Pessoal Textos

O Cotidiano da Mulher Segura – ou “jantares sozinha” – ou “o final cíclico de um amor” – ou “a mulher que eu quero ser”

05.08.18
O Cotidiano da Mulher Segura - ou "jantares sozinha" - ou "o final cíclico de um amor" - ou "a mulher que eu quero ser" por Samira Oliveira dezoitoemponto.com @samira_omg

PRÓLOGO

É sábado e oficialmente o meu primeiro final de semana sozinha nessa cidade que nunca descansa. Logo cedo estava decidida a fazer desses dias inesquecíveis. Baseada totalmente em impulsos reais fui até uma cidade vizinha, Cotia, ter uma experiência fora do comum, um ensaio fotográfico totalmente centrado em amor próprio, conexão com a natureza e enfim, empoderamento. Senti com aquela mulher como se nós duas coexistíssemos sozinhas no universo, buscando na essência de ambas uma forma única de expressão e de sacralidade. (mas isso é história longa para outro post). À noite voltei com ela e voltei ouvindo uma belíssima história de amor – vício desses meus ouvidos ávidos por histórias sejam elas de amor ou apenas de paixão, a verdade é que amo ouvir as pessoas – confesso que pensei um pouco em alguém, lembrei de algo que não poderia jamais esquecer e por isso também fiz um texto todinho dedicado a estes pensamentos:

Então querido, cá estou eu, no exato lugar onde nos encontramos na primeira vez. A ironia dessa cena é que eu não planejava vir aqui, vim sem querer, vim por força do destino ou de qualquer outra entidade que te apeteça. Na verdade assim que soube que era pra cá que eu me encaminhava, logo de cara, nem me lembrei da sua existência – assim como tenho feito durante esses meses. Mas agora chegando aqui eu lembro de você e lembro com força. O estacionamento está lotado de gente, bem diferente daquele dia em que havia só eu, você, e um mundo em suspensão. Absorvo essa ideia, quando cheguei eu só queria tomar o Uber mais próximo e rumar pra casa, tomar um banho e me enfiar sob as cobertas, assustada com a possibilidade de lembrar mais de você. Intensidades, você dizia, eu sou feita da matéria intensidades.

Mas não, eu sou outra, tenho um cabelo curto que me renovou, estou mais vestida à unisex do que a feminina e tenho muito mais poder do que jamais tive. Então eu não vou embora, decido ficar e jantar sozinha no shopping. Isso na verdade é algo que sempre pensei ser muito romântico – sim, amor comigo mesma, afinal eu estou muito apaixonada por mim! E sempre pensei ser o ideal de mulherão. Pensava: o dia que eu for sozinha até o shopping e jantar eu vou ter finalmente me tornado a mulher que eu quero ser. Isso que me assusta em ser intensa, em ser escritora, uma simples escolha me gera e me faz parir 2 ou 3 textos, por isso também não te culpo, sei como isso te assusta – ou ao menos, te assustou. Quando saí do carro lembrava da comida mexicana que comi no dia do meu aniversário de 20 anos. Mas logo me esqueci dela, essa fluxo de consciência que me brota sempre me diz mais de mim do que eu esperava.

Entrei por fim no shopping, mochila nas costas, celular no bolso da minha mom jeans predileta, e claro, um carão digno de série americana. Inicialmente minha meta era jantar algo gostoso – mesmo tendo comida em casa eu sinto que mereço esse carinho, mesmo tentando economizar esse mês. Então vou até a praça de alimentação rumando como uma mosca hipnotizada, até o KFC, mas um “boa noite” da atendente de comida Mexicana me interrompe – destino, conexão de pensamentos ou apenas sorte, chame do que quiser. Então pego o cardápio, indecisa em comer sozinha nachos e quacamole ou tacos – apesar de querer muito burrito, eu sei que minha fome pede tacos. Totalmente impulsiva – como fora o dia todo – vou à fila, peço o prato com nachos e ainda Coca-Cola, e me sento pra esperar. Acho interessante como todo mundo na praça de alimentação está acompanhado, de um lado um casal que dá as mãos, do outro um grupinho de amigos meio góticos, do outro um pai com seu filho. E quase à minha frente finalmente uma mulher – mais velha que eu – e aparentemente sozinha, ela me olha e eu penso “ora então ela também vai jantar sozinha, esse aí é o meu futuro, olha só que mulherão” Mas tempos depois chega outa moça mais nova e quase idêntica à ela, no entanto vestida também com um casaco verde – como o meu. Ah tá então era por isso que ela me olhava, vai ver pensou que eu era a filha dela…

