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Literatura

Literatura Angolana – ONDJAKI “Os Transparentes”| Desdobramentos da Política e do Imaginário

12.07.17

Literatura Angolana - ONDJAKI "Os Transparentes"| Desdobramentos da Política e do Imaginário - Análise Literária feita por Samira Oliveira para o trabalho final de Literatura Africana I da USP

Este semestre fiz a matéria Literatura Africana I (Angola) e minha análise para o trabalho final foi sobre o livro “Os Transparentes” de Ondjaki. Ao invés de uma resenha, desta vez vou postar uma análise – com menos spoilers possível –  espero que vocês gostem e, possam aprender tanto quanto eu, um pouco mais sobre a literatura angolana.

A obra de Ondjaki se insere no quadro da literatura angolana pós-independência – e só assim poderia ser, pois o escritor nasceu apenas dois anos após a independência do país, acontecida em 11 de novembro de 1975 –, com publicações feitas no começo do século XXI.  Afirmar isto não significa dizer que sua escrita desconsidera a produção literária anterior (do período de 1940 a 1975), colonial ou de “pré-independência”. De acordo com Cláudia Neves:

Ondjaki não rompe com a tradição literária angolana: em seus livros, podemos observar o mesmo compromisso com a construção da identidade nacional que é uma das características da literatura angolana(p. 25).

E seria mesmo difícil uma ruptura total; Após a independência, a população angolana tinha de pensar nos caminhos a seguir e construir, de fato, uma identidade nacional. Além disso e como reflexo dos tempos passados, os movimentos que lutaram pela libertação de Angola – MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), apoiado pela URSS e por Cuba, FNLA (Frente Nacional para a Libertação de Angola) e Unita (União Nacional para a Independência de Angola), ajudados pelos Estados Unidos, pela França e pela África do Sul, por influência dos EUA –, ainda na época de transição de colônia portuguesa para nação independente, deram início em um conflito entre si, por não conseguirem estabelecer um projeto político comum para o país, que se desenrolou na guerra civil, com um fim apenas em 2002. O MPLA acabou assumindo o poder, de forma reconhecida pela então Organização da Unidade Africana (OUA), após derrotar o FNLA e a Unita com o apoio das tropas cubanas. Porém, enfrentou muitas dificuldades, entre elas, uma economia destruída em função do “colapso da autoridade portuguesa, a perda de vidas e a desordem provocada pela guerra civil, bem como o êxodo da maior parte da população europeia até finais de 1975” (WHEELER E PÉLISSIER, 2009, p. 362) e crises internas, que levou a uma tentativa de golpe de Estado em 1977. Com esforços diplomáticos internacionais para dar fim ao conflito – através do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) – como por exemplo, o reconhecimento do governo de Angola em 1993 pelos Estados Unidos e com a morte de Jonas Savimbi, líder da Unita, em 2002 – antes disso, no final da década de 1970, a FNLA já havia se dissolvido. Tais acontecimentos históricos de Angola não podem ser ignorados pois eles perpassam e vivem na escrita de Ondjaki, que “apresenta-se como um universo particular, mescla de um mundo em que ocorreram colonizações, disputas de poderes, guerras, lutas, desejo de liberdade, utopias socialistas, poesia, infâncias, árvores, mais-velhos, histórias e estórias”. É a luz dessa mescla que tentaremos uma interpretação de “Os Transparentes” no presente trabalho.

Literatura Angolana - ONDJAKI "Os Transparentes"| Desdobramentos da Política e do Imaginário - Análise Literária feita por Samira Oliveira para o trabalho final de Literatura Africana I da USP

Apesar de direcionarmos a análise para uma relação entre o interno e o externo, entre a literatura e a política, há outros pontos de relevâncias que merecem a devida atenção. Entre eles, alguns aspectos mais técnicos como é o caso da escrita sem letra maiúsculas e com escassos recursos de pontuação. Essa característica torna a leitura mais próxima da oralidade e da linguagem da cidade, que acompanha o ritmo desta – rápida e incessante – e, igualmente, para se aproximar do gênero literário relacionado à cidade por excelência, que é a crônica. “Os Transparentes” tem como principal personagem o prédio, que já nas primeiras páginas sofre uma antropomorfização e atua no espaço desta obra como metáfora de algo muito maior, a própria Angola. Este microcosmos abriga pessoas de variados tipos e poder aquisitivo, indo do jornalista PedroPausado, que tem uma melhor condição econômica, a outros simples trabalhadores.

Nota-se também a interação entre duas forças absolutas: a água e o fogo. O fogo aparece primeiro, mas em passagens específicas: no começo e no fim da narrativa. Já a água acompanha a maioria das cenas em que o prédio aparece, e mais que isso, a água que escorre pelas paredes do primeiro andar tem um certo poder.

a água acontecia por corredores invisíveis, molhava os seus pés sobre sandálias gastas, primeiro sentiu uma tontura, uma tontura ao contrário, não era a cabeça que rodopiava, eram os pés que pareciam querer ensaiar minúsculos passos de dança (p.25)

Em “A anatomia da crítica” de Northrop Frye a água e fogo são elementos explicitados que se digladiam e que carregam um simbolismo mais extenso do que o aparente. No plano anagógico, o homem contém a natureza, e suas cidades e jardins já não são pequenos arranhões na superfície da terra mas as formas de um universo humano. Por isso, no simbolismo apocalíptico não podemos confinar o homem a seus dois elementos naturais (a terra e o ar) e, passando de um plano a outro, o simbolismo deve – como Tamino na Flauta Mágica – transpor os ordálios do fogo e da água. O simbolismo poético habitualmente põe o fogo exatamente acima da vida do homem neste mundo e a água exatamente abaixo dela (p. 146).

