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Literatura

“The Heart of Betrayal” – Mary E. Pearson | Ódio e Poder

27.02.17

Resenha crítica de "The Heart of Betrayal" de Mary E. Pearson, por Samira Oliveira no Blog Dezoito em PontoQuando um livro te estabelece um padrão, é difícil vir uma continuação que aumente esse padrão. The Heart of Betrayal conseguiu elevar até mesmo os critérios de qualidade, que estabeleci na resenha anterior, de  The Kiss of Deception.

Livro: The Heart of Betrayal
Série: Crônicas de Amor e Ódio
Autor(a): Mary E. Pearson
Editora: DarkSide
Genero: Fantasia
Páginas: 395
Classificacao:
Sinopse: Lia e Rafe estão presos no reino barbárico de Venda e têm poucas chances de escapar. Desesperado para salvar a vida da princesa, Kaden revelou ao vendano Komizar que Lia tem um dom poderoso, fazendo crescer o interesse do Komizar por ela. Enquanto isso, as linhas de amor e ódio vão se definindo. Todos mentiram. Rafe, Kaden e Lia esconderam segredos, mas a bondade ainda habita o coração até dos personagens mais sombrios. E os vendanos, que Lia sempre pensou serem selvagens, desconstroem os preconceitos da princesa, que agora cria uma aliança inesperada com eles. Lutando com sua alta educação, seu dom e sua percepção sobre si mesma, Lia precisa fazer escolhas poderosas que vão afetar profundamente sua família… E seu próprio destino.

Se você caiu de uma muralha até aqui, te aconselho a ler primeiro a resenha The Kiss of Deception antes de prosseguir. ATENÇÃO: contém spoilers referentes ao livro anterior.

Após a firme decisão de Kaden em salvar a vida de Lia e o mortífero caminho que ele e os demais soldados vendanos seguiram de Terravin até Venda, Lia ainda guarda dentro de si, trechos da maior relevação de sua vida. A partir de seu dom com traduções, Lia finalmente compreende o que os a “Canção de Venda” quer revelar para seu caminho. “Crônicas de Amor e Ódio” nunca se mostrara um subtítulo tão exato para a trilogia; se na obra anterior, o que prevalecia era o amor, a esperança e os sonhos – inclusive intimamente conectado com o título, quase gentil, frente ao do volume II – nessa continuação o que emerge é o ódio, sendo o amor e a bondade traços escassos e raros durante o decorrer da história.Resenha crítica de "The Heart of Betrayal" de Mary E. Pearson, por Samira Oliveira no Blog Dezoito em PontoA atmosfera da narração foi inteiramente atingida pelo característico “ódio” apresentado por Mary; se antes podíamos sentir a leveza da esperança, do jogo de amor, das pequenas intrigas e da calorosa amizade; agora só podemos ver o ardor da raiva, a sede por vingança e desejo mudo de libertação. A paisagem, passou de amigáveis casinhas coloridas e pastos infindáveis, para construções sobre ossos dos Antigos, que se amontoam uns sobre os outros, conforme a necessidade de se expandir. Pedra sobre pedra, destroços sobre esperança, névoa, sombras, caminhos que terminam abruptamente e, finalmente, o horror da fome e da morte. Esse é o cenário inicial que nossa Primeira Filha de Morrighan se encontra – e sem quase nenhuma centelha de sair viva de seu cativeiro. Venda lhe parece o perfeito inferno na Terra, justo ela que fugiu de um simples casamento para tentar ser livre de todas as formas, agora estava presa em um reino distante, mantida como prisioneira contra sua vontade, humilhada de todas as formas possíveis, e sempre com um martelar longínquo de preocupação: “Venda não faz prisioneiros”.

Mas como descobrimos no livro anterior, Rafe estava em seu encalço – diversas vezes cheguei a pensar que talvez ele não chegasse vivo, para ser sincera, cheguei a desejar que tal fato acontecesse, e hoje sei: ele estaria mais seguro morto.

“Meunter ijotande. Enade nay, sher Komizar, te mias wei etor azen urato chokabre.”

