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Literatura

“The Beauty of Darkness” – Mary E. Pearson | Lealdade e Transformação.

02.05.17
"The Beauty of Darkness" - Mary E. Pearson | Lealdade e Transformação. Resenha por Samira Oliveira Blog Dezoito em Ponto

Finalmente a resenha de The Beauty of Darkness, terceiro e último volume da série “Crônicas de Amor e Ódio” escrito pela incrível Mary E. Pearson. 

♥ Resenhas de “The Kiss os Deception” e de “The Heart of Betrayal” ♥

Livro: The Beauty of Darkness
Série: Crônicas de Amor e Ódio
Autor(a): Mary E. Pearson
Editora: DarkSide - DarkLove
Genero: Fantasia
Páginas: 569
Classificacao:
Sinopse: Enquanto luta para chegar a Morrighan a tempo de salvar seu povo, ela precisa cuidar do seu coração e seus sentimentos conflituosos em relação a Rafe e as suspeitas contra Kaden, que a tem perseguido. Nesta conclusão de tirar o fôlego, os traidores devem ser aniquilados, sacrifícios precisam ser feitos e conflitos que pareciam insolúveis terão que ser superados enquanto o futuro de todos os reinos está por um fio e nas mãos dessa determinada e inigualável mulher.

Desde que terminei de ler The Beauty of Darkness, não consigo parar de pensar no final dado por Mary. Não que eu tivesse feito melhor, nem que eu preferisse um outro final. Na verdade o que eu quero é mais. As páginas das “Crônicas de Amor e Ódio” são como uma taça de vinho extraordinário, você aceita um gole após o outro, uma página seguida de outra – sem ver o tempo correr, sem mal perceber a história passar. Como numa espécie de magia, você se sente como que preso no próprio dom de Lia, preso em uma visão, preso na história arrebatadora da série. E foi por isso, que após ler a última página, eu tentei ao máximo perpetuar a sensação que essa história me provocava. Mas eu simplesmente precisei fechá-lo, porém tendo Lia para sempre dentro de mim.

Até que apareça aquela que é mais poderosa,/Aquela nascida do infortúnio,/Aquela que era fraca,/Aquela que era caçada./Aquela marcada com a garra e a vinha,/Aquela nomeada em segre,/Aquela chamada Jezelia.

Nesse desfecho, Lia sobrevive à sua fuga de Venda. Deixando para trás um Komizar agonizante, Aster morta e povoados proclamando-a como rainha, clamando pela esperança oferecida por ela. Mas Lia precisa fugir, precisa alertar Morrighan do perigo que eles correm, do exército de crianças soldados, do sangue que se escorrerá pela vinhas. Precisa alertar que Morrighan é a primeira de toda a devastação, de todo o plano do Komizar, que é o dragão movido pelo poder e pela desgraça. Rafe e seus mais fiéis amigos e companheiros, ajudaram Lia a fugir de Venda e a permanecer viva; ele arriscou seu Reino, sua família e seu poder apenas para ajudar aquela que o abandonou no altar. E essa talvez seja a maior prova do seu amor, o contraste gritante entre a segurança aprisionante e a liberdade que afasta o amor, mas que é a vontade dele. Interessante o amor dos dois, Rafe quer que finalmente Lia possa descansar e curar suas dores em paz – mas a guerra não acabou – ainda não há tempo para descanso. Ele quer que todo o seu esforço realmente falha a pena e eles possam ter a vida que sempre sonharam – mas Lia nunca será submissa, nunca aceitará não lutar pelo acredita, não batalhar nas guerras. Em seu Reino, Lia é mais do que nunca um soldado do reino de seu pai, ela é uma verdadeira Líder ao descobrir traições, revelações de décadas, histórias de sua família e lendas sussurradas através de gerações de Primeiras Filhas. Nunca a lealdade foi tão posta às claras, nunca foi tão valiosa – mais contraditória dos que flores de tannis, mais pungentes do que a morte.

Além de Rafe, da segurança de seu reino e do reino de Dalbreck, nossa heroína ainda precisa lidar com Kaden – que a persegue durante sua fuga – e descobrir a quem ele é leal. Em “The Beauty of Darkness” outros personagens terão seus desfechos e suas purgações, sem que nenhum detalhe seja esquecido. Esse foi um ponto muito bom, Mary amarrou muito bem todas as histórias, entrelaçando algumas que eu já havia desconfiado, e desfazendo outros nós, dando as respostas que todos procuramos. Ao fim, estamos mais amarrados à “Crônicas de Amor e Ódio” do que a garra e a vinha no kavah de Lia. Outro ponto interessante foram os diálogos de Lia, notei que eles ficaram mais profundos e extensos do que nos outros volumes, creio eu, para que todos os detalhes pudessem ser explicitados e dando mais voz ao herói, para podermos entender melhor seus sentimentos e motivações. As vezes os diálogos falam mais sobre o personagem do que sua própria narração em 1º pessoa. Gostei bastante de como Mary foi intercalando os textos dos Antigos com a narração do presente, de modo que vamos percebendo a aproximação entre Lia e as personagens de outros tempos.  Afinal, “Tinha de ser alguém”

Não importa quantos universos vão e vêm, sempre me lembrarei de quem éramos juntos.