O mundo do fogo é um mundo de demônios malignos como os fógos-fátuos, ou espíritos irrompidos do inferno, e surge neste mundo sob a forma do auto-de-fé como se mencionou, ou das cidades em chamas como Sodoma. Contrasta com o fogo do purgatório ou purificador, como o forno ardente em Daniel. O mundo da água é a água da morte, amiúde identificada com o sangue derramado, como na Paixão e na figura simbólica da História, em Dante, e acima de tudo “o mar insondável, salgado, apartador”, que absorve todos os rios deste mundo, mas desaparece no apocalipse em favor de uma circulação de água doce. (FRYE, 2014, p. 151).

Também é notável como o fogo e a água surgem cercado de temáticas sexuais, seja na ocasião da água do prédio e seus efeitos de excitação, seja na passagem no final do livro, com o fogo que destrói a cidade:

beijaram-se de bocas abertas, desajeitadas, estreando nos seus ventres um fogo que assim se autorizava a chegar.(p.384)

E em seguida, o derradeiro acontecimento:

o fogo/ começou num curto-circuito (…)

E ainda pode carregar o significado de fogo purificador, de modo que a destruição da cidade também simbolizasse um recomeço. Recomeço esse que pode ser pensado em relação à descoberta de petróleo em Luanda que trouxe uma certa ideia de progresso e fez com que a população pensasse em uma nova realidade para si. Na narrativa, a massa (a população) não está ciente da situação, escondida ao máximo pelas pessoas poderosas, havia somente uma desconfiança por parte dos moradores do prédio e do jornalista sobre a escavação do petróleo. Ao descobrirem, alguns se perdem ao imaginar o que ganhariam com isso. A melhoria na vida do povo, no entanto, não aconteceu; o que poderia ser uma reviravolta na questão socioeconômica – tão desigual – de Luanda acabou em lucro apenas para os poderosos, para a classe exploradora (a burguesia).

Literatura Angolana - ONDJAKI "Os Transparentes"| Desdobramentos da Política e do Imaginário - Análise Literária feita por Samira Oliveira para o trabalho final de Literatura Africana I da USP

A exceção de personagens mais complexas como é o caso, por exemplo, de Odonato e Amarelinha, as personagens são planas e estão sempre em uma mesma situação já esperada pelo leitor, não apresentando grandes reviravoltas. A exemplo disso, o Carteiro, que passa a narrativa toda aguentando o destrato de muitos a quem ele tenta entregar suas cartas solicitando uma motorizada e, ao final, em uma postura mais ativa, observa o fogo consumir – quase que magicamente, visto que ele havia desejado a atuação de uma força superior – o lixo que o impedia de chegar até sua casa pelo caminho recorrente. Além disso, o narrador conserva uma posição mais distante destas personagens, aproveitando apenas o que os outros falam sobre ela. Em contrapartida, outros personagens recebem uma atenção do leitor em posição de narrador onisciente. É nome das personagens que classifica sua função, como o VendedorDeConchas, ou que pontua sua ideologia social – o Esquerdista – e até mesmo carrega em si a crítica social – DomCristalino –, aproximando-se outra vez da oralidade, por ignorar o nome de batismo destas personagens e incorporar a elas o nome pelo qual ela é conhecida, seja pela sua função, seja por uma crítica mais velada. Os nomes DestaVez e DaOutra causam certa comicidade, pois se tratando de indivíduos que buscam tirar proveito das mais variadas situações pelas quais passam os mais humildes, ao tentar extorquir e chantagear, elevando seus títulos e seus encargos e até mesmo “aturando” uma situação dita “incorreta” desta vez porquê da outra a situação se complicará

–sempre se pode falar de “quanto”, meus amigos, estamos em Luanda. (p.332)

A crítica a governança é visível em passagens e figuras como a de DomCristalino e sua ambição em privatizar a água ou na do Ministro e do Assessor, que solicitam a DestaVez e DaOutra que busquem os mais diversos feriados de todos os países para os introduzir no calendário de Angola, o que também demostra como eles não bendizem as guerras que lutaram e ganharam, tendo de usar de “solidariedade” para com outras culturas, mas, para além disso, a ideia de que se deve trabalhar cada vez menos enquanto que o desenvolvimento real fique para um futuro incerto. Estas questões mostram a transparência, a invisibilidade, do povo para o governo – de modo a justificar o título “Os Transparentes” – e ficam bem claras nas seguintes passagens:

– Há controvérsias, meus amigos… nas primeiras entrevistas ele falou dos cuidados, dos riscos, das potenciais consequências, agora já ninguém o ouve… o sistema já deve ter dado um jeito, agora é só falar nas vantagens, já inauguraram nova empresa de distribuição de águas… onde é que já se viu!… águas privatizadas…(p. 236)

e

[…] porque somos globalmente corruptos, aqui a cidade vai ser furada, a água vai ser privatizada, o petróleo vai ser sugado sob as nossas casas, os nossos narizes, e as nossas dignidades… enquanto os políticos fingem que são políticos… enquanto o povo dorme… enquanto o pobre dorme… (p. 237).

