Literatura

Minha Vida Fora dos Trilhos – Clare Vanderpool | Guerra e imigração nos EUA

07.08.17

Livro: Minha Vida Fora dos Trilhos
Série: DarkLove
Autor(a): Clare Vanderpool
Editora: DarkSide
Genero: Romance
Páginas: 311
Classificacao:
Sinopse: A protagonista de Minha Vida Fora Dos Trilhos, Abilene Tucker, tem apenas 12 anos, mas é corajosa e impetuosa o suficiente para encontrar aventuras na pequena cidade de Manifest, Kansas, um fim de mundo para onde seu pai a enviou de trem a fim de passar o verão sob a tutela de um velho conhecido enquanto ele trabalha em uma ferrovia. O que parecia ser o período mais solitário e entediante de sua vida ganha um novo e surpreendente rumo quando Abilene encontra uma velha caixa de charutos com cartas antigas e pequenas lembranças de outros tempos. Aos olhos curiosos da menina, a caixa se torna uma verdadeira arca do tesouro, onde segredos enterrados conectam dois momentos da cidade. A partir de então, o livro se divide em duas narrativas cronológicas: passado e presente se misturam, daquela maneira mágica que só um bom livro consegue contar. Os acontecimentos vão da época da Primeira Guerra Mundial à Grande Depressão norte- americana dos anos 1930, com soberba fidelidade histórica que ajudam a construir esta narrativa de perda e redenção.

Nunca um livro foi tão propício para a época que estamos vivendo quanto “Minha Vida Fora dos Trilhos”. Tratando de questões sérias como imigração, Primeira Guerra Mundial, xenofobia e exploração trabalhista, a obra só ganha essa dimensão depois que você termina a leitura e pesa todos os assuntos tratados. Apesar das questões pesadas a narração é tão leve, divertida e gostosa que o tempo passa e você está lá, em 1936 sem querer sair dos trilhos da cidade de Manifest.

Quem sonharia que alguém pode amar sem ser esmagado por esse peso?

“Minha Vida Fora dos Trilhos” é sobre uma garotinha chamada Abilene que desde sempre viveu junto ao pai Gideon Tucker vagando pelos Estados Unidos em busca de emprego; comida de caridade e eventualmente, um teto para dormir. A vida de Abilene era feliz perto do pai, mesmo com todas as adversidades – toda a sua narração baseada em lembranças são repletas de doçura e saudades. Lembranças, pois o livro começa com a chegada da menina sozinha à Manifest, uma cidade assentada sobre uma mineradora o qual explora os mineiros com altas horas de trabalho e pagamento em vales para trocar no armazém da companhia mineradora. É interessante perceber como a garota, que também é a narradora, enxerga ao mundo e a si própria – chegando a conclusão máxima de que ela não pertence a lugar algum, e sem Gideon para cuidar dela, não pertence nem mesmo a essa cidade. Seu pai a mandou para a Manifest pois foi a cidade em que ele supostamente cresceu e, pelo que foi prometido, ele voltará para buscá-la antes das férias de verão acabarem – fato que é desconversado por Shady e Hattie Mae.

Esses personagens são muito importantes para que se entenda toda a história. Shady é o pastor da igreja batista local – mesmo que a “igreja” seja também bar e casa, além do estranho fato de nunca aparecer nenhum fiel para os “cultos”. Já Hattie Mae é a repórter local, que é uma personagem que fala mais pelo próprio jornal do que com Abilene. Isso porque a menina – em sua busca por pistas da vida de Gideon na cidade – coleta alguns jornais e passa a lê-los com frequência. Nessas ocasiões, o jornal é reproduzido nas páginas do livro – inclusive com as propagandas (hilárias) da época, por exemplo: Pomada para Lumbago da Santa Fortuna – e com a coluna escrita por Hattie Mae.

Devia ser o calor cada vez mais forte, mas eu sentia os trilhos vibrando embaixo dos meus pés. Mantinha os olhos fechados e tentava me lembrar do som e do movimento do trem nos trilhos, algo que às vezes, me fazia sentir solitária, às vezes, tranquila.