O temido Komizar é um personagem muito único e marcante, sua forma de governar ecoa um pouco em todos os países – seja pela corrupção com que é feito, seja com a bem quista proximidade com seu povo – enquanto, por um lado, ele visita todos os povoados do seu Reino, por outro, ele parece comprar seu poder – alimentando a crença que eles tem no dom, e buscando sanar a fome física com a religião quase cega. Com poucos grãos e uma nova isca, o Komizar é o dragão que rouba almas, que não tem limites, que parece nunca ter conhecido sentimento diferente do que a sede de poder e vingança.Resenha crítica de "The Heart of Betrayal" de Mary E. Pearson, por Samira Oliveira no Blog Dezoito em PontoOs enxertos que nos acompanham por toda a leitura da narrativa, se mostram mais conectados e importantes do que nunca. Suas palavras gritam umas com as outras, suas histórias saltam aos nossos olhos bem na hora em que buscamos uma mísera resposta – sem mais palavras adicionais, Mary nos dá pequenas folhas de tannis para que possamos sobreviver à essa mortal viagem. Essas histórias todas fizeram-me lembrar de como os contos de fadas viajaram gerações e épocas, de como cada avó passava a história para seus netos em volta de um fogueira. Como cada um que contava mudava algo da história, sendo hoje, praticamente impossível ter certeza sobre qual realmente é a história original. Isso porque elas foram se amontoando umas às outras, se criando e recriando, até que os Irmãos Grimm coletaram e modificaram as histórias contadas. Assim também acontece com os 3 mecanismos de entendimento: “Os Últimos Testemunhos de Gaudrel”,”Livro dos Textos Sagrados de Morrighan” e “Canção de Venda”. Ao fim, veremos um inesperado final, onde as histórias serão recontadas e os pontos de vista duvidados. Onde tudo o que sempre se acreditou talvez fosse tremendamente falso, tudo o que foi ensinado talvez esteja tremendamente errado – onde demônios se tornam anjos e mocinhos se mostram vilões, na história e na atualidade da obra.

As regras da razão constroem torres que vão além das copas das árvores. As regras da confiança constroem torres que alcançam além das estrelas. – Venda

Confiança, amizade, lealdade e poder se confundem. Ódio, vingança, ressentimento, raiva e humilhação são tantos outros temperos nos apresentado. Com mais batalhas, sangue derramado, dom e amizade, The Heart of Betrayal te promete deixar com os olhos grudados desde a capa maravilhosa feita pela sempre impecável editora DarkSide, até sua narrativa fantástica. Se antes tínhamos detalhes em dourado – como a fitinha de marca páginas e a contracapa – agora a editora nos apresenta detalhes que não são nem exatamente bordô nem exatamente vermelho, nos dando a dica de que seus detalhes é mais parecido com a pungente cor de sangue – que pode representar tanto a devoção quanto a traição. Para proteger as contracapas, essa edição ainda conta com dois plásticos transparentes que me atrapalharam um pouco na leitura – e que eu só recoloquei no livro ao final da leitura – e um marca página com a capa maravilhosa do livro.Resenha crítica de "The Heart of Betrayal" de Mary E. Pearson, por Samira Oliveira no Blog Dezoito em Ponto

  • SPOILERS necessários para a minha boa saúde mental.

Agora, você que já leu ambos livros, se lembra quando eu comentei na outra resenha, sobre minhas suposições acerca dos textos que nos eram apresentados? Pois bem, acho que eu estava quase certa. Afinal, Gaudrel fora no fim, irmã de Venda – que foi empurrada da muralha em que declamava e considerada “louca”, por seu marido.  O livro de Gaudrel foi escrito em nômade, por isso Lis conseguiu traduzi-lo (ela tinha o livro que lhe foi dado pelo Sacristão de Terravin). Além disso, Morrighan era quem escutava as histórias de Gaudrel, sendo portanto ela uma Antiga sobrevivente já que seus pais eram como deuses (uma qualidade apresentada negativamente nos registros de Morrighan). Também descobrimos que Morrighan foi roubada de sua ama, Gaudrel, pelos abutres, e foi utilizada por eles para que guiasse os Remanescentes – graças ao seu dom. Descobrimos na verdade, que não se tratava de Nobres Remanescentes escolhidos, mas sim, de pessoas tão miseráveis quanto abutres, que foram capazes de sequestrar a menina. Mas nos resta ainda saber, qual o papel do anjo Astes, minha teoria é de que o anjo é mãe de Gaudel e Venda, mas ainda estou bem confusa quando a isso. O que você acha sobre esses parentescos da história, e sobre o destino de Lia?