Literatura Angolana - ONDJAKI "Os Transparentes"| Desdobramentos da Política e do Imaginário - Análise Literária feita por Samira Oliveira para o trabalho final de Literatura Africana I da USP

“A miséria da África não tem causas naturais. Ela é um legado da escravidão, da dominação colonial e, mais recentemente, do jogo entre as superpotências durante a Guerra Fria” É o que afirma José Arbex Jr e o que podemos encontrar entranhado na obra de Ondjaki ao denunciar a invisibilidade da população diante de outras preocupações do governo. A questão colonial não foi realmente superada, a independência aconteceu, mas os países africanos se mantiveram ligados a outras potências, no caso de Angola através dos próprios movimentos que lutaram por sua libertação. O que deveria ser o momento de construir e pensar no rumo a ser tomado como nação independente virou um conflito entre esses movimentos – movimentos que se tornaram partidos, entre eles o MPLA, apoiado pela URSS e Cuba, que esteve à frente do governo Angolano depois da independência e passou por diversas crises, entre elas uma tentativa de golpe de Estado – e uma guerra que chegou até a população. A chance de uma melhoria na economia – quebrada em função da guerra – com a descoberta do petróleo não aconteceu. A invisibilidade da opinião popular nesse assunto foi substituída pelo interesse internacional em explorar esse recurso. No livro, o Partido governador sucumbe aos interesses da extração do petróleo, autorizando que ele seja retirado do subsolo e espalham fogos de artifícios que seriam soltos com o final da escavação.

o fogo

começou num curto-circuito no coração do LargoDaMaianga, onde já se haviam instalado muitos quilos de explosivos que mais tarde, programados, fariam o prometido espetáculo de fogos de artifício que o Partido pagara e promovera. (p.348)

O que acontece, no entanto, é que há um curto-circuito que gera um incêndio e, o que dominou a imaginação da população, como uma alternativa para a construção de uma nova vida, torna-se destruição ou, numa perspectiva mais otimista, em um recomeço, não mais ligado aos interesses alheios. Entretanto, a obra de Ondjaki é uma mescla de temas e não trata só sobre a história política de seu país. No que diz respeito a tradição cultural, alguns aspectos vistos inadvertidamente como “realismo mágico” são melhor interpretados como realidade carregada de simbolismo. A exemplo disso, a Kianda, a sereia africana, entidade que habita os lagos e mares e que cuida da água. No trecho “é marginal nova com prédios construídos em areias dragadas sem pedir licença à Kianda” (p. 237) é notável a importância dada a esta entidade que permeia o pensamento angolano como força viva e atuante. Outro aspecto cultural interessante é a cerimônia fúnebre que dura de três a sete dias (para as pessoas mais ricas) e que, caso não haja a celebração, a alma vira um Cazumbi a vagar entre os vivos. O cadáver de CienteDoGrã ter ficado cada vez mais pesado ao chegar na casa do pai foi encarado como feitiço com uma naturalidade que só existe por já estar incluído há tempos no imaginário da população. Ainda a respeito do “inexistente” realismo mágico, há o acontecimento do eclipse que, após a morte da Senhora Ideologia, foi cancelado, fazendo com que inúmeros cientistas internacionais junto de todo o povo ficassem surpresos. Este cancelamento busca mostrar a força do governo que supera as barreiras do possível e representa a força deste.

Literatura Angolana - ONDJAKI "Os Transparentes"| Desdobramentos da Política e do Imaginário - Análise Literária feita por Samira Oliveira para o trabalho final de Literatura Africana I da USP

BIBLIOGRAFIA

FRYE, N. Anatomia da crítica: quatro ensaios. São Paulo: É Realizações, 2014.

JÚNIOR, J. A. Capítulo. Guerra fria: O Estado terrorista. São Paulo: Moderna, 2005.

NASCIMENTO, M. J.; SILVA, H. C.; SILVA, N. B. Os Transparentes: Ondjaki na visão do materialismo histórico dialético. Cadernos Imbondeiro, João Pessoa, v. 3, n. 2, 2014.

NEVES, C. C.; Ondjaki e os “Anos 80”: ficção, infância e memória em AvóDezanove e o segredo soviético.  2015. 143 f. Dissertação (mestrado em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2015.

ONDJAKI. Os Transparentes. Companhia da Letras, 2013

ROCHA, J. V. As margens da experiência: Os miúdos e os mais-velhos na narrativa de Ondjaki. 2013. 140 f. Dissertação (mestrado em Teoria Literária). Departamento de Língua e Literaturas Estrangeiras, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. 2013.

WHEELER, D.; PÉLISSIER, R. História de Angola. Lisboa: Tinta da China, 2009.

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Finalmente uma heroína para nos representar: Mulher Maravilha

18.06.17

Representatividade e empoderamento feminino no filme da DC Mulher MaravilhaEu realmente tentei não falar nada sobre Mulher Maravilha – mesmo Eduardo tendo insistido para que eu fizesse uma resenha sobre o filme. Mesmo eu tendo amado e me emocionado com ele. Se você quer uma resenha, vá direto a esta: 7 Clichês e Estereótipos Subvertidos em Mulher-Maravilha (e outros 4 que nem tanto assim) pois neste post eu pretendo apenas contar tudo o que senti com o filme – e quem sabe você não se identifica também?

