Em voga

Gordofobia e Bullying na Infância (e na escola) – Eu tentei me matar. Mas não vão me calar.

29.05.18

Se tem uma coisa que desde que me entendo por gente sei, é que sou feia e gorda. E tudo o que vou contar nesse  texto são coisas que nunca contei a ninguém e que só recentemente eu aprendi a enfrentar isso tudo. Ainda mais recentemente quando busco ver o passado com o coração. Parece que toda lembrança vívida, marcante ou traumatizante tem a ver com esse fato. Lembro com uma riqueza de detalhes enorme, um dia que muito pequena eu peguei um faca de carne na mão e imediatamente depois olhei para minha barriga e pensei duas coisas principais: vou passar a faca na minha barriga e ela vai sair toda e eu não vou mais ser gorda. E depois algo tanto quanto pior, enquanto eu experimentava pressionar a faca na barriga: será que se eu me matar as pessoas serão mais felizes por não terem que olhar para mim? Pra você entender tudo o que houve antes e depois para que esses pensamentos continuem comigo até hoje, é preciso contar toda a minha história, principalmente sobre a minha ida a escola. Eu entrei na escola no pré-três, equivalente ao primeiro ano de hoje em dia. Consegui bolsa numa escola de elite da minha cidade e assim que entrei na turma de pronto fui colocada de lado pois a maioria das crianças que já se conheciam de anos anteriores estudando juntas. Lembro de ter feito algumas amizades, entre elas a que é minha melhor amiga até hoje, e outras que infelizmente não vi mais. Aquele foi o momento de grande choque na minha vida, quando eu sai da minha família e das pessoas que me davam segurança e já me conheciam e fui pra um mundo conviver com pessoas completamente diferentes de mim, e mesmo crianças, totalmente intolerantes e preconceituosas. A partir dai, vendo agora o conjunto de todos esses anos na mesma escola, eu consigo ver claramente um grande trajeto de xingamentos desde que pisei na escola. Eram ofensas do tipo “gorda nojenta” até “deveria morrer” passando por “baleia” “baleia orca” “macaca” “elefanta” e chegando ao grande cúmulo de uma dia em que brigamos, minha melhor amiga olhar pra minha cara e dizer que era tao gorda que parecia que estava grávida, ela olhou pra mim e perguntou de quantos meses eu estava e se seria um menino ou uma menina.

A minha resposta para isso era sempre o contra ataque, a violência, tentando bater nos meninos que me ofendiam, ou xingando eles com algo que eles se magoassem, queria que eles sentissem na pele o que faziam comigo – mas nada fazia diferença.

Na maioria das vezes eu mantinha em segredo, era algo tão comum e tão esperado por mim que eu já nem me importava de denunciar. Nas vezes em que contava a um professor ou diretor, era recebida com alguma repreenda a mim e ao agressor, com uma total vista grossa perante a vitima. Acho que eles estavam tão acostumados com isso que já nem ligavam. E interessante é que tempos depois começaram  a zoar um garoto que era parecido com um ator de uma novela que fazia um papel de louco, e ai; nossa, ai fez reunião com a escola toda, teve microfone, teve gente fazendo discurso, teve mãe de aluno, teve textão teve tudo! E foi o dia mais revoltante da minha vida, porquê eu sofria com aquela porra todo santo dia e não meus agressores não receberam agrela repreenda toda, só avisozinhos que nunca davam em nada. E eu me pergunto por que POR QUE eu fui calada e menosprezada até por aqueles que deveriam me defender? Por que as medidas que eles tomavam nunca adiantava, dava uns dias de suspensão pro muleque e tempos depois ele tava lá de novo me impedindo de estudar, de conversar com as minhas amigas, de andar no intervalo e mais ainda de comer. Cheguei ao ponto de jogar o lanche que trazia de casa pra ninguém me ver comendo e me chamar de gorda. Naquela época era bonito dizer que odiava comida, que ketchup e maionese eram coisas de gorda, (coisas essas que eu amava e sempre comia).

Pra minha família eu tentava não contar tudo, quando contava era só metades, era só tudo muito atenuado. Eu tinha medo que assim que contasse eles magicamente vissem a pessoa lixo, feia, ridícula e nojenta que habitava  mesma casa, e que passassem a me odiar também, a não me querer por perto, a dizer que eu deveria morrer.