Lia é uma das personagens mais fortes que eu conheço. Essa é a mais bela história feminista e empoderadora, sem entretanto, citar tais termos e muito menos deixar explícito. Lia, vai abrindo caminhos para tomar seu lugar como mulher e guerreira. Ela vai mostrando a fortaleza que se tornou, o poder que adquiriu e a certeza que a guia. Continuando com um coração de carne, ela sabe que precisa matar – ela sabe que precisa de um mínimo de vingança para se alcançar a esperança. Ela coloca cada um em seu lugar e mostra quem ela realmente é; forte, humana, e um verdadeiro soldado.


Toda a trilogia me lembrou o processo Bildungsroman, definido pelo filólogo Karl Morgenstern em 1810. Resumidamente, o Romance de Formação seria: “uma forma de romance que representa a formação do protagonista em seu início e trajetória até alcançar um determinado grau de perfectibilidade” (1999, p.18) Tal processo de formação, envolve resumidamente, a mudança da herói (Lia), seu autoconhecimento e sua orientação no mundo (conhecendo-se como Jezelia, presente nos Testemunhos), processo de amadurecimento do herói (sua vida e fuga de um simples casamento, para a volta como um soldado), a separação em relação à casa paterna (fuga de Morrighan), atuação de mentores (Dihara), experiências intelectuais eróticas (bem… Rafe e Kaden) e finalmente, contato com a vida pública e política (povo de Venda). Infelizmente não tenho espaço para uma análise acadêmica como eu faria, mas acho que com esse pequeno resumo vocês já puderam entender o que seria o Bildungsroman e como “Crônicas de Amor e Ódio” se encaixa nessa teoria.

Como eu já havia comentado com vocês nas resenhas de The Kiss of Deception e de The Heart of Betrayal as minhas teorias sobre Gaudrel, Venda e Morrighan estavam quase que completamente certos. Deixei um excerto que explica bem bonitinho tudo isso, e o coloquei porquê já ficou explícito no segundo livro. Só fiquei em dúvidas quando aos escritos de Aster. Alguém tem uma boa teoria pra me emprestar? Eu poderia ficar páginas falando sobre como “Crônicas de Amor e Ódio” me marcaram, mas passo a vez para vocês, leiam, se emocionem e chorem – quando terminar poderão enfim, respirar fundo e descansar – esse mundo ele, nos inspira… ele nos partilha. "The Beauty of Darkness" - Mary E. Pearson | Lealdade e Transformação. Resenha por Samira Oliveira Blog Dezoito em Ponto

“Existem outras verdades, Pauline. Verdades que você precisa saber”. E contei a ela sobre Gaudrel, Venda e a menina Morrighan, que foi roubada de sua família e vendida a Aldrid, o abutre, por um saco de grãos. Contei a ela sobre as histórias das quais nunca antes tivemos conhecimento e sobre os ladrões e os abutres que eram os fundamentos do nosso reino, e não um Remanescente escolhido. Os Guardiões Sagrados não eram nem um pouco sagrados.”

“Vocês definem uma espada pelos termos que lhes são familiares em todas as formas como veem, sentem e tocam. Contudo, e se houvesse um mundo que falasse de outras maneiras? E se houvesse outra forma de ver, ouvir e sentir? Nunca sentiram alguma coisa bem lá no fundo de vocês? Não tiveram um vislumbre disso brincando atrás dos seus olhos? Já ouviram uma voz em algum lugar nas suas cabeças? Mesmo que não estivessem certos disso, esse conhecimento fez com qque os seus corações batessem um pouco mais rápido? Agora multipliquem isso por dez. Talvez alguns de nós saibramos das coisas mais profundamente do que outros

"The Beauty of Darkness" - Mary E. Pearson | Lealdade e Transformação. Resenha por Samira Oliveira Blog Dezoito em Ponto

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Análise crítica do filme “A Chegada” sob a ótica linguística da teoria Sapir-Whorf

08.04.17

Análise crítica do filme A Chegada sob a ótica linguística da teoria Sapir-WhorfEssa análise crítica de “A Chegada” vai ser um pouco diferente, será feita sob uma ótica linguística, seguindo a teoria de Sapir-Whorf – assim como a personagem principal, uma linguista – e jogar uma luz nos acontecimentos – que para alguns deve ter ficado um tanto nebulosos. Para isso vou me basear na discussão do filme feita pelos professores da USP Ana Müller e Paulo Chagas. Como vocês bem sabem, eu faço letras na FFLCH, mais precisamente Letras – Linguística e estou cada dia mais apaixonada pela minha habilitação – para saber mais sobre o que eu estou falando, acesse esse post.

Primeiro ponto que já deve ser deixado claro; os heptápodes querem nos dar um presente, a sua própria língua, para nos ajudar – e até certo ponto não sabemos como uma língua pode ser útil para nossa terrível humanidade – e com a a mensagem de que no futuro nós deveremos ajudá-los em troca. No ponto em que eles chegam à Terra, a raça humana está dividida (será que vai ser esse ano?) e começa mais ainda a se dividir e a ensaiar uma guerra – e é ai que o Heptápodes nos salvam, nos unindo por meio de sua linguagem.