Contém Spoilers!

Se você não é muito nova com certeza esbarrou em uma tia, mãe ou avó dizendo algo como: herói é coisa de menino, essa violência, esses murros, não é pra menina. Menina tem que ser delicadinha! Por esse motivo eu sempre estive muito  meio longe de heróis, e só fui me aproximar um pouco mais por causa do Du (meu namorado) – e isso é extremamente lamentável. A divisão entre “coisas de menina” e “coisas de menino” era tão profundamente fincada nas crianças – e portanto em nós, atualmente – que eu mesma, as vezes me vejo sem saber como reagir, como ensinar minha priminha de 3 anos, o fato de que é perfeitamente comum ela querer um carrinho. E vejo com muita emoção, minha avó sem ofertar uma daquelas respostas que eu sempre ouvi, sem cortar a vontade da minha prima em brincar de futebol. Nessas pequenas coisinhas entre a educação que eu recebi e a que minha priminha está recebendo, que eu fico feliz, orgulhosa e esperançosa, de que as mulheres vão ganhando cada vez mais espaço e igualdade – dia após dia.

No filme, sem dúvidas, a minha cena preferida foi quando Diana atravessou um campo de batalha – que os homens não tinham conseguido avançar nem poucos metros em 1 ano – e deu cobertura para que os outros homens passassem. Aquela cena, encheu meus olhos de lágrimas e meu coração de esperança. Senti aquela pontada no peito, aquela vozinha dizendo – você está sendo representada, a sua força está sendo reconhecida. Porquê mesmo que nós, mulheres comuns não tenhamos poderes sobrenaturais como os de Diana e nem sejamos deusas como ela; nós temos, a força mágica da vida, do sentimento, do poder, da magia e da fortaleza. Temos sim, um poder enorme dentro de nós e muito mais do que a divindade de Diana, seu poder se deve sobretudo à sua feminilidade – sim, ao seu eu feminino, e eu vou sim, gritar pra quem quiser ouvir que ela é poderosa justamente por ser mulher, por buscar justiça, por ter bondade, por ter dentro de si verdades tão honrosas!

Se tem uma forma de reconhecer fielmente o que o feminismo busca, essa forma é observando a Ilha de Themyscira. É vendo que seu ideal de força é inteiro de uma mulher, que sua atenção e respeito são direcionados a mulheres – e não poderia ser diferente já que a sua sociedade não despreza mulheres, e também não despreza os homens. ba dum tss! Creio eu que esse seja o ponto, quando Steve chega à ilha seguido dos outros barcos, elas partem para a luta por estarem sendo invadidas. Após isso, no julgamento de Steve, não há um papo por exemplo: você nem deveria estar aqui, você é um homem! Como acontece em Londres na “vida real” com Diana. Para elas não há um inferior, há apenas o reconhecimento do diferente, mas o igual respeito. No link em que coloquei lá em cima há esta passagem que ilustra muito o que eu quero dizer:

Mais tarde, vemos que fora de Themyscira Diana é tão atenciosa e respeitosa com outras mulheres como dentro. Ela ouve Etta da mesma forma que Steve e é a única do grupo a não dar as costas para uma mulher que pede sua ajuda nas trincheiras. Isso é muito coerente, afinal, Diana foi criada por mulheres, viveu entre mulheres, e todos os seus heróis e exemplos de vida são mulheres. E isso se reflete na forma como ela se porta no mundo fora de Themyscira. Não faria sentido ela sentir rivalidade ou desprezar mulheres, assim como não faria sentido ela se sentir intimidada ou acuada por homens (ou mesmo sentir medo ou culpa por dormir ao lado de um deles em um barco). Diana não foi criada em uma cultura de estupro e de inferiorização da mulher e o resultado disso vemos nas telas: uma heroína segura de si, que confia na própria força (e na de outras mulheres), e que até escuta os homens, mas no fim toma suas próprias decisões.

E a diretora, Patty Jenkins completa, em entrevista ao Omelete:

Ela não é feminista, pois nunca ocorreu a ela que alguém seria tratado diferente, o que por si só é uma declaração poderosa. Fico aborrecida quando ela se torna o centro de controvérsias sobre ser ou não um ícone feminista. Ela é. Ela tem sido por muito tempo, ninguém pode decidir se ela deveria ser ou não. Ela é, para muitas mulheres e homens que se identificam com ela.

Todas as vezes que ela entrou no “lugar dos homens” com toda a naturalidade do mundo, eu soltava internamente, um gritinho de emoção. Retratar um pensamento tão machista – e infelizmente contemporâneo – como o da época e acrescentar a isso a Mulher Maravilha, ilustrou perfeitamente a igualdade que queremos. Ficou mais claro do que um desenho, o ideal feminista que ela quer mostrar, o contraste gritante da nossa sociedade tão sexista e o que lutamos para mudar.

Outro ponto louvável foi a vestimenta das amazonas, nada de hipersexualização, nada mostrando mais do que o necessário, nada de silicone se agarrando aos peitos. A roupa delas foi feita para lutar, e isso fica muito claro quando Diana está em Londres comprando “roupas adequadas” quando ela pergunta “como as mulheres conseguem lutar vestindo isso?” e em seguida rasga uma calça, levanta um vestido ou cai de um salto. A roupa que elas usavam eram práticas, armaduras que possibilitam uma boa mobilidade e proteção e acessórios que demonstrassem sua função na Ilha.