Três acontecimentos acho que são os mais doloridos na minha vida. Um era uma vez que brincava e pega pega com minhas amigas e sem querer eu fiz um movimento para pegar o braço de uma e ela se jogou no chão, chorando e gritando pra escola toda que eu tinha machucado ela, que eu era muito grande, bruta e gorda, ai todas as outras vieram ao redor dela, levaram-na ao banheiro, chamaram inspetor, professor todo mundo pra ver aquilo. E o braço da menina não tinha nada! Mas ela sorria porquê sabia que aquilo me faria me sentir mais lixo ainda, uma dose a mais da humilhação que eu sempre sofri.

Outro, foi alguns instantes em que a professora deixou a sala, eu estava sozinha em um canto fazendo lição quando um dos meninos chegou por trás da cadeira e enganchou o braço no meu pescoço, me sufocando, e depois quando os outros avisaram que a professora estava chegando ele me jogou pra traz de costas e sufocando, bati a cabeça, braço, cotovelo, mas assim que voltei mais aos sentidos eu me levantei rápido e não contei nada, não queria que mais uma professora soubesse que eu era a humilhada da turma, a gorda nojenta. E por fim outra vez que eu estava na aula de educação física e um garoto me derrubou no chão, de cara no chão e pisou em cima de mim, com os dois pés. Esse me deixou com mais lesões e com o uniforme da escola com marca de pés, então não teve muito como esconder da minha avó. Ela sempre lutou ao meu lado nesse quesito, foi à escola mostrou tudo a diretoria e se não me engano o menino levou apenas um bilhetinho para os papaizinhos e uma repreenda rápida.

O que eu mais ouço em outros depoimentos como o meu é uma relativização de toda essa humilhação que vem no tempo de escola. É umas risadinhas pra cá e outras pra lá, “ai todo mundo sofre bullying, é normal” “só de ser diferente é motivo pra bullying e tudo bem” mas serio que isso está certo? Eu ser capaz de com 7 anos saber que sou nojenta por ser gorda e querer me matar não é normal. Muleques se acharem no direito de tentar me matar sufocada não é normal. O silencio e os panos quentes que todos querem colocar não é nem um pouco normal. E sim, pode ser comum, algo que sempre acontece, mas normal nunca vai ser. E a gente tem que pensar em o que essas crianças com 5  ou 6 anos trouxeram de casa para tao novinhas já terem todo um discurso de ódio, todo uma gordofobia dentro de si, como elas se sentem no direito de pisar no outro por ser gordo e ser pobre como era o meu caso. Até hoje eu sinto isso, todo o bullying que sofri até os últimos instantes na escola me fazem as vezes acordar na madrugada com o coração palpitando, a respiração acelerada por e ter tido mais um pesadelo com aquele inferno que era a minha vida. Depois vocês veem carta de despedida de meninas que se mataram que foi escrita com sangue e não conseguem uma explicação, bom, tá ai a explicação, eu poderia de verdade ter sido essa menina. Uma solução imediata para isso eu não tenho infelizmente, mas sei que você deve sempre falar, mesmo que o medo de se sentir mais humilhada apareça, busque conforto na sua família e amigos de verdade, fale, ponha a boca no mundo, nem que seja pra filmar a sala de aula e comprovar quer suas palavras estão certas, denuncie a todos que você puder. Se não for resolvido mude de escola, mude de amigos, de endereço, de tudo, isso é o que eu teria feito se pudesse voltar no tempo e sofrer mesmo. Ninguém merece viver nesse inferno que eu sofri.

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  • Luly Lage Em 29 . 05 . 2018

    Esse foi o vídeo mais difícil de editar da minha vida, porque eu tive que parar várias vezes pra absorver o ÓDIO que senti de todas essas coisas. As pessoas vivem falando que “essa história de bullying é modinha”, mas não absorve o impacto que essas ações “de zoeira” podem causar na nossa vida.
    Agora relendo isso, lembrei do melhor amiga da minha melhor amiga, que se matou alguns anos atrás. Na época a galera que fazia bullying com ele por ser gay veio dar “meus pêsames” pra ela. Ela simplesmente falou que eles não sentiam nada! Porque, cá entre nós, se sentisse não teriam causado isso.

    Fico feliz que você hoje, apesar de tudo e de ainda ter dificuldades porque todos temos, se tornou essa mulher forte e confiante que fica cada vez melhor!