Morrighan ergueu sua voz,/Aos céus,/Beijando dois dedos,/Um para os perdidos,/E um para aqueles ainda por vir,/Pois a separação entre os bons e ruins/ainda não estava acabada. -Livro dos Textos Sagrados de Morrighan, vol IV-
Resenha crítica de "The Heart of Betrayal" de Mary E. Pearson, por Samira Oliveira no Blog Dezoito em Ponto

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“Pornô Chic” – Hilda Hilst | Inteligência e Sexualidade

16.02.17

Resenha e crítica obra Pornô Chic de Hilda Hilst por Samira Oliveira

ATENÇÃO: A resenha a seguir é sobre um livro indicado para maiores de 18 anos.

Livro: Pornô Chic
Série: -
Autor(a): Hilda Hilst
Editora: Biblioteca Azul
Genero: Ficção erótica
Páginas: 276
Classificacao:
Sinopse: Se “O caderno rosa de Lori Lamby” parece obsceno ao apresentar uma menina de oito anos relatando suas experiências sexuais, a autora surpreende os leitores com seu desfecho. “Cartas de um Sedutor” narra o cotidiano de um homem rico, amoral e culto, que diante de sua incompreensão da vida recorre ao sexo em busca de respostas. “Contos d’escárnio” é uma reunião de textos satíricos, em que a sexualidade é matéria de reflexões imprevisíveis. “Bufólicas” é um livro de “fábulas safadas” concluídas com uma “moral da estória”.
A “Fortuna Crítica” apresenta um texto inédito do professor de História da Arte e da História da Cultura da Unicamp Jorge Coli, e inclui textos de especialistas na obra de Hilst, como a professora do departamento de Literatura Brasileira da FFLCH-USP Eliane Robert de Moraes, e o professor de Teoria Literária da Unicamp Alcir Pécora – que organizou as obras completas de Hilst para a Globo Livros. Além disso, a edição recupera textos publicados na imprensa nos anos 1990, como um perfil da autora feito pelo jornalista Humberto Werneck e uma entrevista da poeta ao amigo e escritor Caio Fernando Abreu.

Conheci Hilda Hilst por meio de um poema na aula de linguística. Me lembro bem de como fiquei encantada com a “pornoticidade” (essa palavra existe?) tão bem camuflada – a qual só fomos perceber depois que o professor explicou. Logo depois, ele já falava um pouco sobre as verdadeiras escritoras, que, segundo ele, não recebiam seu devido valor. A seguir comentou sobre o livro rosa de Hilda, o Pornô Chic – e seja porque o título me pareceu tão curioso, seja porquê a edição não parecia denunciar seu conteúdo, a obra passou a ser um grande anseio de ter um exemplar na minha estante.Resenha e crítica obra Pornô Chic de Hilda Hilst por Samira OliveiraHilda Hilst (1930-2004) foi considerada pela crítica uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século 20. Passeou entre vários gêneros literários, como romance, crônica, drama, poesia e ficção. Sua produção literária iniciou-se em São Paulo com a obra Presságio (1950), mas foi em  1965 que a escritora se muda para Campinas e começa a construção da Casa do Sol, um lugar de retiro para a sua criação – algo que deu bastante certo, pois foi na Casa do Sol que Hilda realizou mais de 80% de sua obra, já que se dedicava integralmente à produção literária. Em 1967, ela estreia na dramaturgia e em 1970, na ficção, com Fluxo floema. O acervo pessoal deixado pela escritora se divide, hoje, entre a Sala de Memória Casa do Sol — onde há, inclusive, produções inéditas — e o Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio da Universidade Estadual de Campinas (Cedae-Unicamp). Para saber mais visite: Instituto Hilda Hilst Leia mais

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“The Kiss of Deception” – Mary E. Pearson | Força e Tradição

02.02.17

Resenha literária e crítica The Kiss of Deception - Mary E. Pearson - Força e TradiçãoSabe aquele livro que te invade e te consome? The Kiss of Deception fez isso comigo, e é por isso que hoje se faz necessária essa resenha crítica. Sobre amor, guerra, reinos distantes, tradição e aventuras; vem descobrir porquê essa obra não pode faltar na sua estante!

Livro: The Kiss of Deception
Série: Crônicas de Amor e Ódio
Autor(a): Mary E. Pearson
Editora: Dark Side
Genero: Fantasia
Páginas: 416
Classificacao:
Sinopse: Tudo parecia perfeito, um verdadeiro conto de fadas – menos para a protagonista dessa história. Morrighan é um reino imerso em tradições, histórias e deveres, e a Primeira Filha da Casa Real, uma garota de 17 anos chamada Lia, decidiu fugir de um casamento arranjado que supostamente selaria a paz entre dois reinos através de uma aliança política. O jovem príncipe escolhido se vê então obrigado a atravessar o continente para encontrá-la a qualquer custo. Mas essa se torna também a missão de um temido assassino. Quem a encontrará primeiro?

