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Lembranças do “quartinho do fundão”| Um texto sobre desatulhamento

10.10.17

Memórias advindas do "quartinho do fundão" um texto sobre infância, lembranças, arrumação e renovação!Recentemente, eu e minha avó tiramos férias para arrumar a casa. Na verdade, arrumar um determinado cômodo; o carinhosamente chamado, “quartinho da bagunça”, que, segundo dizem, “toda casa deve ter”. Mas na verdade, acho que eu não concordo muito com isso não…Vou explicar. Depois de tantas indas e vindas dentro da cachola, me toquei de uma coisa; a gente precisa viver a vida o mais leve possível. Não importa se a leveza significa morar perto do mar, andar descalço, pular de paraquedas ou tomar um suco refrescante no verão. Na verdade me refiro àquela leveza mais profunda, aquela de quando você tirou de sua vida todas as pessoas que te arrastavam para o fosso – aquelas que sempre te faziam desanimar antes do primeiro passo – Ou se afastou de quem parecia apenas te querer por partes – não por inteiro como você é. Ou apenas se você resolveu finalmente, mudar de cidade ou de emprego. O que importa é o quão leve você se tornou depois dessa experiência. Para nós, a nossa leveza do momento era arrumar o dito quartinho do fundão (outro apelido carinhoso para o bonito!) E lá fomos nós, depois de árduas semanas, inúmeros sacos de lixo de ração de cachorro (uns 15kg) jogados fora diariamente; dor nas costas, nos braços, nos joelhos; marteladas, pisadas de pé, subidas e pulos por sobre os papelões, reclamações, brigas, pensamentos de desistência e até mesmo gritos… Finalmente! O grande esquecido grande quartinho lindo! Ei-lo! Tão esperado, tão planejado por mim! – vai ficar pra ser o quartinho de costura da vó né? – E a lição de tudo isso, de todo esse afã para finalmente entrarmos para a lista dos adeptos ao estilo minimalista, foram dois: 1 a gente guarda muita coisa e 2 a gente precisa viver cada vez mais leve.

Memórias advindas do "quartinho do fundão" um texto sobre infância, lembranças, arrumação e renovação! Esse é minha família, meu desenho de infância.

Então vamos combinar né, que guardar muita coisa com viver mais leve não são duas coisas que se biquem muito bem. Mas uma coisa interessante foi notar a passagem do tempo pelas coisas e “quinquilharias” jogadas fora. Eu resmungava a todo instante “mas você não vai guardar isso né” ou “mais vó, certeza que ce vai precisar de 5 caixas de ferramentas?” ou “mas realmente, o que vamos fazer com essas prateleiras?” ou até mesmo “Você guarda pra quando precisar, SE precisar. Mas quando realmente precisar você não vai nem lembrar que tem, e se lembrar não vai achar e se não achar ou não lembrar vai comprar outro novamente. Ou até mesmo comprar dois – um pra pra usar quando precisa e outro pra guardar pra quando “precisar” ” Nos tornando assim uma bola de neve sem fim.

Memórias advindas do "quartinho do fundão" um texto sobre infância, lembranças, arrumação e renovação!

Mas falemos do tempo, falemos desse terrível tempo que corrói os móveis de madeira e faz as paredes embolorarem e os livros se tornarem pó… Quando eu imaginaria que a letra da minha tia seria tão bonita mesmo quando ela estava na quarta série? Quando eu saberia que minha mãe era poeta como eu? Como eu poderia desconfiar um dia que duas pequenas pombinhas seriam os adornos do convite de casamento da minha avó. Ou que meu avó fora um fã de espiritismo? De qual outra maneira eu entenderia e profunda evolução pessoal da minha avó. Como eu desconfiaria que eles guardavam coisas sem nem mesmo pensar em jogar. Como eu entenderia, que o apego à matéria é algo que vai se desfazendo conforme vamos avançando a idade e avançando na evolução. Será que agora eu entendo que aquela folhinha de 1997 marcando os dias das trocas do botijão de gás seria importante porque foi no ano em que eu nasci? Será que agora eu sei que aqueles inúmeros brinquedos da geração passada, ainda guardados no fundão, seriam um dia aproveitados por meus primos? Como eu desconfiaria que, ao olhar uma boneca, ao tocar uma baleinha de plástico e uma boneca meio molenga, eu lembraria da minha infância ou que meus desenhos eram repletos de “Belinhas”? Como eu saberia que, ao desenhar minha família, não ficaram de fora nem meu tio e sua cachorrinha e nem meus avós e tia. Será que se eu fechar os olhos ainda vejo o cavalinho cavalgando pelo sofá, com uma ovelhinha atrás? Será que eu ainda consigo encontrar, nos recantos mais sombrios de mim, o meu velado ódio por aquela ovelhinha? E se a pessoa que sou hoje soubesse como eu lembraria com amor, daquela boneca reclamona ou do famoso “Yano” que eu levara na escola, será que ela teria brincado mais? Será que eu teria aproveitado mais aquela caixinha de música – que eu sempre pensei ser da Sandy & Junior, na verdade ser da Chiquititas – e ter feito-a pegar e cantar? Porque então, o Tigrão parece que dá uns saltos mais baixos? Por que minha boneca de cabelos encaracolados e ruiva ficou menor? Por que minhas fofoletes perderam o cheirinho de flor? Por que das minhas bonecas restaram apenas um rastro vago, de uma infância feliz – que eu já nem me lembrava e que tinha sido apagada pelos traumas sofridos na escola – por que raios não foram essas as lembranças que ficaram? Meu inconsciente insiste em se recordar de uma casinha da Polly que fora destruída – mas não se lembra da cozinha de madeira que eu tanto gostava. Se lembra da casa dos sonhos da Barbie que eu nunca tive – mas não lembra que eu tomava a cozinha inteira pra mim e fazia dela uma mansão enorme, com varais, moveis esparramados e inúmeros pratinhos de boneca. Por que minha cabeça de antes, assim como a de hoje, fecha os olhos para o que tem e se angustia pelo que não teve? Tá aí uma boa chance de eu me tornar mais leve.

Tá ai um bom momento para se libertar, mas será que um dia a gente consegue? Será que algum dia a gente consegue soltar da jaula os demônios de dentro de nós, sem que ainda eles aparecem aqui e alí em um rastro na escrita? Será que perdoar, esquecer, não nos torna menos nossos dos que já somos? Tá ai, um bom momento para arrumar a casa, desatulhar um cômodo, fazer algo com a sua mãe, pedir ajuda para o namorado, fazer algo de útil para a sua família. Quem sabe cuidando da casa, desejando mais renovação e amor, ela não acaba também por cuidar de você? Tá na hora então de… D E S A T U L H A R

Ecdise – Conto de Samira Oliveira +18
Amigo, ainda me sobraram dedos para te contar.
Mirando-se no espelho.

:D :-) :( :o 8O :? 8) :lol: :x :P :oops: :cry: :evil: :twisted: :roll: :wink: :!: :?: :idea: :arrow: :| :mrgreen:
  • Larissa Zorzenone Em 10 . 10 . 2017

    Olá
    Meu pai tem não um, mas dois cômodos assim na casa dele hehe. Tem mutia coisa minha (que não cabe aqui em casa) e coisa antiga minha e da minha irmã. Meu pai é meio acumulador, então complica. Sempre que vou para a casa deles, dou uma olhada nas minhas coisas guardadas e tiro algumas para jogar fora. Já tem tempo que não fico mais atulhando coisa que não vai me servir de nada. Precisamos mesmo ter uma vida mais leve.

    Vidas em Preto e Branco