O filme possui uma estrutura circular, começando onde termina, assim como o “registro escrito” da linguagem dos heptápodes. A escrita circular deles nos remete muito à essa ideia de ciclo, de looping eterno, tanto é que, para ler o que o simbolo transmite, não faz diferença começar de um lado ou de outro, de cima ou de baixo; em qualquer lugar que você entrar para começar a ler, é possível entender.

Análise crítica do filme A Chegada sob a ótica linguística da teoria Sapir-Whorf 1Outros pontos devem ser levados em consideração para reconhecer a importância desse filme e sua indicação ao Oscar de 2017. Denis Villeneuve (O Homem Duplicado) é o diretor da obra, o que por si só já trataria de deixar o filme um espetáculo. “The Arrival” é baseado em um conto do escritor Ted Chiang chamado História da Sua Vida que constrói uma excelente ficção científica que nos prende na emoção por querer saber mais (se eu gostei é bom hahaha, brincadeira, é que eu passo bem longe de ficção cientifica). Outro ponto bem legal são as combinações das cenas, quando a câmera começa a filmar a casa de Louise executa o mesmo movimento feito, ao filmar a abertura da nave dos heptápodes – nos fazendo pouco a pouco colher pistas sobre o porvir. Também é interessante a questão das cores, no começo, com uma atmosfera triste, o filme está todo em tons azuis e acinzentados, nos passando que aquelas cenas são de tensão e tristeza, e que vão mudando conforme o único elemento feliz da vida de Louise vai sendo apresentado: sua filha. Análise crítica do filme A Chegada sob a ótica linguística da teoria Sapir-Whorf 2

  • Começo dos spoilers

Um ponto bastante delicado do filme, é a questão das perdas e de como o ser humano lida com elas. É interessante notar que as cenas do inicio do filme, são na verdade, vislumbres do futuro, que Louise Banks (Amy Adams) estava vendo – de modo que ele mostra o que ela terá no futuro enquanto o filme está no presente, reforçando mais ainda essa ideia de circularidade. A ideia que está por trás é tão forte que faz com que a linguista aceite seu futuro mesmo sabendo que ele terá muitas dores; ela o aceita mesmo sabendo das perdas e das quedas, pela simples beleza da nossa vida: a de viver os momentos.

Ela aceita o futuro com tudo o que há nele, pois não faz muita diferença entre saber ou não saber, o futuro está lá, ele já existe, ele talvez seja inevitável, e você pode apenas aproveitar os momentos dele ao máximo. Louise transpõe a nossa concepção linear de tempo ao aprender a língua dos heptápodes e passar a ter uma visão circular do tempo.
Análise crítica do filme A Chegada sob a ótica linguística da teoria Sapir-Whorf gifTodo o filme está ancorado à teoria Sapir-Worf, de determinismo da língua, defendendo a ideia de que cada povo tem sua alma refletida em sua língua, e portanto o aprendizado de uma nova língua inclui o aluno nessa sociedade e nessa forma de pensamento, de modo que ele passa a pensar de um jeito diferente. E isso é uma ideia que eu julgo plausível porém não absoluta, e que foi melhor explicada pelo professor Paulo. Aplicando essa teoria ao significante, é importante notar que, quando nascemos, o nosso ouvido está extremamente sensível a diferença dos sons, de modo que tanto faz para um recém nascido, aprender finlandês (uma das línguas mais transparentes) quanto inglês (uma língua opaca). Assim, aplicando Sapir-Worf ao significado, podemos observar que, em cada língua há por exemplo, um modo novo de classificar as cores; em algumas línguas podem existir determinada cor que não exista em outras. Isso também ocorre no grau de parentesco, por exemplo, em turco, “tia” pode ser “hala”= tia paterna, “teyze”=tia materna, “yenge”=esposa do tio e cunhada do irmão de seu esposo. Isso nos mostra como cada povo tem um jeito próprio de encarar o mundo a partir de sua língua; utilizando novamente o turco é interessante notar a inexistência de distinções entre feminino e masculino para pronomes de sujeitos, de modo que – essa é uma tese minha – reflete na língua a sua “cultura” patriarcal e machista (infelizmente até hoje). Mas se você não sabe nada de turco, não precisa de preocupar, não precisamos ir tão longe; basta notar no inglês verbos específicos de movimentos, como por exemplo “stride”= andar a passos largos, que não há no português; de modo que eles criaram um verbo para a ação, diferente de nós, que colocamos o adjunto adnominal para este fim.

Análise crítica do filme A Chegada sob a ótica linguística da teoria Sapir-Whorf 3Quanto à metodologia de pesquisar e softwares por Louise usados, eu ainda não tenho muito conhecimento – apenas sei do PRAAT. Mas a professora Ana explicou que o mapeamento de uma nova língua é exatamente como descrito no filme – só que muito mais vagaroso – o processo é o de um levantamento de um vocabulário básico que seja praticamente imutável e bem essencial (boca, mãe, pai, nome próprio). E depois que compreendido esse vocabulário é necessário juntá-lo a uma ação – no filme, Louise pega o nome “Ian” e atrela ao verbo “andar”: “Ian anda”, o que é compreendido pelo heptápode ao imitar a ação de Ian. Depois é necessário apresentar os tempos verbais, o que no caso do heptápodes é um conceito muito mais sofisticado do que o nosso.

Algumas outras dicas servem para irem nos dando pistas sobre o que há por trás de tudo, entre eles, o nome de “Hannah” que é um palíndromo e pode ser lido tanto de trás para frente como de frente para trás, assim como a concepção de mundo e de tempo adquirida por Louise.Análise crítica do filme A Chegada sob a ótica linguística da teoria Sapir-Whorf gif 1Quanto ao final do filme e à cena envolvendo o general chinês Shang, é possível deduzir que os chineses receberam a mesma mensagem sobre “oferecer arma” e por isso inclusive, resolveram iniciar uma guerra. O fato de o general ter dado seu número pessoal no dia do lançamento do livro de Louise no futuro, pode ser explicada de formas bem enroladas: ou quando Louise estava falando com Shang ela pediu para que no futuro ele desse essa informação a ela, que foi portanto resgatada novamente no “presente” apresentado no filme. Ou Shang também consegue viajar psicologicamente no tempo, mas ai fica a pergunta: Se ele sabia o futuro e viu que a guerra não iria acontecer, porque ele a iniciou? É aqui que entra a frase dita por Louise no final: “Se você soubesse sua vida inteira, você a viveria do mesmo jeito ou a mudaria?” De modo que todos, mesmo sabendo seu final, resolveram optar pelo caminho que haveria de ser perseguido – Louise e o abandono do marido atrelado à morte da filha; do mesmo modo que Costello viveu a morte do Abbott mesmo sabendo que ele morreria, ou melhor dizendo “estaria em processo de morte”. Ou Sheng estava enfurecido com a oferta de arma dos heptápodes e resolveu mesmo assim tentar uma guerra contra eles – mesmo sabendo que seria detido. Também pode ser que no futuro, depois que Louise escreveu seu livro sobre a linguagem dos heptápodes, Sheng a tenha aprendido também, e resolveu dar a informação necessária para a resolução do conflito. Outra teoria é de que Sheng já sabia o futuro (havia aprendido com os aliens) mas sua mulher ainda estava viva, portanto quando Louise chegou e disse as últimas palavras de sua esposa a partir do que ele tinha lhe contado no futuro, ele já sabia que sua mulher iria morrer e que iria dizer aquelas preciosas palavras: “Guerra não gera vencedores, somente viúvas”. Na verdade, essa cena e seus afluentes me lembraram muito de “Efeito Borboleta”(2004) e na correspondência entre os atos do futuro e do presente, e que alterando um acaba por alterar outro, só que de uma forma mais profunda. É como se Louise não somente visse seu futuro, mas como se ela o revivesse – e talvez por isso ela, e todos os posteriores “falantes” de heptapodês não hesitem em escolher seguir o caminho do futuro, pela ânsia em realmente viver o momento inteiro no que antes só era possível experimentar por flashes incompletos.

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Como é morar no CRUSP – Moradia Estudantil da USP #2

10.02.17

Entrevista - procedimentos necessários para morar no alojamento estudantil de faculdade pública. Aluna conta um pouco sobre sua experiência como moradora do CRUSP..USP imagens

Universidades Públicas como a USP costumam ter alojamentos para alunos que não tenham condições de pagar um lugar para ficar, no nosso caso, o alojamento se chama CRUSP. Além da moradia ainda há outros auxílios que podem ser conseguidos pelos alunos – basta seguir alguns passos que vamos explicar melhor ao longo do post. Além disso, sempre tem aquela dúvida em como será que funciona tudo isso; “como conseguir uma vaga?”, “como funciona o alojamento?” e aquela célebre pergunta: “você gosta de morar no CRUSP?”. Para responder melhor todas as perguntas que você, calourinho, está pensando nesse instante, convidei minha amiga Daiana Teixeira para um breve entrevistinha que, prometo, vai te deixar menos confuso e mais confiante quanto á sua moradia. Este é o segundo post da série Calouro Letras USP. No primeiro post (este aqui) contei sobre como foi o meu primeiro ano na faculdade – e falei um pouquinho sobre as matérias ministradas nesses 2 semestres iniciais.


  • Dai, você me disse que faz parte do Grupo do Trabalho (GT), como ele funciona? O que é discutido e trabalhado no Grupo?

O GT de permanência é um grupo vinculado à Associação de Moradores do CRUSP (AmorCrusp) que busca se reunir com os moradores para discutir sobre a permanência estudantil, principalmente com os candidatos a novos moradores. O GT de permanência acompanha a situação dos estudantes que estão no alojamento e os convida para reuniões, ajuda na busca por vagas no Crusp, orienta sobre pessoas que já causaram problemas no Crusp, e atua na recepção dos calouros para que eles saibam que o Crusp existe e como é o processo de seleção para a moradia.

  • Como é morar no CRUSP?  A convivência com os demais alunos é boa?