Vocês já sabem que eu amo princesas – mas estava acostumada às princesas da Disney – então quando me apresentaram à princesa Lia eu já fiquei empolgada, é a segunda princesa empoderada que conheci esse ano (a primeira foi a Moana) e ela não deixou de me surpreender.

Aquele era o dia em que mil sonhos morreriam e um único sonho nasceria – Princesa Lia

A história já começa no meio de uma cena, sendo narrada pela protagonista, Lia. Por não contextualizar todo o mundo anteriormente – mas começar imerso no universo da obra – o livro nos faz mergulhar num mundo totalmente novo, e sem nenhuma expectativa de regresso. Mary nos faz adentrar seu mundo e questionar nossa própria mentalidade – conforme nos vai apresentando a cultura que ela mesma criou. A primeira cena já expõe uma tradição marcante da nossa sociedade: o casamento. E já mostra de cara, as adversidades e opiniões divergentes sobre ele. Nessa organização, o casamento da Primeira Filha do reino é baseado em negociações que beneficiem ambos lados – no caso, que una reinos amigos para que juntos possam lutar contra os bárbaros. Como já era de se esperar, nossa heroína não ficou nada satisfeita com isso, principalmente por terem tomado dela seu poder de voz e de escolha – essa é uma questão que acompanha todo o percurso desse herói, a divergência entre suas vontades e suas obrigações, entre sua vida e a dos outros, entre suas escolhas e as escolhas alheias. Parece que Lia está sempre atrás, sempre tentando conduzir sua vida, sempre tentando escolher, tentando resgatar para si a independência que lhe foi tirada desde muito cedo. Além do casamento, outras questões parecem ser tratadas com muito mais leveza do que nós costumamos tratar; por exemplo, a maternidade precoce (17 anos) é tratada com naturalidade, o que é perfeitamente normal tendo em vista a organização social e *quase* tradicional, em que as mulheres são responsáveis por afazeres mais domésticos (principalmente entre a realeza já que na plebe costumam todos trabalharem, inclusive as mulheres). Outro assunto mencionado sem grande alarde – e apontando para o avanço na sociedade dos reinos – é sobre o sexo antes do casamento (em nossa organização judaico-cristã, é considerado ainda algo estranho para os antigos) e nos fazendo refletir os contrastes ante o que vivemos e o que foi criado por Mary, ou seja, a tradição considerada conservadora dos reinos em contraste com o que nós consideramos conservador.

Esse contraste de valores também é algo que me chamou atenção. Em certo momento o adultério é mencionado como uma opção corriqueira – já que na lógica da realeza o casamento serve apenas para diplomacia e procriação. Em contrapartida, há muitos outros valores bem quistos por eles, e que também nós consideramos louváveis. Exemplo disso é a religião e os suas práticas devocionais; em nãos raros momentos, os deuses são apresentados como uma força poderosa que pode alterar o curso de nossas vidas. Interessante notar que toda a crença desse povo surgiu depois de um renascimento da humanidade, em que os poucos Remanescentes escolhidos e aptos foram dando luz aos povos da atualidade. É ai que entra uma qualidade peculiar e cercada de mistérios: o dom. O dom teria sido conquistado com a jornada dos Remanescentes pela terra devastada – que teriam sido ainda, comandados e ajudados pela jovem Morrighan – e passados por gerações de Primeiras Filhas do reino de Morrighan, um poder que permite que a portadora veja e sinta antes que todos, e que de acordo com a lenda, teria sido a principal fonte de conhecimento da jovem Morrighan no auxílio aos Remanescentes.

“Eristle me ajudou a aprender a ouvir, a me fechar para o ruído até mesmo quando os céus tremiam com o trovão, até mesmo quando meu coração tremia de medo, até mesmo quando os ruídos das coisas do dia a dia enchiam minha cabeça. Ela me ajudou a aprender a ficar em silência e ouvir o que o mundo queria compartilhar. Ela me ajudou a aprender a ficar imóvel e a saber. Deixe-me ver se consigo ajudar você”

Para se livrar do casamento, Lia planeja uma fuga com sua amiga e servente Pauline. Levando poucos pertences, vestida com um tradicional vestido de casamento e portando um kavah nas costas, Lia parte com sua fiel escudeira rumo à Terravin, um vilarejo litorâneo não muito distante de Morrighan – onde as casas são coloridas e o povo é trabalhador, onde as esposas esperam ansiosas por seus maridos que se entregaram às fúrias do mar para pescar. Depois de uma exaustiva viagem, em que a dupla tentar cobrir seus rastros para que não sejam seguidas, elas finalmente chegam ao destino, o vilarejo em que Pauline cresceu e onde pretende construir uma vida ao lado da amiga e do namorado que está lutando pelo rei, pai de Lia. Em Terravin, Lia abnega-se de todos os tratamentos reais e busca ao máximo se misturar e ser considerada alguém “comum”. Mostrando sua essência, ela finalmente fará o que é sente vontade e começa a trabalhar como garçonete na taverna de Berdi, a mulher responsável por ter criado Pauline.Resenha literária e crítica The Kiss of Deception - Mary E. Pearson - Força e TradiçãoO príncipe, deixado para trás é obrigado a partir em busca de sua noiva – assim como um assassino mandado para capturar e matar Lia. Como ambos tem nomes muito próximos e características físicas bem parecidas, eu fiquei um pouco perdida decidindo quem era quem – obtendo quase a mesma sensação tida por Lia, ela mesma não sabia qual dos jovens estonteantes seria o responsável por tirar sua vida e nem mesmo desconfiava de tal fato. Por esse motivo eu fiquei até a página 267 (praticamente o meio do livro) imaginando que, quando ela falava com um dos jovens ela falava com o Assassino, sendo que na verdade ela estava falando com o Príncipe – e vice versa. Por isso, depois de desfeito o embaralho dos dois eu resolvi anotar o nome de cada um seguido de sua qualificação – e usei para consulta sempre que um deles era mencionado, pelo menos até que eu pudesse associar o nome à pessoa correta sem mais precisar de ajuda.

Fiquei muito satisfeita e encantada com a narração. Ela é feita inicialmente apenas por Lia e depois é dividida entre o Assassino e o Príncipe – e eventualmente passada para outra personagem. Também gostei de terem mantido alguns aspectos da obra original; além evidentemente, do título, os diálogos são dados em forma de aspas e não de travessão. A perduração da forma anglófona de indicar diálogo deixou a história bem mais fluida – embora eu tenha lido poucos livros com esse formato eu gostei bastante, estou pensando até em aplicar a técnica ao meu livro. Ainda sobre os diálogos, é interessante notar como a autora consegue deixá-los profundos interessantes. As comparações feitas também são bem criativas e gostosas de ler, nos deixando com aquela sensação boa de estar lendo algo único; a comparação que achei mais inovadora e interessante foi: “… nossa conversa fluía com a facilidade de um xarope quentinho.”

“Será que ele sabia o que era amor? A propósito, será que eu sabia? Até mesmo os meus pais pareciam não saber. Cruzei os braços atrás da minha cabeça, como se fossem um travesseiro. Talvez não houvesse nenhuma forma de definir o sentimento. Talvez houvesse tantos tons de amor quanto existissem tons de azul no céu.

Já no início nos são apresentadas 3 mecanismos que irão nos ajudar a entender a obra e serão os responsáveis em ir nos preparando para cada desenrolar da história. Esses mecanismos fazem com que a gente comece a tecer teses e suposições sobre cada acontecimento, sendo-nos possibilitado assim, ir fazendo as devidas conexões e juntando uma peça com a outra. Com a habilidade de quem tece uma rede de pesca, Mary E. Person vai nos dando mais linha, nos prendendo em sua história, nos dando pistas para que nós mesmo possamos construir o que virá a seguir. E 0 final desse caprichoso trabalho de artesã, você já pode desconfiar, estamos tão imóveis em sua trama que não podemos mais largar, não podemos mais abnegar de respostas. Dessa forma, a leitura pode ir facilmente da noite até o raiar do dia, e daí até a tarde, num afã infindável por saber o que virá a seguir. Para isso, nossa lã é denominada como “Os Últimos Testemunhos de Gaudrel”,”Livro dos Textos Sagrados de Morrighan” e “Canção de Venda” e nossa roca de fiar como o mapa do reino, por fim temos nossa própria linha, onde, com a ajuda de Mary podemos fazer a história, juntamente com os personagens.Resenha literária e crítica The Kiss of Deception - Mary E. Pearson - Força e Tradição

  • Agora, deixa eu comentar um SPOILER? Preciso contar minhas ideias a respeito do livro 2!

