Literatura

Um útero é do tamanho de um punho – Angélica Freitas

05.01.18

Um útero é do tamanho de um punho - Angélica Freitas resenha crítica por Samira Oliveira dezoitoemponto.comUm útero é do tamanho de um punho, o segundo livro da poeta gaúcha Angélica Freitas é um manifesto às avessas. Às avessas pois não prega um feminismo tradicional de emancipação feminina. Antes é com sagacidade que desconstrói a imagem sobre a mulher, e é com humor que a estende sobre nós para que possamos remontá-la – ou não. Para a poesia de Angélica, a mulher é construção, é casa fechada e comportada que apenas muda a rua. Para a poeta, a mulher é delicada aos outros, é vista como uma “salada” pela superfície social, mas mais a fundo é que percebemos, a mulher é um pedaço de carne – assim nomeada pela sociedade patriarcal em nossa percepção mais funda sobre ela.

Dividido em 7 partes – o número da perfeição, da totalidade do Universo e da transformação.

“Uma Mulher Limpa” conta com poemas extensos e muitas vezes divididos entre as páginas. É nessa parte em que Angélica brinca com cantigas populares como a do “um elefante incomoda muita gente”. Com balbucios infantis como “mamu” “mami” e “mamona” e ainda com ritimo e sonoridade musicalizada como no poema Alcachofra. Como o título da seção sugere, o estereótipo trabalhado é o da “mulher suja” e “mulher limpa”, em outras palavras, a mulher de “valor” e “para casar’ de um lado, e a “para comer” do outro.

Na seção “Mulher de” vemos várias acepções da mulher, desde tarefas tomadas como próprias, como é caso de “mulher de regime” e o peso do corpo perfeito e da beleza padrão, até outras mais atuais como em “mulher de valores” em que a palavra “valor” é transferida de adjetivadora para substantivada, e tem o sentido deslocado para “bolsa de valores”, a função da eu lírico.

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“a mulher é uma construção/deve ser/a mulher basicamente é pra ser/um conjunto habitacional/tudo igual/tudo rebocado/só muda a cor/particularmente sou a mulher/de tijolos à vista/ nas reuniões sociais tendo a ser/a mais malvestida.” E é nessa construção que se nomeia a terceira seção. Aqui a mulher se reivindica a si mesma, se reconhece na serpente do paraíso e se remói em si a pressão social que a todos atinge.A\A mais performática é sem duvidas, a seção que nomeia o livro, “um útero é do tamanho de um punho” é inteiro sobre a polêmica tão absurda da sociedade reclamando pela sua pose e opinando sobre o  aborto: “um útero é do tamanho de um punho/num útero cabem cadeiras/todos os médicos couberam num útero/o que não é pouco/uma pessoa cabe num punho” e “num útero cabem capelas/cabem bancos hóstias crucifixos/cabem padres de pau murcho/cabem freiras de seios quietos/cabem as senhoras católicas/que não usam contraceptivos/cabem as senhoras católicas/militando diante das clínicas”

Achei isso tudo de um pungência impressionante, além da denúncia também há espaço para reflexão sobre o útero em si, como ele não é visto por todos, e por isso não deveria por exemplo, ser reclamado por todos: “querida amiga, dicas para conservar/melhor o seu útero:/a gente nunca sabe quando vai precisar/do nosso útero -/em repouso/é tão pequeno e precioso/por isso é bom mantê-lo/num ugar seguro/longe da luz/a uma temperatura/ de 36 graus/se alguém insistir para vê-lo/diga: bem rapidinho/não faça barulho” e é com esse absurdo que nos atemos ao ridículo maior de uma sociedade doente que deseja mandar no corpo feminino.

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“3 poemas com o auxílio do Google” me lembra muito aquelas imagens de pesquisas tão horrendas que vemos printadas por ai. Ao se digitar “cunhado” a resposta é sempre condizente com a família, mas ao se digitar “cunhada” é sempre algo sexualidade e que acaba inevitavelmente caindo em algum pornô. Mas também trabalha os pensamentos mais profundos da mulher; os pensamentos que foram montados pela sociedade e os pensamentos considerados “proibidos” para a mulher.

Já em “Argentina” temos o movimento feminista aparentemente experimentado pela poeta. E em “o livro rosa do coração dos trouxas” uma reflexão acerca dos relacionamentos amorosos entre homem e mulher, sempre com uma crítica e uma reflexão: “as mulheres são/diferentes das mulheres/pois/enquanto as mulheres vão trabalhar/ as mulheres ficam/em casa/lavando a louça/e crim os filhos/mais tarde chegam/as mulheres/estão sempre cansadas/vão ver televisão” Afinal, neste poema, em quais ocorrências “mulher” apareceu realmente com esse significado? Cuidado, sua resposta pode denunciar seu pensamento.

Alguns poemas me lembraram muito a escrita ácida de Hilda Hilst e me fizeram refletir e viajar no pensamento da poeta das denúncias operadas na obra. Angélica Freitas também é autora de Rilke shake e da HG Guardalupe que conta com ilustrações de Odyr. O primeiro foi publicado inicialmente nos EUA. A obra aqui resenhada foi escolhida como melhor livro de poesia de 2013 pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Seus livros já foram editados para Portugal, Espanha e Alemanha.

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