Uma coisa que amei na obra foi a grande variedade de pontos por quem podemos observar a história. Inicialmente há apenas a narradora Abilene, mas já em sua primeira noite em Manifest ela encontra uma caixa escondida no assoalho, e essa caixa guarda tesouros pessoais – e que agora são os seus próprios tesouros. Mas o que será que significa um anzol, uma bonequinha Matrioska, uma chave, um dólar…?! Munida desses itens e de cartas trocadas entre um tal de Ned e um certo Jix, a menina parte na missão de descobrir a história do passado de Manifest, e quem sabe, descobrir o de seu pai. Para que a história seja contada, o jornal nos dá uma visão – de Hatie Mae e também das propagandas que nele contém – , de Sadie  a vidente da cidade, de Abilene e principalmente: da própria cidade. Isso porque os acontecimentos da missão de Abilene vão se complementando com as interações que ela tem com os moradores de Manifest, e pouco a pouco, o passado vai sendo revelado. Mas Gideon, o motivo dessa busca incessante dentro do passado da cidade – onde ele se encontra no presente? Onde ele deixou marcas nessa cidade?

Além do enredo cheio de mistérios e pegadinhas para o leitor – diversas vezes eu me pegava tentando resolver o passado da cidade, mas buscando pistas no personagem errado – ele também nos mostra a Primeira Guerra Mundial pelos olhos de uma cidade pequena; de pessoas que abandonaram seu país de origem para tentar uma vida com mais paz nos EUA. Pessoas essas que tem inúmeras diferenças e até rixas mas que estão juntas numa nação nova: a dos imigrantes. O retrato dessas pessoas, da dificuldade que tiveram de migrar de seu pais para os EUA, o desprezo que por vezes enfrentaram, a exploração que aturam para que os filhos tenham o que comer, e a pobreza sempre constante. Tudo isso me fez lembrar os dias de hoje, com Trump e sua intolerância, xenofobia e preconceito; querendo construir muros e pregar um povo fechado, sendo que as bases desse país foi construída por imigrantes. É imensamente triste ver os imigrantes que fogem das Guerras no oriente e que se tornam apenas “refugiados”, que muitas vezes também são maltratados no mesmo lugar onde buscaram paz. Para mim, essa foi uma das maiores questões que o livro me suscitou.

Com espaço para sonhar, se emocionar, passar raiva e se divertir, “Minha Vida Fora dos Trilhos” é justamente aquele livro que você lê apenas para se divertir, mas acaba aprendendo e sendo tocado. Presentes que vêm de brinde a partir de um livro leve e delicioso de ler! E o que dizer dessa edição? Com páginas ilustradas (como essa de cima) e letras que lembram passagens antigas de trem, cada página virada é uma surpresa boa para os olhos e para o coração – que lê e se aprofunda na história. Para leitores que colecionam edições lindas de livros e histórias emocionantes, esse livro é pra você!

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  • Yuri S Em 07 . 08 . 2017

    Aaaaahhhhh, que história interessante! Fiquei com bastante vontade de ler. Aliás, Darkside Books <3333333

  • Thaís Em 07 . 08 . 2017

    Adorei a resenha, Sa! Eu to com esse livro na estante pra leitura e me animei com a sua opinião. Espero gostar tanto quanto você! <3

    Um beijo!

  • Aline Callai Em 07 . 08 . 2017

    Sua resenha ficou ótima e amei as fotos <3 Me interessei demais pela história e com certeza vou colocar na listinha! A Darkside sempre arrasa na diagramação, sou doida pelos livros deles <3
    Beijos!

  • Isabelle Felicio Em 07 . 08 . 2017

    Amo quando leio livros assim, que me fazem sentir um algo mais além da história. Já to querendo esse livro desde que coloquei os olhos dele. Essa resenha ta absolutamente maravilhosa, só me deu mais vontade de ler o livro.

  • Samira Em 07 . 08 . 2017

    Awn obrigada Isa! Realmente esse livro é sensacional e você so descobre o quanto depois de ler ♥ Quero saber o que você achou depois ein?