Se você já leu o livro, quero que se atente para minhas suposições e me diga se chegou ao mesmo lugar que eu, se usou a sua linha como eu usei ;) Percebi que há uma conexão entre “Os Últimos Testemunhos de Gaudrel” e “Canção de Venda” isso porquê eu percebi que Lia *Jezelia* é descendente direta de Morrighan “Dos quadris de Morrighan…” esse trecho foi retirado da “Canção de Venda”, as histórias contadas pela mulher ensandecida de um rei. Também notei que Gaudrel é a mãe de Morrighan ou no mínimo a responsável por criá-la: “Que todos saibram:/ Eles a roubaram,/A minha pequena./Ela tentou me alcançar, gritando,/Ama./Ela é uma jovem mulher agora,/E esta velha não os conseguiu parar,/ Que os deuses e as gerações saibam,/Que eles roubaram da Remanescente./Herik, o ladrão, ele roubou a minha Morrighan,/E depois a vendeu por um saco de grãos,/Para Aldrid, o abutre.” 

A partir desse poema é possível conectar com os versos: “Venha, minha criança. Está na hora de partir./Antes que venham os abutres./As coisas que duram. As coisas que permanecem. As coisas que não me atrevo a dizer a ela./Contarei mais a você enquanto caminhamos. Sobre outrora./Era uma vez…” 

Mas então minha teoria cai por terra, já que no começo do verso anterior (que eu não coloquei inteiro) há uma parte, um detalhe, que me passara despercebido:

“Fim da jornada. A promessa. A esperança” e ainda “Busco em minhas memórias. Um sonho. Uma história. Uma lembrança indistinta./Eu era menor do que você, criança” Esses dois trechos assomado ao último: “Era uma vez, minha criança, uma princesa que não era maior que você. Ela tinha o mundo ao alcance de seus dedos. Ela ordenava, e a luz obedecia…” Com todos esses trechos em mente é possível ver por outro ângulo, talvez Gaudrel não seja a cuidadora de Morrighan pois “eu não era maior que você” e ela não esteja contando essa história para Morrighan mas sim para qualquer outra criança. Mas porque então o poema e a garotinha teriam tamanho destaque? Você também conseguiu pensar nessas hipóteses de conexão entre as lendas? E quanto aos “Textos Sagrados de Morrighan” você notou que eles contam a história antes dos deuses castigarem os que povoavam a Terra?Resenha literária e crítica The Kiss of Deception - Mary E. Pearson - Força e Tradição


Esse foi o meu primeiro livro da editora DarkSide e eu já fiquei encantada. Todo cuidado e capricho com a obra a deixam com o valor estético que ela merece. Gostei bastante da capa fosca com as letras em relevo e fiquei bem contente em descobrir, assim que abri o livro, que eu ainda havia ganhado um marca páginas da obra e um pôster. Outra coisa que gostei bastante foi o mapa, como eu disse ele é um instrumento importante para a fluidez da história e para conferência da distância e aparência dos reinos – como eu disse, ele é minha roca de fiar. As margens são grandes e deixam a leitura mais confortável – assim como as folhas amareladinhas. Também fiquei encantada com a lettering e os adornos do número da página e do começo de cada “capítulo”. As páginas pretas do começo e do fim – apresentando o título, mostrando o símbolo da editora (a caveira) e no final, com os agradecimentos da autora e uma breve biografia desta – são um charme a mais. Essa editora está me conquistando cada vez mais, no começo eu achava que eles editariam apenas livros de terror (algo que eu fujo um pouquinho), mas depois que descobri The Kiss of Deception (que inicialmente eu me sentia atraída pela capa mas fugia por pensar que era terror) já virei fã de carteirinha! Não que eu não goste de terror, mas eu tenho um sincero medo do terror moderno hehehe. Já tenho uma lista de obras da editora (que eu estou babando); como Edgar Allan Poe – Medo Clássico (cêis sabem que eu amo Poe né? Quase escolhi inglês na habilitação só por ele hehehe), “Frankenstein, ou o Prometeu Moderno”, “Menina Má”, “Em Algum Lugar nas Estrelas”, “A Noiva Fantasma”, “A Menina Submersa”, “O Circo Mecânico”, “Labirinto” (siiim, do filme!) e “Os Pássaros” sim, eu gosto de suspense  :mrgreen:

