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o trauma de sentir e o vício em fugir – sobre o medo de ficar | #TeLiPoesia

06.11.18
Você pode me ouvir ler este texto enquanto o acompanha, que tal?

SOBRE O NOSSO MEDO DE FICAR

Eu sei porque você não está dando certo com alguém. Por que suas amigas não estão dando certo com alguém. Pra ser franca. Por que eu não estou dando certo com alguém…E hoje não será sobre como você precisa primeiro se amar tao louca e profundamente que o outro não terá outra alternativa a não ser ficar, e admirar a beleza que tu irradias. Também não será sobre como você pode estar vivendo de migalhas de amor, forçando situações, vendo coisas onde não há e demônios que já não lhe convêm.

Hoje eu vou te dizer, e te digo, que o que está matando o amor é justamente a nossa liquidez, nossa insensatez. Nosso medo de mergulhar fundo no mar e de se contentar, em apenas testar sua temperatura com a ponta dos dedos dos pés.

São tempos difíceis para o amor, são tempos difíceis para amar. São tempos em que eu, que sempre escolhi ser verdade, ser sinceridade e ser sentimento. Escolho guarda-los um por um, bem trancados no meu peito. São tempos em que não se confia no outro para entregar de alma um sentimento. Confia-se para contar, para recitar, para confessar, para amarrar, bater, beijar, andar… mas não se confia para amar. Não se confia para confessar as palavrinhas mágicas do “eu te…”. Nossa sociedade fica com este “amo” entalado na garganta, com um gosto amargo por não poder sair e se materializar em fonema e palavra.

Mas o gosto rançoso também é por sentir, por não conseguir controlar, nem tampouco obstruir, sentimentos e pensamentos.

E principalmente, passar por aquele momento invisível e tão horrível, em que o “AMO”  fica preso na garganta, inconstante, se mexendo e se revirando por dentro, por que não tem certeza se encontrará em seu receptor a outra palavrinha magica para completar: re ci pro ci da de .

E pelo contrário, tem certeza de que encontrará um “Não” ou talvez um “não é bem assim, não quero me envolver” ou até mesmo “eu já tenho um outro alguém”.

E nessa dança de quem finge mais desinteresse. de quem se apega menos. de quem faz com mais força e menos carinho. de quem solta sua mão no metrô com medo de revelar uma relação. nessa dança horrível, o que nos pesa, o que verdadeiramente desce rasgando a garganta como ácido e se infiltra no fundo do ventre como praga, o que nos corrói é esta necessidade em nunca falar a verdade. Em nunca ser sincero em nunca permitir.

Nunca antes pensamos tanto antes de sentir e sentimos tanto antes de agir. Nunca antes fomos tão racionais, nunca procuramos tanto a origem do amor, a explicação para o coração que dispara, o pressuposto pra pupia que dilata. Nunca antes tanto se buscou ser razão, fechar portas,  ser material e físico, sem nada de emocional. Procurávamos pela vida alguém que quisesse compartilhar ela conosco, que se dispusesse a ficar e a preencher  a rotina com alegria e paz. Hoje encontramos apenas o peso da indiferença e do desamor. Hoje, é mais fácil compartilhar uma cama e um fetiche do que um coração. Não que isso seja algo ruim, mas apenas nos mostra como é mais fácil ser matéria, ser racionalidade, do que ser alma, do que ser sentimentalidade.

E no fim todos somos apenas seres humanos fudidos e vazios. Que veem uns braços abertos e viram as costas por medo de eventuais espinhos que encontre lá.

Uma geração enorme de covardes no amor e profissionais no cálculo e na exatidão das coisas. Somos seres que veem a luz e a recusam, que conhecem quem sempre buscou mas fogem por medo de dar amor. Que já trancafiaram o coração com tantas chaves, que hoje já não sabe mais como é que se abre.

Queremos a liberdade noturna dos copos que se levantam e do álcool que nos altera. por que nós sabemos a necessidade do torpor e da embriaguez para atravessar essa nossa tão solitária e amargurada vida. E sabemos que esse excesso é necessário, porque a noite, quando voltar para casa, a gente vai tomar banho, vai se deitar e chorar, e vai imaginar ao menos por um instante ter alguém para telefonar,. E vai ansiar ao menos por um segundo ter uns braços pra voltar, mesmo que eles eventualmente produzissem espinhos, seu perfume deveria ser o suficiente para faze-lo ficar e florescer.

E digo que serei verdade, que falarei o que sinto mas a cada vez que chego próximo de dizer, sinto e lembro da primeira vez que o meu mais sincero amor não foi correspondido. Vi nos olhos dele um afeto e um carinho, até ouvi bem baixinho ele exclamar “que bonitinho”, e sorrir e me beijar. pra logo em seguida, sem mal calçar os sapatos nos pés, sair pela janela mesmo e  nunca mais voltar. Então hoje, antes de mais nada, eu trancafio o coração.

E eu não posso dizer, eu não posso nem imaginar dizer o que sinto, pois tudo volta, o trauma de sentir, o vício em fugir. E mais que isso eu tenho medo de que fujas pela minha forçada indiferença e descaso. Tenho medo que se sinta tão feliz e confortável que deseje buscar abrigo em outros braços ou um modo de sozinho se satisfazer. Tenho medo de te ver morrer dentro de mim pois não fui forte o bastante para te dizer tudo o que eu queria, para te pedir, te implorar pra ficar. E talvez isso não seja um problema, eu sei como amas a liberdade e tu sabes como meu desejo de ser livre e sem amarras é poderoso. Não quero te assistir escorrer por entre meus dedos, não quero te apertar e te ver sufocar dentro de mim.

Mas também nunca te direi, nunca confessarei, que aqui dentro tu já fez morada.

Então não me venha com essa liquidez, sei que tu podes ser matéria, ser consciência, ser como um cheiro de flor, que tu sentes, que tu sabe que te prende e que não se esvai. Sei que tu podes começar por ti mesma, ser constância, sem aparência, ser amor e ser crença.

Quer vier, encontrará uma verdade vinda de nascença,e ele poderá – usando o coração – ponderar se deseja ir ou deseja ficar. Mas tu mesma não mais mentirá pra si e pro mundo, não mais fingirá desamor. E quem sabe assim, com esse manifesto contra nossos amores líquidos, eu converta um por um à minha tão conhecida intensidade e perdurar.

Permita-me eu apresentar novamente, e me veja como mulher, não como uma irmã.
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