Literatura

Para Educar Crianças Feministas – Um Manifesto | Chimamanda Ngozi Adichie

19.09.17

Para Educar Crianças Feministas é da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Eu estou até agora impactada com este livro e tenho certeza de que será uma obra que eu levarei para a vida toda – literalmente, onde eu estiver, No Brasil ou na Turquia, esse livro vai comigo! Se um dia eu tiver um filho então, esse livro será exatamente meu manual. Ele é bem curtinho e pequeno e com uma escrita fluída e muito boa em formato de carta. Isso porquê a amiga de Chimamanda, a Ijeawele lhe pede orientação para criar sua filha, Chizalum Adaora, como feminista. Assim, com 15 sugestões para a criação, a autora trata desde as questões mais difundidas do feminismo até as mais específica, e digamos, novas. Eu li com tanto afinco que até me esqueci de marcar as partes que mais me fizeram refletir – algumas inclusive que eu gostaria de apresentar a vocês – por isso estou lendo o livro mais uma vez, na tentativa de colher as questões principais.

Algumas coisas nunca tinham passado pela minha cabeça, e esse livro me fez repensá-las. Uma das muitas questões é o fato de a mulher “esperar” que o homem a peça em casamento e não ter nunca o direito de tomar a iniciativa e fazê-lo. Segundo a autora, o ato de “pedir” em casamento carrega todo o poder da relação, pois antes que a mulher possa decidir se aceita ou não – e isso pode ser considerado um grande ato de poder (ironia tá) por algumas pessoas – o pedido precisa ser feito, certo? Chimamanda completa: “desejo de coração a Chizalum um mundo em que qualquer uma das duas pessoas possa pedir, em que uma relação se torne tão confortável e repleta de alegria, que a própria ideia de se casar seja motivo de conversa, ela mesma repleta de alegria.”

Ainda sobre o casamento, achei interessante outras duas ideias apresentas, uma referente ao nome que mulher muda após de casar, e outra referente á ideia necessária do casamento. Na primeira, a autora explica que em sua cultura (faço essa distinção pois acredito que no Brasil não seja colocado dessa forma), uma mulher só é considerada Sra (e com o nome que herdou do marido) após o casamento, enquanto que o homem é “Sr.” sempre, posto a isso há ainda a questão da mulher abandonar seu nome de nascença para adotar o do marido (sem que o contrário seja praticado). Chimamanda comenta que uma mulher comentou certa vez que entende o fato da autora não ter abandonado seu nome de nascença, pois seu nome já era famoso; com esse comentário fica implícito que a mulher só pode manter seu nome se ele for alto e reconhecido, enquanto que para o homem não há essa necessidade. Para a segunda ideia, me chamou muito atenção uma passagem contada; em um batizado de uma bebê de 3 meses, uma mulher escreveu que os bons votos dela eram: “desejo-lhe um bom marido”, fato que seria impensável se o bebê em questão fosse do sexo masculino. Assim, as meninas crescem almejando o máximo de vida, o casamento, enquanto que para o homem não é ensinado o mesmo.

As mulheres são moldadas para serem agradáveis, meigas e frágeis, carregando nos ombros a necessidade de ser sempre “boazinha”, de não explorar um parquinho até a não se pronunciar quando tiver uma ideia diferente da posta. A autora ensina que as meninas precisam ser ensinadas a serem autênticas, corajosas e bondosas (assim como os homens), ensina ainda que essa premissa de “seja boazinha” é danosa principalmente em casos de abusos não relatados já que elas não podem se manifestar. Mesmo porquê, elas são vistas como um mero objeto ao homem e portanto é perdoável o abuso e o maltrato.


A vergonha que atribuímos à sexualidade feminina se refere a uma questão de controle. Muitas culturas e religiões controlam o corpo feminino de uma ou de outra forma. Se a justificativa para controlar o corpo da mulher se referisse a elas mesmas, seria compreensível. Um exemplo hipotético: as mulheres não devem usar saia curta porque, se usarem, podem ter câncer. Mas, pelo contrário, a razão não se refere a elas, mas aos homens. As mulheres precisam andar “cobertas” para proteger os homens. Isso me parece profundamente desumanizantes, porque reduz as mulheres a meros acessórios usados para administrar os apetites masculinos.

Outra questão que nunca havia passado pela minha cabeça é sobre a cor da roupa para “meninos” e para “meninas”. Claro que já achei absurdo essa divisão, mas nunca cogitei uma solução. A autora sugere que as lojas organizasse as roupas de bebês entre idades e não entre gêneros, desconstruindo essa questão das cores fixas para meninas e meninos. O mesmo acontece para os brinquedos das crianças, enquanto os meninos recebem brinquedos de ação  e que portanto, pedem um atividade, as meninas recebem brinquedos “passivos”. Assim, ela sugere que os brinquedos sejam divididos por tipo e não por gênero.

Saber cozinhar não é algo que vem pré-instalado na vagina. Cozinhas se aprende. Cozinhar – o serviço doméstico em geral – é uma habilidade que se adquire na vida, e que teoricamente homens e mulheres deveriam ter. É também uma habilidade que às vezes escapa tanto aos homens quanto às mulheres.

O relacionamento doméstico entre homem e mulher também foi abordado, este excerto de cima é exatamente sobre isso. Chimamanda ensina que a mulher deve continuar tendo sua vida “fora” da maternidade, ou seja, o trabalho, a diversão e tudo o mais. A maternidade não deve ser algo que aprisione a mulher (mesmo porquê não acontece o contrário, de aprisionar o pai), a maternidade deve ser dividida entre o casal, pois o papel de criar é de ambos. Assim, nunca deve-se dizer que o pai está de “babá” como se sua obrigação de pai não existisse, também o “ajudar” não deve ser empregado, afinal o filho pertence a ambos!

Agora, uma das principais, uma das Ferramentas Feministas apresentadas: “a gente pode inverter X e ter os mesmo resultados?” ou seja, se há um questão que de pronto parece machista inverta-a (de mulher para homem ou de homem para mulher) e observe o resultado, se o resultado for diferente para a mesma questão então a situação é mesmo machista. Isso eu sempre uso para medir algumas coisas do cotidiano, coisas que eu não tenho certeza se estão sendo sexistas/machistas ou não.

“A primeira é a nossa premissa, a convição firme e inabalável da qual partimos. Que premissa é essa? Nossa premissa feminista é: eu tenho valor. Eu tenho igualmente valor. Não “se”. Não “enquanto”. Eu tenho igualmente valor. E ponto final.

Enfim, esse foi apenas um “tira gosto” do quão maravilhosamente perfeito é esse pequeno livro de 94 páginas. É algo que você lê em meia hora, afinal, foi escrito a partir de uma carta – e carta não são romances, certo? Acredito que esse livro vai te fazer pensar muitas coisas, e mesmo se você se considera versada(o) e em todas as questões do feminismo (como eu me considerava antes de ler), leia, e você vai descobrir que sempre há muito para aprender. Acho também um presente incrível para pais de primeira viagem (e para os que já tem filhos também, oras!), para homens e mulheres, para quem é feminista e para quem *ainda* não é. Enfim, leiam, se apaixonem, reflitam, disseminem essas ideias para que possamos  cada dia mais construir um mundo mais igualitário.

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