E você? Qual seu queridinho da editora? O que achou da resenha? Já leu ou ficou com aquela vontade mágica de ler o livro? Conta pra mim nos comentários! Eu leio tudo com muito amor ♥Resenha literária e crítica The Kiss of Deception - Mary E. Pearson - Força e Tradição

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Resenha e crítica| La La Land – Cantando Estações

31.01.17
Resenha crítica - Musical La La Land. Entenda porquê foi um sucesso e um marco no cinema.      O musical foi a grande estrela do Globo de Ouro, ganhador de mais de 7 prêmios como “Melhor atriz”, “Melhor Ator”, “Melhor Diretor” e “Melhor Filme” Estamos vivendo hoje a ascensão de uma obra que será um clássico no futuro. Estamos vendo musicais novamente às telonas, que fazem referência à importantes filmes do gênero. Estamos percebendo um enredo aparentemente fraco, mas com questões tão sérias que são postas à tona e nos fazem refletir. Um filme que vai te fazer querer sair dançando da sala do cinema, e repensando sobre os caminhos que você anda trilhando.
Filme: La La Land - Cantando Estações
Direção: Damien Chazelle
Duração: 128 minutos
Genero: Musical
Classificacao:
Sinopse: Ao chegar em Los Angeles o pianista de jazz Sebastian (Ryan Gosling) conhece a atriz iniciante Mia (Emma Stone) e os dois se apaixonam perdidamente. Em busca de oportunidades para suas carreiras na competitiva cidade, os jovens tentam fazer o relacionamento amoroso dar certo enquanto perseguem fama e sucesso.

Se você torce o nariz para musicais, espere mais um pouco e confira algumas informações sobre o filme La La Land e talvez, ao final, eu consiga lhe convencer a assistir. Simbora?

Um ponto que deve ser levado em consideração são os prêmios que o longa já conquistou. Ganhador de mais de 7 prêmios como “Melhor atriz”, “Melhor Ator”, “Melhor Diretor” e “Melhor Filme” foi a grande estrela do Globo de Ouro. Vocês já pensaram que estamos vivendo hoje a ascensão de um filme que se tornará um clássico no futuro? Imaginem como alguns filmes aclamados pela critica atual não foram açoitados – e continuam sendo – quando foram lançados? Pelo que andei lendo nas redes sociais, teve gente que achou o filme muito entediante e pacato, chegando até a dizer que teve que sair da sala nos primeiros 15 minutos. Eu, pessoalmente, não estou muito acostumada a assistir musicais, então no comecinho senti uma certa dificuldade em me concentrar – isso porque estou acostumada a mais diálogos e cenas do que a música propriamente dita. Mas, lá vai, se você tivesse ficado mais do 15 minutos no cinema teria percebido que ele não é apenas um cult passageiro.

Com a direção e roteiro de Damien Chazelle – que já havia estreado com “Whiplash” – o garoto prodígio nos traz um enredo raso, porém é necessários ler as entrelinhas e ir mais a fundo para perceber o que há de complexo no roteiro. De primeira já sabemos, se trata de uma história de amor. Mas mais que isso, se trata de uma história – que já foi trabalhada em “Whiplash” e que está virando um light motive do escritor – que fala sobre a colisão entre o que você espera da sua vida profissional e o que você espera da sua vida pessoal, e afinal, como é possível por em concordância aspectos tão diferentes da nossa vida. Mais até que isso, através das músicas e da conexão entre os dois personagens centrais, assim como através da mudança das estações, podemos pouco a pouco percebe o tamanho peso de nossas escolhas.

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Literatura

Resenha “Madame Bovary” | Feminismo e Psicologia

16.01.17
Resenha Crítica Madame Bovary de Gustave Flaubert. Pioneiro da escola literária romantismo, importante obra para a literatura mundial.
Livro: Madame Bovary
Série: -
Autor(a): Gustave Flaubert
Editora: Martin Claret
Genero: Romance Realista
Páginas: 397
Classificacao:
Sinopse: “Texto de suma importância, “Madame Bovary” é uma leitura essencial, sendo considerado um dos melhores romances da literatura, sendo, provavelmente, o melhor dos livros do romance realista de caráter psicológico do século XIX. Para mostrar seu mundo, Flaubert põe em cena uma personagem em total desacordo com sua realidade, com sua posição social e com seu sexo. É nessa personagem que se centrarão as ações desenvolvidas na narrativa e os principais dilemas da obra.”

