) é notável a importância dada a esta entidade que permeia o pensamento angolano como força viva e atuante. Outro aspecto cultural interessante é a cerimônia fúnebre que dura de três a sete dias (para as pessoas mais ricas) e que, caso não haja a celebração, a alma vira um Cazumbi a vagar entre os vivos. O cadáver de CienteDoGrã ter ficado cada vez mais pesado ao chegar na casa do pai foi encarado como feitiço com uma naturalidade que só existe por já estar incluído há tempos no imaginário da população. Ainda a respeito do “inexistente” realismo mágico, há o acontecimento do eclipse que, após a morte da Senhora Ideologia, foi cancelado, fazendo com que inúmeros cientistas internacionais junto de todo o povo ficassem surpresos. Este cancelamento busca mostrar a força do governo que supera as barreiras do possível e representa a força deste.

Literatura Angolana - ONDJAKI "Os Transparentes"| Desdobramentos da Política e do Imaginário - Análise Literária feita por Samira Oliveira para o trabalho final de Literatura Africana I da USP

BIBLIOGRAFIA

FRYE, N. Anatomia da crítica: quatro ensaios. São Paulo: É Realizações, 2014.

JÚNIOR, J. A. Capítulo. Guerra fria: O Estado terrorista. São Paulo: Moderna, 2005.

NASCIMENTO, M. J.; SILVA, H. C.; SILVA, N. B. Os Transparentes: Ondjaki na visão do materialismo histórico dialético. Cadernos Imbondeiro, João Pessoa, v. 3, n. 2, 2014.

NEVES, C. C.; Ondjaki e os “Anos 80”: ficção, infância e memória em AvóDezanove e o segredo soviético.  2015. 143 f. Dissertação (mestrado em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2015.

ONDJAKI. Os Transparentes. Companhia da Letras, 2013

ROCHA, J. V. As margens da experiência: Os miúdos e os mais-velhos na narrativa de Ondjaki. 2013. 140 f. Dissertação (mestrado em Teoria Literária). Departamento de Língua e Literaturas Estrangeiras, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. 2013.

WHEELER, D.; PÉLISSIER, R. História de Angola. Lisboa: Tinta da China, 2009.

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