Essa foi a minha humilde opinião – cheia de emoção sim – sobre o filme da Mulher Maravilha. E você, já foi assistir? Me conte tudinho nos comentários ;)

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Literatura

“The Beauty of Darkness” – Mary E. Pearson | Lealdade e Transformação.

02.05.17
"The Beauty of Darkness" - Mary E. Pearson | Lealdade e Transformação. Resenha por Samira Oliveira Blog Dezoito em Ponto

Finalmente a resenha de The Beauty of Darkness, terceiro e último volume da série “Crônicas de Amor e Ódio” escrito pela incrível Mary E. Pearson. 

♥ Resenhas de “The Kiss os Deception” e de “The Heart of Betrayal” ♥

Livro: The Beauty of Darkness
Série: Crônicas de Amor e Ódio
Autor(a): Mary E. Pearson
Editora: DarkSide - DarkLove
Genero: Fantasia
Páginas: 569
Classificacao:
Sinopse: Enquanto luta para chegar a Morrighan a tempo de salvar seu povo, ela precisa cuidar do seu coração e seus sentimentos conflituosos em relação a Rafe e as suspeitas contra Kaden, que a tem perseguido. Nesta conclusão de tirar o fôlego, os traidores devem ser aniquilados, sacrifícios precisam ser feitos e conflitos que pareciam insolúveis terão que ser superados enquanto o futuro de todos os reinos está por um fio e nas mãos dessa determinada e inigualável mulher.

Desde que terminei de ler The Beauty of Darkness, não consigo parar de pensar no final dado por Mary. Não que eu tivesse feito melhor, nem que eu preferisse um outro final. Na verdade o que eu quero é mais. As páginas das “Crônicas de Amor e Ódio” são como uma taça de vinho extraordinário, você aceita um gole após o outro, uma página seguida de outra – sem ver o tempo correr, sem mal perceber a história passar. Como numa espécie de magia, você se sente como que preso no próprio dom de Lia, preso em uma visão, preso na história arrebatadora da série. E foi por isso, que após ler a última página, eu tentei ao máximo perpetuar a sensação que essa história me provocava. Mas eu simplesmente precisei fechá-lo, porém tendo Lia para sempre dentro de mim.

Até que apareça aquela que é mais poderosa,/Aquela nascida do infortúnio,/Aquela que era fraca,/Aquela que era caçada./Aquela marcada com a garra e a vinha,/Aquela nomeada em segre,/Aquela chamada Jezelia.

Nesse desfecho, Lia sobrevive à sua fuga de Venda. Deixando para trás um Komizar agonizante, Aster morta e povoados proclamando-a como rainha, clamando pela esperança oferecida por ela. Mas Lia precisa fugir, precisa alertar Morrighan do perigo que eles correm, do exército de crianças soldados, do sangue que se escorrerá pela vinhas. Precisa alertar que Morrighan é a primeira de toda a devastação, de todo o plano do Komizar, que é o dragão movido pelo poder e pela desgraça. Rafe e seus mais fiéis amigos e companheiros, ajudaram Lia a fugir de Venda e a permanecer viva; ele arriscou seu Reino, sua família e seu poder apenas para ajudar aquela que o abandonou no altar. E essa talvez seja a maior prova do seu amor, o contraste gritante entre a segurança aprisionante e a liberdade que afasta o amor, mas que é a vontade dele. Interessante o amor dos dois, Rafe quer que finalmente Lia possa descansar e curar suas dores em paz – mas a guerra não acabou – ainda não há tempo para descanso. Ele quer que todo o seu esforço realmente falha a pena e eles possam ter a vida que sempre sonharam – mas Lia nunca será submissa, nunca aceitará não lutar pelo acredita, não batalhar nas guerras. Em seu Reino, Lia é mais do que nunca um soldado do reino de seu pai, ela é uma verdadeira Líder ao descobrir traições, revelações de décadas, histórias de sua família e lendas sussurradas através de gerações de Primeiras Filhas. Nunca a lealdade foi tão posta às claras, nunca foi tão valiosa – mais contraditória dos que flores de tannis, mais pungentes do que a morte.

Além de Rafe, da segurança de seu reino e do reino de Dalbreck, nossa heroína ainda precisa lidar com Kaden – que a persegue durante sua fuga – e descobrir a quem ele é leal. Em “The Beauty of Darkness” outros personagens terão seus desfechos e suas purgações, sem que nenhum detalhe seja esquecido. Esse foi um ponto muito bom, Mary amarrou muito bem todas as histórias, entrelaçando algumas que eu já havia desconfiado, e desfazendo outros nós, dando as respostas que todos procuramos. Ao fim, estamos mais amarrados à “Crônicas de Amor e Ódio” do que a garra e a vinha no kavah de Lia. Outro ponto interessante foram os diálogos de Lia, notei que eles ficaram mais profundos e extensos do que nos outros volumes, creio eu, para que todos os detalhes pudessem ser explicitados e dando mais voz ao herói, para podermos entender melhor seus sentimentos e motivações. As vezes os diálogos falam mais sobre o personagem do que sua própria narração em 1º pessoa. Gostei bastante de como Mary foi intercalando os textos dos Antigos com a narração do presente, de modo que vamos percebendo a aproximação entre Lia e as personagens de outros tempos.  Afinal, “Tinha de ser alguém”

Não importa quantos universos vão e vêm, sempre me lembrarei de quem éramos juntos.