Pra mim sempre foi um sonho morar na universidade, sempre fez parte dos meus planos e me sinto feliz morando no CRUSP.  A economia de tempo com certeza é a maior vantagem, porque no meu caso, em 10 minutos a pé chego na Letras e o bandejão fica no corredor de acesso aos prédios. O Cinusp (cinema da USP) também fica ao lado; há duas lavanderias, que  são bem básicas mesmo e super concorridas, mas ajuda muito! Os apartamentos são pequenos: área comum, um banheiro com privada e outro com chuveiro e tanque (exceto bloco A1, que é o mais novo e tem área comum, 6 quartos, banheiro, uma mini cozinha e internet cabeada) – o que pra mim que sempre morei numa casa pequena, não é dificuldade nenhuma. No Bloco que eu moro tem duas cozinhas coletivas (com fogões, pias e mesas, mas sem geladeira), no 2º e no 6º andar, nos outros andares, tem sala de vídeo com TV e poltronas, e uma sala de estudo com pouca estrutura (uma mesa de plástico e uma ou outra cadeira, da última vez que vi). No Crusp, exceto no bloco A1, o que o pessoal geralmente reclama bastante é a falta de internet. Eu tive sorte de entrar em um apartamento que funciona até que bem – o wi-fi cai só às vezes.  Mas em muitos apartamentos não funciona, então vários moradores recorrem ao que a gente chama de Crackonet, que é um espaço em frente a entrada do Cinusp onde o sinal funciona melhor e aí sempre tem gente lá com computador e celular – se você passar lá duas horas da manhã, tem gente. Em relação à convivência, posso dizer que no geral é tranquila, lembrando que falo pela minha experiência, porque nunca sofri assédio, nem briguei com alguém, e moro com pessoas muito legais. Porém, existem pessoas que já passaram por situações difíceis no Crusp, como mulheres e LGBTs que sofreram agressões; moças que já foram assediadas ou até mesmo estupradas por algum morador (sim, existem casos, para saber mais, é só procurar saber das situações levantadas pela Ocupação da SAS), pessoas que já tiveram coisas roubadas, etc… Como em todo lugar no mundo, no CRUSP também existem pessoas escrotas, que às vezes não entendem que a cozinha é coletiva, que sujam o elevador (já fizeram xixi), mas, como em todo lugar no mundo, também existem pessoas gentis, pessoas que querem tornar o CRUSP um lugar melhor pra se viver.

  • Como funciona a distribuição de estudantes novos?

Depois que sai o resultado do PAPFE, você tem um prazo para tentar entrar em um apartamento por afinidade, ou seja, você vai bater de porta em porta perguntando se tem vaga (há um quadro na portaria de cada prédio que consta os nomes dos moradores e dos quartos com vaga, MAS, nem sempre esse quadro está atualizado), contando sua história, conversando com as pessoas e tal, até achar um apartamento em que você se sinta acolhido e seja aceito pelos moradores. Caso você tenha amigos no Crusp e no apartamento deles tenha vaga, você pode morar com eles. Se esse prazo acabar e você não conseguir um lugar por afinidade, você vai para sorteio e aí pode cair em qualquer apartamento com vaga: com pessoas legais, ou nem tanto, ou terrivelmente escrotas. Você pode ser hospedado regularmente (quando a SAS sabe que você é hóspede de alguém), ou hóspede, sem ninguém saber, você pode simplesmente não existir para a burocracia.

  • Qual é o processo necessário para um aluno que deseja morar no alojamento? 

A primeira coisa é correr na SAS e explicar toda sua situação, que você não tem onde ficar nem dinheiro para pagar, então você vai passar por uma avaliação e o resultado sai em alguns dias, no meu caso fiquei acampada na sala 51 do bloco F (acampamento organizado pelo GT de permanência, sem nenhum vínculo com a SAS) na semana da calourada, e entrei no alojamento no primeiro dia de aula, 22 de Fev. O prazo para ficar no alojamento vai até sair o resultado do Crusp, se você conseguir uma vaga, é só se mudar. No meu caso fiquei no alojamento até Agosto, porque o resultado do PAPFE atrasou, e consegui o CRUSP na segunda chamada. Os alojamentos do bloco E tem 3 quartos com duas beliches cada, dois banheiros com privada, um banheiro com dois chuveiros e  pia do lado de fora, morei lá com mais 8 meninas, sendo que cabiam 12. No bloco C, por exemplo, o masculino fica no térreo, são duas fileiras de cama (umas 8, 10) e um banheiro grande com chuveiros e privadas (não sei quantidade).

  • Quais outros auxílios são oferecidos pela USP?

O CRUSP também é chamado de Apoio Moradia. Além dele existe:

Auxílio Moradia: R$ 400,00  todo mês para você se virar fora do Crusp, se não me engano, durante um ano e depois dá pra renovar.

Auxílio Alimentação: Café, almoço e janta de graça no bandejão. Quando você pede esse auxílio, você tem que informar quantos créditos precisa, cada crédito é uma refeição, e se não me engano, café nem entra na conta.

Auxílio Livros: R$ 150,00 todo mês durante um ano (exceto Julho e Janeiro) pra comprar livros em qualquer livraria dentro da USP. Poucas pessoas conseguem esse auxílio, somente as pontuações mais altas no PAPFE.

Você também pode participar do Programa de Unificado de Bolsas (PUB), se não me engano abre edital todo ano. Para isso você precisa estar inscrito no PAPFE, porque o PUB também utiliza a pontuação dada pela avaliação socioeconômica. O PUB é basicamente: abre o edital, você pesquisa pelo Júpiter os projetos dos professores de acordo com seu interesse na (s) vertente(s) pesquisa, cultura e ensino (o chamado tripé que sustenta a USP) e se inscreve em até dois. Aí é o professor que te seleciona ou não, de acordo com a pontuação, então pelo Júpiter você vê se foi selecionado ou não, aí você aceita ou não, aceitando você aceita um contrato com algumas cláusulas. Basicamente, você trabalha no projeto com o professor apenas 10h por semana e recebe R$ 400,00 reais por mês.