Com um tema tão forte e polêmico, o livro é atormentador em qualquer época ainda mais em 1857, quando a sociedade e a religião oprimiam e sufocavam as mulheres. Considerado o pioneiro entre os romances realistas e famoso pela sua originalidade, gerou posteriormente o termo psicológico “bovarismo” em referência ao comportamento da protagonista. Foi impossível não recordar da obra “Primo Basílio” de Eça de Queirós, principalmente nas cenas de luxúria entre Emma e Léon e  na descrição sobre toda a decoração do quarto, sobre o Champagne que tomavam e os queijos que comiam. Pelo teor de sua obra e pelas críticas ao clero e à burguesia, Gustave Flaubert foi condenado pela Sexta Corte Correcional do Tribunal de Sena e se esquivou das acusações com a célebre alegação “Emma Bovary c’est moi” (Emma Bovary sou eu), ao fim, o autor foi absolvido porém continuou a ser acusado de ofensa moral à religião e aos bons costumes pelos críticos literários puritanos da época. O traço da escola Realismo (inaugurada pela obra) é interessante, principalmente ao ter como personagem principal uma mulher romântica. Apesar do adultério, Emma é inteiramente uma personagem romântica, e como no realismo é costume criticar a escola anterior, é de se imaginar que a personagem teria um fim trágico – uma quase conversa com os costumeiros fins do Romantismo, em que, ou os amantes morriam ou se convertiam para o celibato. O aspecto sombrio e “corrompido” de Emma, anteciparam por quase um século o movimento feminista e libertário de emancipação da mulher. Dessa forma, a obra preparou o terreno para o que seriam os ideais da luta pela igualdade de direitos civis e da ascensão da mulher ao mercado de trabalho – propostas que iam muito além do radicalismo proposto por  Glória Stein, o da “queima de sutiãs”. É interessante notar que a anti-heroína de Flaubert foi criada à imagem de um fato real ocorrido no sul da França.  Segundo a biografia do autor, Alfred Le Pottevin foi um importante personagem em sua vida, o filósofo compartilhava das atitudes negativas do jovem autor e foi o responsável por fazê-lo se aprofundar em seus sentimentos sombrios. Assomado à esse fato, a morte precoce do pai, a epilepsia e a influência de autores marcados pela melancolia como Lord Byron e Rousseau, formaram a psique de Falubert – um homem antissocial e introspectivo.

“Felicidade, paixão e embriaguez não faziam, como já destacamos anteriormente, parte do repertório feminino daquele tempo. Prazer e satisfação sexual definitivamente não eram coisas de “moças de família”. Os estereótipos femininos são construídos sob a base do coração, centro de toda a vida da mulher, e que a psicanálise viria mais tarde, a definir e a reduzir pelo útero. Basta ver que o termo histeria, vem etimologicamente do grego hustéra, cujo significado é útero. O termo passa então a ser adotado para designar distúrbios de origem mental que afligem as mulheres: sua condição feminina é, para a Ciência, positivamente patológica.” – Haroldo Cesar Michiles,  2012

Atenção, essa crítica contem spoilers, então se você não conhece a obra e não gosta de saber alguns detalhes, melhor pular essa parte :wink:



Resenha Crítica Madame Bovary de Gustave Flaubert. Pioneiro da escola literária romantismo, importante obra para a literatura mundial.

Acredito ser impossível se manter imune aos encantos e pensamentos de Emma, por essa maneira, achei apropriado fazer muito mais que uma resenha, mas comentar os pontos mais chamativos da obra. Também porquê durante toda a sua leitura não consegui passar um dia sem que me envergonhasse por Charles ou odiasse as extravagâncias de Madame – ou talvez porque, agora depois de tê-lo terminado, é impossível não comentar algumas partes. Portanto se você ainda não conhece o livro e não gosta de spoilers, pare por aqui, mas se já conhece essa obra prima, pode continuar e depois me conte quais foram as suas impressões sobre nossos personagens. O livro é dividido em 3 partes, uma para cada amante de Emma, o primeiro pelo Visconde (o inicial traço de seus sentimentos de adultério se acumulam nessa figura), o segundo inicialmente por Léon e finalmente por Rodolphe e o terceiro inteiramente por seu amor com Léon.

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