Lia é uma das personagens mais fortes que eu conheço. Essa é a mais bela história feminista e empoderadora, sem entretanto, citar tais termos e muito menos deixar explícito. Lia, vai abrindo caminhos para tomar seu lugar como mulher e guerreira. Ela vai mostrando a fortaleza que se tornou, o poder que adquiriu e a certeza que a guia. Continuando com um coração de carne, ela sabe que precisa matar – ela sabe que precisa de um mínimo de vingança para se alcançar a esperança. Ela coloca cada um em seu lugar e mostra quem ela realmente é; forte, humana, e um verdadeiro soldado.


Toda a trilogia me lembrou o processo Bildungsroman, definido pelo filólogo Karl Morgenstern em 1810. Resumidamente, o Romance de Formação seria: “uma forma de romance que representa a formação do protagonista em seu início e trajetória até alcançar um determinado grau de perfectibilidade” (1999, p.18) Tal processo de formação, envolve resumidamente, a mudança da herói (Lia), seu autoconhecimento e sua orientação no mundo (conhecendo-se como Jezelia, presente nos Testemunhos), processo de amadurecimento do herói (sua vida e fuga de um simples casamento, para a volta como um soldado), a separação em relação à casa paterna (fuga de Morrighan), atuação de mentores (Dihara), experiências intelectuais eróticas (bem… Rafe e Kaden) e finalmente, contato com a vida pública e política (povo de Venda). Infelizmente não tenho espaço para uma análise acadêmica como eu faria, mas acho que com esse pequeno resumo vocês já puderam entender o que seria o Bildungsroman e como “Crônicas de Amor e Ódio” se encaixa nessa teoria.

Como eu já havia comentado com vocês nas resenhas de The Kiss of Deception e de The Heart of Betrayal as minhas teorias sobre Gaudrel, Venda e Morrighan estavam quase que completamente certos. Deixei um excerto que explica bem bonitinho tudo isso, e o coloquei porquê já ficou explícito no segundo livro. Só fiquei em dúvidas quando aos escritos de Aster. Alguém tem uma boa teoria pra me emprestar? Eu poderia ficar páginas falando sobre como “Crônicas de Amor e Ódio” me marcaram, mas passo a vez para vocês, leiam, se emocionem e chorem – quando terminar poderão enfim, respirar fundo e descansar – esse mundo ele, nos inspira… ele nos partilha. "The Beauty of Darkness" - Mary E. Pearson | Lealdade e Transformação. Resenha por Samira Oliveira Blog Dezoito em Ponto

“Existem outras verdades, Pauline. Verdades que você precisa saber”. E contei a ela sobre Gaudrel, Venda e a menina Morrighan, que foi roubada de sua família e vendida a Aldrid, o abutre, por um saco de grãos. Contei a ela sobre as histórias das quais nunca antes tivemos conhecimento e sobre os ladrões e os abutres que eram os fundamentos do nosso reino, e não um Remanescente escolhido. Os Guardiões Sagrados não eram nem um pouco sagrados.”

“Vocês definem uma espada pelos termos que lhes são familiares em todas as formas como veem, sentem e tocam. Contudo, e se houvesse um mundo que falasse de outras maneiras? E se houvesse outra forma de ver, ouvir e sentir? Nunca sentiram alguma coisa bem lá no fundo de vocês? Não tiveram um vislumbre disso brincando atrás dos seus olhos? Já ouviram uma voz em algum lugar nas suas cabeças? Mesmo que não estivessem certos disso, esse conhecimento fez com qque os seus corações batessem um pouco mais rápido? Agora multipliquem isso por dez. Talvez alguns de nós saibramos das coisas mais profundamente do que outros

"The Beauty of Darkness" - Mary E. Pearson | Lealdade e Transformação. Resenha por Samira Oliveira Blog Dezoito em Ponto

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Em voga

Os Meus 13 Porquês| Podem acreditar numa garota viva?

10.04.17

Os Meus 13 Porquês (13 Reasons Why)| Podem acreditar numa garota viva? Confissão sobre bullying ensino médio e inferno.Com o lançamento da série 13 Reasons Why (Os 13 Porquês), assuntos como bullying e o inferno do ensino médio surgiram em todo canto – discussões na Globo, nas escolas e nas redes sociais. Mas tenho certeza, que mesmo com toda essa reflexão, ainda tem gente que não vê – mesmo porquê: “Quem acreditaria em uma garota morta?”… Bom, vocês podem acreditar numa garota viva? Espero que a resposta seja sim. Eis portanto, os meus 13 Porquês:

Olá para você que está lendo. Quem fala aqui, é Samira Oliveira, ao vivo; em imagens e em códigos de informática.  Sem promessas de retorno. Sem bis. E desta vez, sem atender aos pedidos da platéia. Espero que vocês estejam prontos, porque vou contar aqui a história da minha vida. Mais especificamente o inferno que ela foi. E, se você estiver lendo isso, você é um dos motivos.