Quando o restaurante chama meu nome vou buscar minha comida totalmente saltitante – chega a ser vergonho – mas estou muito feliz por isso. Uma vez li que uma das coisas mais tristes pra uma mulher era fazer uma refeição sozinha. Mas sei que esse é um dos comentários mais idiotas e risivelmente machistas que já ouvi. Eu estou feliz em estar sozinha em comer sozinha, em apreciar esse momento comigo mesma. Claro que quando volto á mesa eu não elimino a possibilidade da caça – porém um cara lindo e sozinho em outra mesa está mais interessado no celular no que no próprio hambúrguer e uma garota lindíssima que passa está fatalmente acompanhada por outra e dando as mãos. Okay né, nada de romance por hoje. Mas também pudera né? Hoje não há espaço para um terceiro integrante no relacionamento entre eu e eu mesma. Aos poucos a tensão do dia vai passando, o coração vai se acomodando no peito e eu relaxo enquanto como lentamente. Imagino se minha tia, uma mulher que admiro pra caramba, já esteve no meu lugar. Comendo sozinha, se amando por inteira, fugindo de olhares e de julgamentos idiotas. Sei lá, talvez não, talvez só eu seja a corajosa da família que enfrenta uma sociedade que berra para que eu não jante sozinha. Até fraquejo e ligo pra uma amiga convidando-a a vir pra cá comigo, mas ela não pode e eu estou fatalmente bem com isso. Pode parecer estranho – mas Samira você está fazendo um texto enorme em cima disso não parece-me que você esteve feliz com a situação – pois é mas vendo agora eu estava sim, e estava tanto que precisava escrever isso aqui.

Acho louco como nos obrigaram e nos convenceram de que precisamos de um relacionamento, de um amor, de uma amizade ou de qualquer coisa. Nos convenceram de que não somos o bastante para nós mesmas, que precisamos sempre de um outro alguém para dividir a felicidade. Mas será mesmo? Porque de verdade? Eu estava mais que feliz naquele momento, eu estava realizada. E quando me levantei foi para andar pelos corredores do shopping…

E sabe querido, eu fui sem querer fazendo de trás pra frente todo o trajeto que fiz naquela noite. Fui à livraria em que fiquei por mais e 3h te esperando, ali andei pelas estantes mesmo sem a intenção de comprar algo. Andei também por me lembrar daquela coisa “o amor verdeiro te espera numa livraria”, mas sem a real intenção de esperar por ele. Ando mais à espera de paixões físicas do que de alma, afinal, o que senti por você já foi suficiente ao menos para este ano. E eu não queria estar aqui sentada de manhã com um café ao lado escrevendo – novamente – sobre você, já que escrevi tantos poemas e diários sobre você. Mas cá estou, e sabe querido eu também entrei em todas as lojas que entrei naquela noite enquanto te esperava, olhei sem remorso para o restaurante em que jantamos e passei bem longe. Até sorri para o segurança que naquela noite me ensinou onde ficava o toten para carregar o celular – sim eu me lembro dele. O que mais eu fiz? Bem, na saída nós fomos embora – juntos – pelo lado direito né? Dessa vez eu saí pelo lado esquerdo – sozinha – afinal é o lado do coração, é o lado em que hoje estou. E sabe o que mais eu fiz? Fui á farmácia lá de dentro mesmo, tirei da mochila a carteira e comprei camisinha. Sim, algo que eu nunca tinha feito sozinha (que absurdo não?). E quando a atendente perguntou se eu estava acompanhada da garota à frente eu disse que não. E quando ela me desejou um “boa noite” com um sorriso cúmplice eu respondi “boa noite” mesmo não tendo nenhuma certeza sobre essa noite…

Mas calma, a história ainda não acabou, cheguei em casa e coloquei música no Spotify, “triste, louca ou má” e rumei a um banho quente. Coloquei o pijama mais quentinho e gostoso que tenho e me enfiei entre as cobertas. Baixei pela enésima vez o Tinder e comecei a papear, o que mais gosto é da caça, do flerte e da conversa cheia de múltiplas segundas intenções. Quando estava já quase indo dormir, uma nova mensagem, de um contato delicioso me convidando para sair no outro dia. E claro querido, essa mulher segura aqui não poderia falar não. Então eu disse sim, guardei os preservativos na gaveta de calcinhas sabendo que em breve iria usá-los e totalmente livre e orgulhosa disso, de estar preparada pra essa vida nova. Uma vida em que eu esqueci absolutamente tudo sobre você. Uma vida em que finalmente fechei esse nosso ciclo com a cartada final, com o ultimo movimento no xadrez, com a última saída por aquela porta esquerda, a saída para nunca mais voltar a você. A saída final para que, o dia que eu retornar àquele shopping, nenhum traço de você me venha á mente, nenhum cheiro, som ou gosto. Tudo perfeitamente substituído pela noite em que fui a mulher que eu queria ser, a mulher que janta sozinha sua comida Mexicana e que compra a camisinha da marca que gosta.  

 

Permita-me eu apresentar novamente, e me veja como mulher, não como uma irmã.
A melancolia dos dias úmidos e seus recomeços
10 Melhores Poemas Eróticos – para curtir sozinha ou acompanhada.

:D :-) :( :o 8O :? 8) :lol: :x :P :oops: :cry: :evil: :twisted: :roll: :wink: :!: :?: :idea: :arrow: :| :mrgreen: