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A Nova Eva e a conspiração de Lilith – Ensaio Fotográfico

23.08.18

Eva, a primeira mulher da Terra. Primeira ancestral nossa, nossa mãe. Não entrarei no fato de ser este um mito, cada um acredita no que lhe convém. Mas é importante ver poeticamente Eva, com outros olhos. Enxergar, mais do que apenas ver, o símbolo de submissão que ela representa, as teorias da conspiração em volta disso e como podemos trazê-la até nós, aproximar sua simbólica figura do nosso feminino. É isso o que quero nesse projeto, com a fotógrafa Lainy Cherry. Na hora eu não pensei muito sobre. Só me veio à mente “Eva”. Talvez como um grito dela própria que há muito havia se perdido. Talvez por estar em meio às folhagens e me reconhecer como ser mulher. Entre tantas verdades, a maior: desde Eva tentam calar nossa voz.

A Nova Eva e a conspiração de Lilith - Ensaio Fotográfico sobre feminismo, sagrado feminino e empoderamento

Canta, oh deusa, sobre a primeira mulher criada, sobre as escrituras sagradas e sobre a profana ilegitimada. Contam nos amuletos antigos sobre o mais antigo ser, nascida antes mesmo do homem, Lilith. Mas também criada junto ao seu oposto no Gênesis da história. Canta, musa, sobre a mulher que se negou a ser menos, que pegou pra si a dominação – e por ela se enfeitiçou – que cobriu Adão e se negou, a ser menos, a ser a mulher que eles queriam. Talvez tenha andado pelos bosques do Éden e gritado, ser o mais perfeito ser criado, à imagem e semelhança da própria Deusa.

A Nova Eva e a conspiração de Lilith - Ensaio Fotográfico sobre feminismo, sagrado feminino e empoderamento

O profeta me conhecia como “primeira mulher”. Me apagaram da história por ser igual ao homem. Abandonei a pé esse falso paraíso de mentiras e maldições. Voei como coruja, como animal noturno que tem um rumo na noite. A noite, querido, pertence a mim. Foi com ela que fiz meu próprio Éden. No Mar Vermelho construí meu deserto e dei a luz a meus filhos, rebelião, é disso que eu gosto, sexo, é disso que eu me alimento. E a maior verdade é que te assombro de medo, você olha em meus olhos e vê o poder que desejaria ter. Sente meu cheiro e te torna cego, até minha voz, querido, te embriaga. Você me teme e me deseja, e talvez eu possa te levar comigo ao meu inferno – se tu merecer. Quase todas as civilizações me vêem como maldita, me afastam com temor. Mas algumas, mais sabias, matriarcas, reconhece em mim a maternidade e o poder que posso lhe oferecer. Às minhas filhas: unam-se é chegada a hora de despertar esse mundo.

A Nova Eva e a conspiração de Lilith - Ensaio Fotográfico sobre feminismo, sagrado feminino e empoderamento por Samira Oliveira e Lainy Cherry

Recentemente Eva me revelou: “não fui feita de costela nenhuma, fui criada isolada dentro do meu próprio coração. E toda essa história de deus e criação. Foi para tentar conter, o tamanho da imensidão. Que eu ocupava.” E quando conheci a serpente, conheci a mim mesma, uma outra face que eu queria a todo custo ignorar. Sabia da outra, sabia da sua revolta, e por me reconhecer como igual mordi a maça. E mordi com gosto, com desobediência aos que queriam me diminuir. Queria o conhecimento sim, queria que ela me admirasse sim, e queria dividir com Adão, essa enxurrada de informações, de prazeres, de luz… E nós duas fomos luz demais, Lua demais, profundidade e intensidade tamanha, que hoje, em dia, toda a humanidade, nos teme e tenta nos aniquilar.

