Pessoal Textos

O valor da mudança

29.02.16
Surreal Photography Inspiration

Surreal Photography Inspiration/Rebeca Carpintero

Precisei me mudar para sentir a chuva, precisei me mudar para que minhas unhas crescessem, precisei me mudar para amadurecer e entender lá no fundo do ser quem eu realmente sou, precisei me mudar para reacreditar em mim e na minha força, também precisei para poder perder medos – tantos – de altura, de borboleta, de pessoas, de viver! Precisei mudar para acessar alguém em mim que eu desconfiava da existência, mas nunca havia comprovado.

Quero dizer que, há um bom tempo, quando tentei ler minha mão com instruções da internet eu gostei de uma coisa: o tal polegar flexível.

Isso significava, segundo minha fonte, que eu era/sou uma pessoa aberta a mudanças. A questão é: eu nunca havia realmente me mudado – seja de casa, de amigos, de carro ou de qualquer outra coisa – pois então como testar tal fato? Seria ele uma mentira? Na verdade eu tinha uma grande intuição; a de que o manual não estava de todo errado, sentia-me adaptar –muito bem obrigada – conforme as coisas iam chegando.

Chegou uma época em que mudei levemente de amigos, mudei a maneira de pensar sobre determinados assuntos, mudei minha forma de ver e de ser vista pelo mundo. E toda essa mudança me fez muito bem. Faltava em fim, à mudança de fato. Que não tardou muito a ocorrer. A questão principal diz respeito a o que eu posso tirar disso tudo para o meu engrandecimento pessoal.

Um professor uma vez comentou que o poeta precisa viver; amadurecer – talvez até levar um pé na bunda ou passar por momentos de tristeza – precisa respirar ares novos e aprender sobre o que vive, precisa viver para aprender sobre o que vê; e precisa disso tudo para se formar como poeta, para ter aquela sensibilidade perante a tudo, que só se adquire depois de viver – não pelo tempo dos homens, mas por experiências – por essa razão a mudança me fez reformar-me.


A mudança me fez ficar, a tal ponto de que, quando estou em São Paulo, quero por aqui ficar. Quando volto para Piracicaba junto de minha família, de lá não quero retornar. A mudança me fez resgatar o sentimento de agradecimento, de amor e de profundo afeto e amor pela família; coisas que talvez nunca mais acontecessem nessa magnitude se eu estivesse entregue apenas ao dia a dia. A rotina é linda, mas por vezes enfraquece o coração e endurece o olhar. Pela rotina de anos a fio não vemos mais os tijolos à vista das casas antigas, nem o céu pintado de rosa e laranja ao crepúsculo. A rotina venda os olhos para o que nosso coração deseja ver; assim, não podemos mais ver com os olhos livres as pessoas que amamos, e por ventura, nos esquecemos de que elas não fazem hora extra e precisamos aproveitar o tempo – sempre.

A mudança me fez retornar, me fez voltar, me fez viver e ansiar por acordar e por seguir.

Agora sinto a chuva, minhas unhas crescem, ando em meio aos tantos bichos do campus. Agora, eu agradeço a todo instante, pois eu acreditei. Eu sei o que fazer, sei não me perder, sei finalmente como viver.

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