  • Qual o procedimento necessário para recebê-los?

Inscrição no PAPFE pelo Júpiter, entrega de documentos (muitos) e entrevista com a assistente social se for a primeira inscrição no PAPFE, e se não for, você pode entregar menos documentos e decidir não conversar com a assistente.

  • Como funciona a limpeza do prédio e dos apartamentos? Nas áreas de convivência tem algum funcionário que desempenha tais tarefas, ou os alunos que ficam encarregados disso?

Brevemente: os moradores se viram com a limpeza de seus apartamentos. Os funcionários limpam as demais partes dos prédios, o que inclui corredores, cozinhas, elevadores, escadas, vidros, etc. Os moradores podem solicitar serviços de manutenção na zeladoria, como por exemplo, conserto de fechaduras, desentupir tanque, essas coisas.

  • Qual o tempo máximo para a permanência (em anos) de um aluno no alojamento?

Se não me engano, é o tempo ideal da sua graduação mais um ano.

  • Há alguma separação entre alunos da graduação e alunos da pós?

Sim, os blocos C e G são exclusivos para a pós. Os restante é para alunos de graduação.

Bom, agora que você já sabe resolver seu maior problema: moradia, que tal descobrir 18 coisas que você PRECISA SABER antes de morar sozinho (sério, isso é muito importante e você vai se surpreender com algumas “novidades” dessa nova vida hehehe). Ah e aproveita pra conferir o penoso percurso ente a temida FUVEST e a tão sonhada USP. E se você perdeu o primeiro post dessa série, não se desespere, clique aqui e saiba como foi meu 1º ano na faculdade. ;)

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Como foi meu 1º ano na faculdade de Letras #1

30.01.17

Como foi meu primeiro ano na faculdade de Letras na USP

Bom, pra começo de conversa, se você está lendo esse post, muito provavelmente você é um calouro (bixo) da Letras e está atrás de informações sobre esse novo mundo. Para saber o comecinho, ou seja, o dia da matrícula na USP e como começou minha nova vida, leia esse post . Pois nesse aqui vou tentar explicar mais ou menos como funciona a faculdade, mais especificamente a Letras, e como eu lidei com isso.


Não sei você, mas eu quando estava na escola usava um material didático próprio desenvolvido pelo sistema da escola – no caso, o Poliedro – e pelo que me lembro, apenas uma vez usei livros que não fossem todos do mesmo sistema. Então na minha cabeça vazia de adolescente da escola eu já mirabolava alguma apostila muito louca da USP – mas eu sabia que não seria assim, lógico. Então pensei que nós teríamos de comprar muitos livros, pois afinal foi isso que eu sempre tinha ouvido: “faculdade de Letras lê-se muito, você vai amar”. Então ok, já pedia clemência aos céus e perdão de meus pecadinhos em falar pra minha avó que, além de todo o dinheiro gasto com escola a vida toda a gente ainda ia ter de comprar inúmeros livros! Mas ainda bem, não foi isso que aconteceu… Eis então, a grande verdade, não usamos livros, usamos o famigerados xeróx – uma obra prima da humanidade que te acompanhará do início ao fim e te fará perder muitos “dinheiros” que iriam pra coxinha. Isso descobri pelo grupo do Facebook (a cada ano eles fazem um grupo novo da Letras para os calouros – mas todos os veteranos acabam entrando também e o grupo do ano anterior fica esquecido – então já te aconselho, clica ai e entra no nosso grupo, ou se você é de outra faculdade, procura ele no Face e já pede pra entrar – isso vai te ajudar muito!

Outra coisa interessantíssima (e que me rendeu vários “nossa que folga” ou “nossa que curso fácil” ou “que moleza essa USP!) foi: você terá apenas 4 matérias; sendo elas: Introdução aos Estudos Literários (IEL), Introdução aos Estudos Clássicos (IEC), Introdução aos Estudos da Língua Portuguesa (IELP) e finalmente, Introdução à Linguistica (IL ou Linguística mesmo). Cê tá perdido? Não fique, vou explicar tudo tim tim por tim tim.

Primeiro: Literários (apelido carinhoso pra IEL). No primeiro semestre eu passei a odiar literatura com todas as minhas forças (e olha que minha motivação principal para a faculdade sempre foi a literatura) isso porquê o professor que eu “cai” não me agradava nem um pouco; me dava sono (e olha que é difícil eu tem sono em aula), me dava tédio, náuseas e vontade de morrer. Mas no fim, depois de muita luta contra o ventilador e contra ao lixo (ele não gostava do ventilador e nem do lixo) conseguimos sobreviver, eu, com 8 graças ao que aprendi na escola. Em IEL você vai aprender os fundamentos da literatura, ou prosa ou poesia, e são coisas bem básicas para quem já gosta dessa área – rimas, verso, figuras de linguagem e outras coisinhas (eu tive poesia no 1º semestre e prosa (conto) no segundo. No segundo semestre eu fui muito feliz nessa matéria, aprendi muita coisa com uma professora incrível (calouros, podem vir pedir o nome dessa linda e vão todos correndo com ela ♥), ela era maravilhosa e sinto muita saudades das aulas dela. Ela trabalhou conto e começou a falar de romance, e eu nunca imaginaria que conto poderia ser tão fantástico (olha o trocadilho hehe) e mágico.

