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Pessoal Textos

Quando escrever um diário

17.06.16
Escrevendo um diário.

Essa página em branco me assusta por alguns motivos, entre eles o mais relevante: não estou acostumada a deixá-la intacta. Na verdade, a página em branco me incomoda profundamente – por mais que isso possa parecer bizarro.

Com uns 9 anos ganhei um diário da minha tia, e comecei a me incomodar com suas páginas vazias. Então comecei a escrevê-lo. Ele não foi o único, vieram diários de viagem à praia – ele era verde e repleto de figurinhas – vieram canetas mágicas que prometiam não deixar que outros lessem meus escritos – e com elas vieram a percepção que os demais poderiam ler sim. Claro que eu fazia tudo errado, escrevia até sobre o meu café da manhã e qual rua exata eu morava. Mas só percebo hoje o que aprendi disso tudo, o que apreendi para mim. A lembrança mais forte que tenho sobre isso é de escrever sobre o menino que eu gostava, e, tenho que admitir, meu extinto de escorpião começava a gritar – e lembrar disso não me deixa mais constrangida como antes. Eu falava sobre as pessoas que eu amava e sobre aquelas que eu preferia manter distância; falava o que eu pensava, falava apenas porquê sabia que aquele pedaço de papel não iria me julgar como qualquer outro faria. Falava tudo e escrevia freneticamente – fazendo meus garranchos serem riscos incompreensíveis – escrevia para não desabar; para olhar para todas aquelas coisas e pensar melhor sobre elas – sim sempre refletindo sobre tudo – já que elas estavam escritas. Eu precisava de um local que ouvisse tudo detalhadamente, mas não uma pessoa – hoje em dia eu tenho uma pessoa assim – mas algo que eu pudesse amassar e jogar fora se eu não gostasse mais dos meus segredos – mesmo tendo dúvidas sobre isso, acho que eu sempre os amei e cultivei. Queria algo inanimado e que pudesse carregar todas as minhas palavras mesmo que eu não existisse mais. Queria algo que nunca me questionasse: Por que desistiu de dar um simples selinho em quem você gostava e talvez esperasse por isso? Por que resolveu não comer a cenoura que tinha no almoço? Por que continua achando que o problema é você e não eles? Por que não aceita de vez que não deve tão jovemente sofrer por quem não gosta de você? Aliás, por que se importar?

Ele talvez não tenha me dado todas as respostas, mesmo eu ainda esperando por elas. Talvez ele tenha sido bem mais que uma fuga. Talvez ele não tenha feito diferença nos meus atos – mas com toda a certeza fez diferença na pessoa que eu sou. Ele me fez ver as coisas por outro ângulo e a pensar antes de agir – talvez pensar até mais que o necessário me fazendo fantasiar coisas que nunca iriam acontecer, pelo menos não com quem eu gostaria que acontecesse. Me fez questionar sobre os caminhos que eu tomava e sobre por quem eu buscava viver: por mim ou por aqueles que queriam definir o que eu era? Escrevia, como eu sempre digo: para um desafogar. Para lembrar-me que eu estava íntegra apesar de tudo – no sentindo mais intrínseco da palavra. Era algo que eu necessitava, um amor, um vício, um alívio. Escrever sempre foi algo ao qual eu me dediquei exatamente para viver e, quando eu esqueço deste meu alimento tudo em mim para de funcionar. Muito mais que um combustível para o que sou, mas até mesmo um óleo para as engrenagens disso tudo. Não posso me enganar, escrevo para viver. E foi essa escrita que me salvou de ser o que eu poderia ser; que me mostrou em quem eu me tornava – e por isso pude regredir quando a rota estava errada ou prosseguir decididamente. Por esses motivos eu acredito que você deve escrever um diário, talvez só precise do aconchego das folhas quentes e de uma boa caneta. Não tenha vergonha, nem coloque cadeados. O que você é deve ser exposto à você e talvez a mais ninguém – mais isso quem deve resolver é você. Está na hora de estender seu ser para o entender; ele está a tempos ansioso por isso. Desafogue-se.

Amigo, ainda me sobraram dedos para te contar.
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