Fita 1, Lado A

Tudo tem um começo, certo? Mas onde exatamente foi o meu? Acredito eu, que foi antes do primeiro dia de aula, lá no “infantil 3”, ou seja, quando você tem 6 anos. Sim, meu começo não foi no ensino médio – foi bem antes. E talvez por isso e tenha aguentado até o fim, corajosamente. Talvez vocês pensem que muitos porquês são inúteis, talvez você não se julgue digno de estar nessas páginas. Mas acredite, tudo há um porquê. Coleguinhas crianças, que mesmo tão pequenos sabiam ser maldosos, se aproximem, a número 1 vai especialmente para vocês. 

Já pensaram que talvez eu não tivesse nenhum amigo antes de chegar até vocês? Já pensaram que eu só quisesse alguém para conversar? E quando eu finalmente achei alguém, essa pessoa se foi. Já pensaram, meninas, como vocês foram ridículas brincando de “ter bebês” e como eu achei aquilo um tanto apavorante e nojento? Vocês não me queriam como amiga, e eu não entendia porquê – só pelo motivo de eu não gostar de suas brincadeiras sem sentido? “Amigos” crianças, realmente tinha algum problema eu ter demorado para decorar o alfabeto? Vocês sabiam que eu não estava na escola desde os 2 anos? Que não era minha obrigação saber de tudo? Não, vocês não sabiam. Amigas, sabiam que eu não tinha uma dúzia de Pollys para brincar? Que eu não queria que soubessem detalhes sobre a minha vida que eu mal sabia. Eu não queria ter de saber tão cedo a inexistência do Papai Noel. É ai que as coisas começaram.

Fita 1, Lado B

Quando você tem uns 7 anos, o menino que joga futebol e que parece gentil, é uma paixonite bem provável. Principalmente se você é a excluída, principalmente se você é invisível. E o que você fez com isso? Aproveitou a minha inexistência, ou melhor a minha existência para ser humilhada. Era interessante né? Ouvir os xingamentos; “baleia”, “grávida”, “gorda estúpida” e tantos por ai. Diariamente. Até mesmo da minha melhor amiga. Eu fui apaixonada por você, por muito tempo. Eu escrevi cartas que você mostrou a todos, eu mostrei quem eu era e você não pensou duas vezes antes de mostrar para o mundo. E naturalmente, me humilhar mais um pouco – afinal, qual seria o problema? Eu já era o saco de pancadas de mais de 50 alunos, mesmo! Sorte a sua, querido amigo, eu te superei. Bem rápido para alguém intensa. E não te culpo tanto, quem poderia amar a gorda da turma?

Fita 2, Lado A

Eu tinha começado a escrever em ordem cronológica. Mas convivi tantos anos com vocês, foram tantos episódios insuportáveis. Tantas mágoas de todos vocês. Que seriamente, eu já havia pensado várias vezes em acabar com tudo. Depois de tantos anos, você acaba finalmente esquecendo de várias coisas, mas infelizmente ou não, você não se esquece de tudo. Principalmente da dor. Lembra você, colega, quando me acusou de roubar uma figurinha do seu álbum? Lembra, amiga, quando você me incentivou a “pegar emprestado” o que não era meu? Vocês duas talvez não se lembrem, mas eu lembro. Lembro de como, colega,  você chamou sua irmã mais velha e as amigas dela, para fazerem com que eu falasse, algo que eu não entendia, algo que eu não tinha feito consciente. Bom, eu fiquei com medo, sabia? Elas eram enormes, mais velhas e muito altas. E eu era apenas a gorda, eu sabia que aquele dia eu voltaria diferente para casa. E então me escondi no banheiro e chorei.

Fita 2, Lado B

Quem será o próximo? Mesmo sem citar nenhum nome – já faz muito tempo – eu consigo ler e lembrar vividamente de cada dia, cada acontecimento, cada sofrimento. Mas talvez, ou melhor, com certeza, você não se lembre. Meu melhor amigo, essa é para você. Você que foi um refúgio e foi meu único amigo por tanto tempo; eu estive com você sempre que precisou, sempre que não quis aceitar quem você era – quando você não descobria quem você era e quem amava. Mas sabia? Depois de tantos anos, eu passei a te amar. E o que você fez? Ficou com a minha amiga, que diziam, era parecida comigo. Eu fui má com ela, eu fui má comigo. Eu não podia suportar essa traição criada na minha cabeça – afinal, você não sabia, mas não gostava de meninas. No entanto, eu estive com você e com nosso outro amigo. Sei que você sofreu, sei que ele foi obrigado a mudar de escola, ele não aguentava mais os outros, não aguentava o inferno da nossa escola. Sorte a dele, eu deveria ter me mudado junto.

Fita 3, Lado A

Espere, vai ficar bom. Talvez você esteja achando um pouco entendiante. Na verdade eu ainda estou na infância e na quase pré adolescência. Mas se prepare, você vai chegar à sua fita. E quanto mais para o final você estiver, pior para você. Mais recente, mais cruel e mais culpa você vai ter que carregar. Agora, veremos a justiça que a escola fez. Nenhuma. Por tantos anos, nenhuma. Eu não culpo os profissionais meus amigos,  na verdade, no ensino médio, o problema era quase irrefreável para eles. Será que eles poderiam ter feito alguma coisa? Eles que receberam jovens formados, jovens que quando criança não foram impedidos. Jovens que sempre se julgaram os donos do mundo. Os professores receberam eles já prontos, não tinham mais o que fazer. Mas você teve, você, dono dessa fita teve. E você só percebeu isso depois que um aluno sofreu bullying por ter o mesmo nome que um esquizofrênico da novela. Sério? Eu lhe pergunto: sério mesmo? Jura que você nunca achou que era errado os xingamentos e as agressões que eu sofria? Nunca julgou errado quando um menino da sala tentou me enforcar? Sério mesmo? Sério que você só notou que bullying existe depois desse episódio com o menino do nome? Bom, “no seu tempo” não existia bullying né? Então porquê mudou seu discurso? Porquê passou a “conscientizar” os alunos sobre isso? Bom, eu tenho uma notícia para você: não adiantou nada.