Informação importante: no primeiro semestre você não escolhe seus professores e nem no primeiro semestre da habilitação (já vou explicar) então corre o risco de você cair com alguém famoso pela chatice ou com alguém muito famoso pela perfeição, é apenas uma questão de sorte.

IEC: Já nessa matéria eu tive a grande felicidade de no primeiro semestre cair com uma professora disputadíssima e conhecida, que ensinava muito bem e era um anjo de pessoa (ainda por cima engraçada e vegana). Mas no segundo o Júpiter mostrou sua verdadeira face cruel e me jogou com uma professora que não tinha uma fama muito boa e bom, isso deixemos para outra conversa. Nessa disciplina, no primeiro semestre, vimos e lemos (eu comprei mas ainda não li) Ilíada, Odisseia e Eneida. E no segundo vimos (acho) teatro grego e mais algumas coisas como Comédia e Tragédia. É uma parte bem gostosa pra quem gosta dessa parte antiga e é bem interessante (as Comédias são realmente engraçadas, acreditem) e mais legal ainda é trabalhar o pensamento da sociedade da época e contrastar com o atual.

Outro fato importante sobre as matrículas nas aulas (que são distribuídas pelo sistema Jupiter Lucifer ) é que mesmo quando você pode escolher os professores (como no segundo semestre ou do quarto em diante) você pode não conseguir o professor que você quer. Isso porquê o sistema tem um critério (sombrio e louco) de seleção; alguns dizem que é pela nota da Fuvest, outros que é pela média ponderada, outro que é por ordem de matrícula na aula e outros ainda que é obra do The mo (sendo ou não, sabemos que o sistema é Lúcifer então não seria de se espantar né?)

IELP: Pensem numa matérias gostosinha e leve, IELP será. Quase todo mundo não gosta (mas minha vó sempre disse que eu não sou todo mundo e eu sou do contra, sempre amei botânica enquanto todos odiavam) mas eu acho uma delícia! No primeiro semestre tive aula com uma dupla ótima, eles eram muito organizados e metódicos e o trabalho final eu escolhi fazer sobre preconceito linguístico ♥. No segundo semestre também consegui um professor muito bom, também muito organizado e pasmem, super engraçado e fofo! Aqui vocês vão aprender a história do português e suas transformações e também todos os nomes (diferentões) para cada detalhezinho de cada texto. Asseguro-lhe que é bem interessante e fácil, porém um pouco trabalhoso.

Linguística: Essa é uma matéria linda que estuda as relações entre o que está escrito o significado, ou significante e significado ;) e mais algumas muitas coisinhas (que irei aprender este ano na habilitação). Consegui no segundo semestre pegar o mesmo professor do primeiro e ele era muito bom, na verdade acho que um dos melhores, e explicava muito bem.


  • Quanto a livros

Nos aconselharam a comprar 2 livros que são como apostilinhas da Linguística; o Introdução à Linguística 1 e 2  E foram de fato muito úteis pois cada capítulo foi escrito por um professor da Lx e eles gostam bastante desse livro e costumam usar bastante, além disso, eles têm exercícios muito bons no final – e ajuda a treinar pra prova. Outros livros que comprei foram Illíada, Odisseia e Eneida, e alguns da Cosac & Naify ,fora alguns outros que encontrei no “sebo” da letras e alguns na editora da FFLCH, a Humanitas. Então assim, imprescindível são os xérox, mas a maioria deles você ou encontra na internet ou o professor disponibiliza online – mandando por e-mail para os alunos ou através da plataforma Moodle Stoa. O Moodle vai ser um grande aliado seu, nele os professores que o usarem, colocam todas as datas de provas e trabalhos, todas as leituras e sugestões e ainda podem mandar mensagens para todos – muito útil para quando eles precisam faltar por conta de algum congresso ou evento do gênero.

Uma coisa interessante e que senti falta foi: aqui não é mais o ensino médio, não tem sinal pra tocar. E isso me deixou meio desnorteada pois no começo eu era bem avoadinha e distraída (como você bem sabem, com a mudança eu evolui muito e acho que finalmente, adulteci) mas ai é só você seguir a movimentação que vai acontecendo e ir seguindo até a sala – ou ficar nela caso você esteja preso em algum livro muito bom.

Na Letras tem uma lanchonete bem boa, as pessoas são bem legais e gentis – e até esquentam minha marmita no microondas deles hehe. Outra coisa importante de saberem é o CAELL (Centro Acadêmico de Estudos Literários e Linguísticos) – a gestão atual é a Viramundo que teve umas propostas muito boas e ganhou merecidamente♥eles cuidam de toda a organização da calourada por exemplo e resolvem eventuais problemas que possamos ter com a faculdade, nos ajudam e nos orientam.


