Literatura

Jack O Estripador – Rastro de Sangue | protofeminismo na Londres Vitoriana, suspense e cadáveres

15.05.18
Jack O Estripador - Rastro de Sangue | protofeminismo na Londres Vitoriana, suspense e cadáveres Resenha por Samira Olliveira dezoitoemponto.com

Audrey Rose, a personagem principal de Jack O Estripador – Rastro de Sangue, tem descendência indiana e tem uma postura protofeminista que me deixou orgulhosa. Ao contrário das damas de alta classe de sua época, Audrey não se deleita em chás e bordados, ela encontra prazer dissecando cadáveres e fazendo autópsias junto de seu tio. Em meio à violência da Londres vitoriana, alguns assassinatos chamam a atenção de todos e desperta o medo mais profundo dentro das mulheres. Há um criminoso a solta que mata mulheres e as estripa, levando consigo pedaços de seus corpos e promovendo mortes lentas e dolorosas. Como a única moça empoderada de sua época, ela se junta ao cavalheiro de também alta classe, Thomas, para iniciar as investigações do caso. Thomas é audacioso, cínico, petulante e extremamente charmoso; além de também estudar junto a Rose a arte forence, ele é brilhante em suas anotações e conclusões, sendo claramente o melhor aluno do tio de Rose. Um romance com a dose exata de suspense e investigação. É como ler um pouco de Agatha Christie e Edgar Alan Poe juntos.

Algo muito interessante que notei são as cenas em que a misoginia e a repressão feminina são muito fortes. Eu nunca tinha tomado consciência do tanto que as mulheres sofriam nessa época, como o machismo era bem visto e bem quisto por todos. A medicina e o estudo de cadáveres era praticamente proibido para mulheres, Audrey teve de ir às aulas de seu tio vestida de homem e atuando como um para ser aceita. Seu pai era extremamente contra e chegava a proibi-la de sair de casa em certas situações. É quase atordoante fatos como: mulher não podia sair na rua desacompanhada e muito menos receber um homem dentro de casa. E foi vendo essas situações que enxerguei o machismo de hoje em dia e como houve uma evolução e suavização deles – mas que analisando tais cenas do passado podemos entender o pensamento da época e como ele nos moldou. As mulheres eram incentivadas a não pensar e estudar, e caso pensassem, que fosse apenas o suficiente para atender ás tarefas domésticas. Elas eram impedidas de emitir opinião em várias situações sendo consideradas literalmente inferiores.

Jack O Estripador - Rastro de Sangue | protofeminismo na Londres Vitoriana, suspense e cadáveres Resenha por Samira Olliveira dezoitoemponto.com

A relação dela com a mãe aparece de formas pontuais, ela morreu há 5 anos – contando do momento em que acontece a narrativa – e sua morte deixou uma névoa pesada de dor em sua família. O pai tranca-se em seu escritório e fica por lá a maior parte do dia e da noite, sofrendo a perda diariamente. A filha se pergunta, em seus momentos de aflição, se a força interior que sua mãe tanto dizia, condiz com sua ocupação em abrir cadáveres. E seu irmão, Nathaniel – que assim como o nome, também tem modos angelicais – parece o menos afetado pelo acontecimento. Um romance histórico que mescla amor e medo, o obscuro e pérfido com uma narrativa acelerada e inteligente.

“Oh? Me mostre no dicionário médico onde está escrito que uma mulher não consegue lidas com essas coisas. Do que é feita a alma de um homem que não exista na alma de uma mulher?”, provoquei, “Eu não fazia a mínima ideia de que minhas entranhas eram comportas de algodões e gatinhos, enquanto as almas de vocês, homens, são cheias de aço e partes mecânicas.”

“Hazel juntou as sobrancelhas: “Por que uma moça haveria de escolher qualquer coisa acima da beleza? Uma esposa deveria obedecer seu marido em todos os assuntos. Deixe que eles pensem as coisas.”

Eu nunca tinha visto tamanho lixo sensacionalista em todas as capas. Os repórteres não paravam de falar do Avental-de-Couro. Eles estavam transformando o homem insano em uma celebridade; glorificando um vilão. Até onde as pessoas iam para vender um jornal era quase tão repulsivo quanto os crimes em si.

Essa crítica a mídia foi incrível e muito pertinente, afinal, conhecemos ao menos rumores do que foi esta horda de assassinatos e este consagrado assassino graças á mídia, não é mesmo?

“Fique perto de mim e não fale. Eu posso gostar de ter sua opinião sobre o assunto, mas nem todos os homens terão os mesmo sentimentos em relação a isso. É melhor me deixar falar”. “Muito bem.” Embora isso não fosse algo de que eu gostasse, era a dura verdade. Eu era uma jovem garota crescendo em um mundo regido por velhos homens. Eu escolheria minhas batalhas com sabedoria.

Eu não via nenhum homem correndo por aí, dando à luz a população do mundo e depois indo preparar a ceia e cuidar da casa. A maioria deles se prostrava de joelhos quando o mais leve resfriado os atacava. Havia mais força contida sob minhas camadas de musselina e pele bem perfumada do que em metade dos homens em Londres juntos.

Era um mundo injusto e cruel para as mulheres. Se você fosse uma viúva ou se seu marido ou família a renegasse, havia poucos caminhos disponíveis para alimentar-se. Dificilmente importava se você fosse nobre ou não. Se não conseguisse contar com o dinheiro e o abrigo de uma outra pessoa, sobreviveria do único jeito como poderia.

Na ultima página, a autora, Kerri Maniscalco, explicita quais acontecimentos reais ela manteve e quais ela tomou liberdades ficcionais para o livro. Algumas datas foram aproximadas e outros elementos alterados, mas a essência do famoso caso de Jack O Estripador, foi mantida e elaborada em detalhes bem de perto – Audrey Rose está intimamente ligada a toda a história. Porém quanto a identidade do real assassino, no livro ela ficcionou por completo; enquanto estudos recentes comprovam se tratar de um judeu barbeiro e louco, na história o assassino é… bem… você precisará ler o livro pra saber (hehe).

Jack O Estripador - Rastro de Sangue | protofeminismo na Londres Vitoriana, suspense e cadáveres Resenha por Samira Olliveira dezoitoemponto.com

E enfim o primor das edições da DarkSide – que eu tanto encho a boca para elogiar – não nos desaponta nunca. Sempre que me pedem indicação de livros para presente, eu indico DarkSide na hora. Isso porquê as histórias são sempre impecáveis, editadas com capricho e fazendo do livro uma peça de arte na estante. Alguns detalhes impressos por dentro são coloridos e a cada capítulo há uma ilustração das anotações do tio de Audrey Rose, ou de Thomas ou até mesmo a carta mandada pelo real Jack O Estripador. O livro também tem, em cada capítulo, uma descrição do local em que a cena está acontecendo – certamente para organizar melhor a narrativa e conectá-la com os acontecimentos históricos. Na capa, Audrey Rose com seu esplendor mortal e sob ela as vielas sombrias de Londres.

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  • bela Em 15 . 05 . 2018

    Aqui na Finlândia sempre vou na biblioteca e pego livros e filmes de terror porque o pessoal gosta muito. Esses tempos atrás li um quadrinho e assisti uma versão francesa do filme. Continua sendo um de meus preferidos!
    A Bela, não a Fera | A Bela, não a Fera no Youtube