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Desculpa, mas não dá pra ser um “Feliz Dia” das Mulheres

08.03.17
Desculpa, mas não dá pra ser um "Feliz Dia" das MulheresEsse é um basta no meu dia, no dia delas e talvez no seu também.

Não será um “Feliz” Dia das Mulheres enquanto você deslegitimar nossa luta com ares de superioridade. Não tem sentido entregar algumas flores no dia 8 de março e continuar os outros 364 dias espancando sua esposa, humilhando sua ajudante doméstica e explorando a trabalhadora da sua empresa. Não adianta desejar um “Feliz Dia” se você não admite a existência de mulheres trans, se você não suporta ver uma mulher lésbica e se te ofende tanto as escolhas de uma outra mulher.

Enquanto os salários não forem justos, não será um “Feliz Dia”; enquanto a moça que passa na rua não puder caminhar em paz, não será um “Feliz Dia”. Enquanto a gente ainda tiver medo de andar na rua; enquanto ainda precisarmos nos manter perto de amigos, irmãos e pais para conseguir o mínimo de respeito, enquanto ainda tivermos que aguentar uma objetificação diária, enquanto ainda houver mulheres que se submetem à maus tratos por medo de denunciar o agressor, enquanto ainda houver um numero altíssimo de mortandade feminina, enquanto mortes sejam facilmente justificadas por “amor”, enquanto tantas outras mulheres ainda sejam consideradas menos, enquanto tudo isso acontecer, não tem como aceitar um “Feliz Dia das Mulheres”

Vejo pelas redes sociais mulheres reclamando que não receberam uma rosa sequer. Mas onde está o reconhecimento nos outros dias do ano? Não adianta implantar um dia que sirva apenas como uma trégua na vida, um dia em que “em tese” a mulher deva ser respeitada, admirada e recebida com beijos e palavras carinhosas. Nada disso fará diferença na vida das mulheres que você ama, se isso for ato exclusivo do dia 08 de março.

Mas se você realmente quer homenagear sua mãe, irmã, esposa, amiga, funcionária, e todas as mulheres do mundo, comece nos ajudando a mudar o pensamento patriarcal e machista que está quase que fundido na nossa sociedade. Sabe aquele amigo que se orgulha em difamar a ex namorada? Sabe aquele outro que incomoda mulheres que andam na rua com roupas “curtas”? Sabe quando você começa um grande discurso reclamando da “desigualdade” do feminismo? Ou quando você chantageia emocionalmente sua namorada, quando diz que sem você ela não será feliz porque ninguém mais vai gostar dela. Ou quando você desrespeita sua professora; quando usa de palavras que remetem à sexualidade para “ofender” uma mulher, quando impõe à mulher que é obrigação dela estar sempre depilada e arrumada (afinal, somos apenas objetos decorativos, não é mesmo?), quando você diz que “o feminismo tá ficando chato ein, as feminazis estão atacando”, quando você discrimina outra mulher por ser negra, trans, gorda ou lésbica, quando você não deixa que sua namorada reclame, quando impede que a voz dela seja ouvida, e tantos outros atos, que você deve achar tão “pequeno” mas que são graozinhos de areia que constroem o muro que nos separa da igualdade, que nos separa da dignidade e da justiça – que aliás, vocês tanto nos desejam nesse dia de hoje.

Sem mais, deixo um pequeno poema meu, pois a melhor forma que encontrei de militar no feminismo foi com as minhas palavras. Espero que goste e reflita ;)

E agora Maria?
E agora que a realidade grita?
E agora que eles se foram?
E agora?
Como fica você?
Como ficarão seus filhos?
E agora? E agora que não tem dinheiro?
E agora que só tem tristeza?
– mas tristeza não alimenta os pequenos
E agora que só tens o pó?
Quem pagará para que você vá se tratar?
Quem te acalentará sendo tal missão possuída apenas por ti?
E agora Maria?
Sua dignidade como fica?
E agora que chorou e que pediu?
Em vão.
E agora Maria? Como voltará?
Suada pelo trabalho e pela corrida.
Em pânico, é mais um dia.
Com dor, já se acostumou
Ferida, humilhada como já foi.
E agora? Que dirá seu marido, Maria?
Como irá dormir com uma puta como você, Maria?
E agora?
Para ondes vai correr? Tem seus filhos para alimentar, para curar.
Suas lágrimas não serão secas por alguém.
E agora?
Vai a delegacia? Pra quê? – Humilhação por humilhação passo em casa.
E agora? Quem vai te proteger amanhã? E depois? Quem vai lutar por você?
Outro dia está nascendo e você nem pra casa foi.
Dorme e finge que amanhã estará tudo bem.
Vai passar – o que eles dizem.
Culpa sua – é o que vão dizer.

Samira Oliveira

Ilustração por: Negahamburguer

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