Bom, esse é o primeiro post da série “Calouros Letras USP” e espero que tenham gostado! Vou postar mais coisas e explicações sobre a faculdade, então se você não vai fazer esse curso continua comigo pois vou falar sobre coisas que toda faculdade tem, você vai gostar!

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Literatura

Resenha “Madame Bovary” | Feminismo e Psicologia

16.01.17
Resenha Crítica Madame Bovary de Gustave Flaubert. Pioneiro da escola literária romantismo, importante obra para a literatura mundial.
Livro: Madame Bovary
Série: -
Autor(a): Gustave Flaubert
Editora: Martin Claret
Genero: Romance Realista
Páginas: 397
Classificacao:
Sinopse: “Texto de suma importância, “Madame Bovary” é uma leitura essencial, sendo considerado um dos melhores romances da literatura, sendo, provavelmente, o melhor dos livros do romance realista de caráter psicológico do século XIX. Para mostrar seu mundo, Flaubert põe em cena uma personagem em total desacordo com sua realidade, com sua posição social e com seu sexo. É nessa personagem que se centrarão as ações desenvolvidas na narrativa e os principais dilemas da obra.”

Com um tema tão forte e polêmico, o livro é atormentador em qualquer época ainda mais em 1857, quando a sociedade e a religião oprimiam e sufocavam as mulheres. Considerado o pioneiro entre os romances realistas e famoso pela sua originalidade, gerou posteriormente o termo psicológico “bovarismo” em referência ao comportamento da protagonista. Foi impossível não recordar da obra “Primo Basílio” de Eça de Queirós, principalmente nas cenas de luxúria entre Emma e Léon e  na descrição sobre toda a decoração do quarto, sobre o Champagne que tomavam e os queijos que comiam. Pelo teor de sua obra e pelas críticas ao clero e à burguesia, Gustave Flaubert foi condenado pela Sexta Corte Correcional do Tribunal de Sena e se esquivou das acusações com a célebre alegação “Emma Bovary c’est moi” (Emma Bovary sou eu), ao fim, o autor foi absolvido porém continuou a ser acusado de ofensa moral à religião e aos bons costumes pelos críticos literários puritanos da época. O traço da escola Realismo (inaugurada pela obra) é interessante, principalmente ao ter como personagem principal uma mulher romântica. Apesar do adultério, Emma é inteiramente uma personagem romântica, e como no realismo é costume criticar a escola anterior, é de se imaginar que a personagem teria um fim trágico – uma quase conversa com os costumeiros fins do Romantismo, em que, ou os amantes morriam ou se convertiam para o celibato. O aspecto sombrio e “corrompido” de Emma, anteciparam por quase um século o movimento feminista e libertário de emancipação da mulher. Dessa forma, a obra preparou o terreno para o que seriam os ideais da luta pela igualdade de direitos civis e da ascensão da mulher ao mercado de trabalho – propostas que iam muito além do radicalismo proposto por  Glória Stein, o da “queima de sutiãs”. É interessante notar que a anti-heroína de Flaubert foi criada à imagem de um fato real ocorrido no sul da França.  Segundo a biografia do autor, Alfred Le Pottevin foi um importante personagem em sua vida, o filósofo compartilhava das atitudes negativas do jovem autor e foi o responsável por fazê-lo se aprofundar em seus sentimentos sombrios. Assomado à esse fato, a morte precoce do pai, a epilepsia e a influência de autores marcados pela melancolia como Lord Byron e Rousseau, formaram a psique de Falubert – um homem antissocial e introspectivo.

“Felicidade, paixão e embriaguez não faziam, como já destacamos anteriormente, parte do repertório feminino daquele tempo. Prazer e satisfação sexual definitivamente não eram coisas de “moças de família”. Os estereótipos femininos são construídos sob a base do coração, centro de toda a vida da mulher, e que a psicanálise viria mais tarde, a definir e a reduzir pelo útero. Basta ver que o termo histeria, vem etimologicamente do grego hustéra, cujo significado é útero. O termo passa então a ser adotado para designar distúrbios de origem mental que afligem as mulheres: sua condição feminina é, para a Ciência, positivamente patológica.” – Haroldo Cesar Michiles,  2012

Atenção, essa crítica contem spoilers, então se você não conhece a obra e não gosta de saber alguns detalhes, melhor pular essa parte :wink:



Resenha Crítica Madame Bovary de Gustave Flaubert. Pioneiro da escola literária romantismo, importante obra para a literatura mundial.

Acredito ser impossível se manter imune aos encantos e pensamentos de Emma, por essa maneira, achei apropriado fazer muito mais que uma resenha, mas comentar os pontos mais chamativos da obra. Também porquê durante toda a sua leitura não consegui passar um dia sem que me envergonhasse por Charles ou odiasse as extravagâncias de Madame – ou talvez porque, agora depois de tê-lo terminado, é impossível não comentar algumas partes. Portanto se você ainda não conhece o livro e não gosta de spoilers, pare por aqui, mas se já conhece essa obra prima, pode continuar e depois me conte quais foram as suas impressões sobre nossos personagens. O livro é dividido em 3 partes, uma para cada amante de Emma, o primeiro pelo Visconde (o inicial traço de seus sentimentos de adultério se acumulam nessa figura), o segundo inicialmente por Léon e finalmente por Rodolphe e o terceiro inteiramente por seu amor com Léon.

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