A Nova Eva e a conspiração de Lilith - Ensaio Fotográfico sobre feminismo, sagrado feminino e empoderamento por Samira Oliveira e Lainy Cherry

Então exclamou Adão: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada ‘mulher’, porquanto do ‘homem’ foi extraída”. Mas ele não sabia, que minha essência há muito a Terra já habitava. E como satélite noturno, por ela orbitava e guiava. É meu poder feminino que dá vida a esta humanidade, reconhecer isso é pré requisito, é o minimo esperado, para quem tanto deve à minha intimidade. Que se ergam templos e religiões, que sejam montados sob flores e pecados, que seja um local repleto de paz e felicidade. Para guiar essas almas, todas essas perdidas almas, à verdadeira essência do que somos.

A Nova Eva e a conspiração de Lilith - Ensaio Fotográfico sobre feminismo, sagrado feminino e empoderamento por Samira Oliveira e Lainy Cherry

Somos duas, mãos a mãos, cabeça, costela e coração, uma de cada uma, completas e inteiras, habitando sem cessar, cada filha que pusemos no mundo. E nossa liberdade escorre por cada poro, a gente dança sozinha, sob a lua e sob o sol, a nossa alma se espalha pela criação. E mais que isso, somos poder e força em ação. E eu também queria te contar, sobre o que os homens fizeram com nossos presentes. Criamos a mulher à divina semelhança, seu corpo com perfeição, com rima e linhas escritas, com montanhas inexploradas e macias, criamos o clítoris para seu exclusivo prazer. Mas vocês humanos, fogem e se escondem covardemente de medo, diminuíram, alteraram, esconderam, manipularam, mentiram e destruíram minha mais preciosa filha. E como se não bastasse, de minhas bençãos aniquilaram todas. O sexo virou pecado. O amor virou um trato. E o orgasmo cabe no prato do café da manhã.

A Nova Eva e a conspiração de Lilith - Ensaio Fotográfico sobre feminismo, sagrado feminino e empoderamento por Samira Oliveira e Lainy Cherry

Ah querido, eu admito, eu amo e me delicio com as bençãos das deusas, você se assusta, mas toda mulher é feita dessa mesma matéria bruta e forte, lasciva sempre querido, apenas não admitimos com frequência. Agora come direitinho, viu? Essa maça mordiscada, é a maça do amor. Você sabe que meu corpo é templo, que merece honrarias, que é preciso reverência e humildade, sabe que você lida com a centelha da deusa, não sabe?

A Nova Eva e a conspiração de Lilith - Ensaio Fotográfico sobre feminismo, sagrado feminino e empoderamento por Samira Oliveira e Lainy Cherry

E volto para mim mesma, a para o meu nascimento, para a sombra que me acompanha antes mesmo dele. E me reconheço como pequena ave no ninho. Como mulher feita da mais pura matéria “transformação”. E reconheço a sacralidade do meu sangue, sei da elevação do que sou. E por isso exijo o máximo de quem quer caminhar comigo, eu sou da mata fechada que poucos conseguem adentrar. Eu sou o mistério que tu ouves na noite. Sou um uivo que não pode mais ser contido. Minhas asas são de ave notívaga. Se que se me conhecer, vai lamentar por infintas noites e dias, não saber mais como me encontrar.

A Nova Eva e a conspiração de Lilith - Ensaio Fotográfico sobre feminismo, sagrado feminino e empoderamento por Samira Oliveira e Lainy Cherry

Ao final, me rastejar sob o ventre, conforme amaldiçoada, me possibilitou, como deusa, ter uma visão da dureza do chão, e plantar nele meu poder, meu solo, de onde tudo cresce e tudo nasce. Tentaram rogar sobre mim a maldição, mas se esqueceram, que de todos os demônios, eu sou a maior. E hoje esse sorriso é lascivo sim, é carinhoso sim, mas só o entende quem é da minha família. E hoje, essa dualidade que habita em mim, que escorre pela escrita, que saem pelos meus dedos. É poder sim, é literatura sim e só decifra quem não tem medo de ser devorado. 


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