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Ecdise – Conto de Samira Oliveira +18

20.09.17

Conto indicado para maiores 18 anos. Para ler mais textos escritos por mim acesse Textos 

 

Dizer que se parece com um palácio talvez seja um exagero. Lembra-me muito daqueles filmes que eu costumava assistir, filmes que dizem do “antigo” de outros tempos. Um hospital talvez não seja a maneira exata de definir. Digamos que é uma mescla de realeza com ciência, coisa que resulta em algo estranho a que costumamos chamar de “moderno”. No ar uma luz dourada, como se o sol não ousasse atravessar seus limites para tocar o quarto, como se fugisse quase que desesperado, da tarefa ingrata de tocar a mim. Assim, no ar, resta apenas partículas minusculas de dourado, como se um importante bracelete de ouro estivesse se fragmentado – em infintos pedaços – de mim.

Eu não conseguia sentar em minha cama de dossel, muito menos deitar em um dos colchonetes disponíveis para meditação. Inquieta eu esperava, infinitamente por uma resposta. Despida, do máximo sentido que se pode atribuir a essa palavra. Despida de emoções; de vaidades, de roupa, de cultura, de memória e de pele. Completamente nua, completamente aberta por dentro, vendo extasiada a minha alma se debater sob a carne. Não tinha ideia do porquê isso aconteceu. Sempre confiei nele, como a minha vida, como o mais importante cacto da minha antiga coleção, como se fosse um pedaço do meu coração, desse insistente órgão que agora sinto e vejo pulsar dentro da carne.

Talvez o espelho quebrasse. Certa vez ouvi uma história, ou seria uma parlenda? Que a pessoa era tão horrenda que ao se olhar no espelho, o objeto não aguentou refletir tão feia imagem, e se quebrou em infinitos pedaços. Numa automutilação, numa autodestruição, poderia eu muito bem, ser a figura horrenda da história. Estaria eu pronta para cortar um dos tantos pedaços do vidro e destruir-me a mim mesma?

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Amigo, ainda me sobraram dedos para te contar.
Mirando-se no espelho.
Porque escolhi ser professora.
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Mirando-se no espelho.

27.11.16
Mirando-se no espelho conto de Samira Oliveira

De verdade, quem sou eu? Fixamente olhos mirando o espelho, puxo os cabelos para trás afim de prendê-los num rabo de cavalo. Assim fica claro a raiz escura nos fios vermelhos. Assim é possível também perceber meus olhos verdes se destacando na pele clara. Quem sou eu? A pessoa que saiu de sua cidade, que tinha um fio de esperança de conseguir alçar voo – e conseguiu? Quem sou eu? O ser que escreve, o ser que pensa e que reflete. Que ama e que deseja. Que sempre muda. Aquela que colocou um piercing na orelha, que gosta de ouvir a chuva, que escreveu um livro, que estuda o que ama e descobriu nisso uma vocação? Aquela que tinha muitos planos e anseios; que tinha promessas nunca feitas e sonhos de estrada. A pessoa que eu sou, que eu era, que eu serei.

A menina do espelho fixa seus olhos em mim.

– Quem você é? 

Não sei, como eu haveria de responder ao reflexo límpido de olhos que sonham? Para você, menina, sou seu futuro que você nem sonha – mas deseja ardentemente. Como mais posso explicar a um passado que eu sou a representação de coisas que você sequer entende? Como posso explicar que há mais do que angustias por não se encaixar, mais do que amores infantis, mais do que brincadeiras vagas. Mais do que você conhece?

Mais perto de mim, olhos mais velhos – de talvez um ano atrás, indagam:

–  Você é quem?

Como tais olhos podem ser tão ingênuos e fracos? Como pode se a diferença entre nós é de alguns meses? Resolvo não responder e os olhos somem pouco a pouco dando lugar à um borrão no espelho.

–  Ai está você, estive te procurando o dia todo!

– Eu te conheço? – pergunto aflita. O borrão não me é familiar.

O borrão abre uma boca incerta para argumentar.

– Não me lembro de ser tão convencida dessa forma, nem de ter essa força. Não me lembro de ter essa mente madura, para mim parece algo que está sempre em construção, como se minha mente sempre estivesse um passo atrás do que ela realmente pode ser.

Um arrepio me percorre o braço esquerdo. Acho que sei de quem se trata. Alguém que não conheço, ela eu nunca vi. Porque nunca fui.

Frente ao meu silêncio ela continua:

– Vi a menina também e vi os olhos ingênuos, agora vejo essa confiança. Só Deus sabe qual próxima eu verei. Será que quero vislumbrar o futuro como você? Será que sempre quis adivinhar quem eu me tornaria? Me responda você! Eu não tenho mais nenhuma pergunta a não ser esta: você está contente com o que é agora?

Sua voz me deixa insegura, tenho a impressão que essa pergunta é a decisão a se tomar entre um pedregulho e uma safira. Ela fala de coisas que eu não compreendo, ela tem uma certeza e uma coragem que eu desconheço. Ela tem uma elegância que nunca eu soube possuir – e que talvez não possua.

– Sim, eu me orgulho muito do que sou hoje, tenho medo do que fui e confio no que serei.

Ela deu um meio sorriso bárbaro e me respondeu:

-Quem te disse que será algo? Sou um borrão, desta vida eu não existo mais.

Ecdise – Conto de Samira Oliveira +18
Amigo, ainda me sobraram dedos para te contar.
Porque escolhi ser professora.