Literatura

Esse livro me salvou – A Guerra Que Me Ensinou a Viver da DarkSide Books

21.03.18

Esse livro me salvou - Resenha A Guerra Que Me Ensinou a Viver da DarkSide Books "A Guerra que salvou a minha vida" por Samira Oliveira dezoitoemponto.comA Guerra Que Me Ensinou a Viver de Kimberly Brubaker Bradley é aquele tipo de texto que você lê e se redime dos próprios pecados. É tão profundo, tão belo e tão sincero que chega a doer. O continuação – e pelo visto último livro – de A Guerra Que Salvou A Minha Vida volta com a história da jovem refugiada da Segunda Guerra Mundial, Ada, junto de sua guardiã Susan. Ela assume a guarda dela e de seu irmão depois da morte da mãe biológica de ambos. Fato que já instaura uma tensão que percorre o livro todo; isso porquê a mãe de Ada tratava os filhos com ódio e os maltratava, então no frigir dos ovos, a morte dela não foi – ou ao menos deveria – ser tão sentida aos filhos. Porém, assim como o amor deixa marcas, o ódio e a indiferença deixam cicatrizes mais imperceptíveis e enterradas em nosso âmago – tais cicatrizes deixam tudo mais difícil de digerir e de prosseguir. Mais ainda para uma criança.

É singular tratar da Segunda Guerra sob o olhar de uma criança não judia – como normalmente vemos nas obras. Acabamos sem querer nos esquecendo que todas as crianças sofreram, que seus pais lutaram na guerra, mães morreram nas fábricas e irmãos; parentes e amigos se dispersaram pelo mundo – ou pelo céu. Também não é comum vez retratado, crianças alemãs que, no entanto, eram judias. Sempre me perguntei como ficava a situação delas, como elas se sentiam com tudo isso e como eram recebidas nos outros países. Esse livro trata sobre todas essas questões. E é tão belo por ser todo narrado pela Ada, uma criança que passou a sua tão curta vida sendo cruelmente maltratada e trancafiada pela mãe; mas que consegue se salvar de seu cárcere justamente pela guerra. Que passa a aprender um porção de palavras novas todos os dias – e a nomear e entender cada um dos seus conflituosos sentimentos. Para uma linguista, isso é ainda mais mágico. Acho incrível quando a menina aprende uma palavra nova (e boa) mas a liga a um significado extremamente negativo que foi estabelecido por ela e pela situação em que ela se encontrava no momento em que ouviu tal palavra. Ada não entende o significado da palavra “mãe” e associa essa palavra à coisas negativas – porquê sua mãe era perversa. Por vezes ela não aceita o amor pois acha que ele machuca; não admite para si o medo que sente – pois acredita que se tiver medo, será espancada.Esse livro me salvou - Resenha A Guerra Que Me Ensinou a Viver da DarkSide Books "A Guerra que salvou a minha vida" por Samira Oliveira dezoitoemponto.com

E todos esses pensamentos são entregues no livro, é extasiante ver o funcionamento profundo da mente de uma criança que tanto sofreu e que, no entanto, tem tanta bondade e coragem. Ela é muito apegada a um pônei chamado Manteiga, foi ele quem a ajudou a superar seus maiores pesadelos no passado, foi cavalgando-o e cuidado do animal, que Ada pôde ir remendando seus estilhaços interiores. As amizades que ela foi fazendo ao longo dessa profunda reconstrução de si, são partes do que ela é. E fatos tão sem importância para a maioria das pessoas, para ela são inimagináveis de belas. Sua visão sobre a morte, sobre religião, sobre guerra e sobre vida, são lindas e nada forçadas – visto que, no fim é escrito por uma adulta – é como se estivesse ouvindo realmente uma criança de 10 anos conversar. Tão puro e tão belo; não sei se eu salvei esse livro ou se esse livo me salvou. 

Com a guerra, os alimentos devem ser racionados e as pessoas mais abastadas como Lady Thorton rebaixam sua qualidade de vida e outras que não tinham absolutamente nada – como Ada e seu irmão – se veem satisfeitos com uma xícara de chá fraco. É com Susan que Ada pode finalmente viver como uma criança, pode se entregar a segurança certa de um lar e de uma cama quente, é quando ela pode passar toda a responsabilidade que tinha sobre seu irmão menor para um adulto. Através de seus relatos, percebi que Ada tem transtorno de ansiedade e até mesmo síndrome do pânico, que são aplacados por Susan e a atenção que ela sempre dá a estes problemas – seu eu pudesse entrar na história desejaria apenas um psicólogo para a menina.  A empatia que surge entre pessoas tão diferentes, a resiliência que vem do medo e da dor e o cuidado uns com os outros, fazem a gente voltar a crer na humanidade. Além disso, todos os personagens são muito complexos e profundos. 

Eu era guardiã da Susan. Deveria protegê-la. Ela deveria me proteger. Passei aquele dia inteiro e o seguinte sentindo meu tronco comprimido por uma faixa de ferro.

Eu sabia do que ele estava falando. De alguma forma, saber que ainda há pastor verdes e crianças cheias de coragem gargalhando neles, mesmo no meio desta guerra, faz um homem se sentir melhor.

Eu olhei para cima. Também soltei um arquejo. Milhares de estrelas preenchiam o céu – mais que isso, dezenas de milhares, centenas de milhares. Milhares de milhares. Mais estrelas do que eu jamais vira; eram tantas, que formavam uma faixona de luz bem no meio do céu. Eu olhei e olhei. Vira muitas estrelas desde que fora morar com a Susan. Porém nunca daquele jeito.

Sempre que eu me sentia sobrecarregada, minha cabeça dava uma escapulida. O problema era que a tristeza insistia em me pegar de surpresa. Eu estava lavando a louça do café, sem pensar em nada, e de repente meu estômago dava um nó e eu sentia vontade de chorar, e tudo o que era possível fazer era desligar a cabeça. Eu não sabia ao certo se tinha o direito de estar tão triste.

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