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Animal terrestre e animal de céu

03.12.17
Animal terrestre e animal de céu - Conto de Samira Oliveira

E quando eu cheguei nessa cidade, nessa minha nova vida você foi tudo. o primeiro elo encontrado entre mim e meu futuro, mesmo enquanto eu continuava a olhar o passado revestido pelo espesso lenço do presente. com gratidão observava e ainda observo as mudanças que em mim são operadas. a primeira pessoa dessa cidade a me querer em seu coração. um número de telefone um sorriso bonito. um amigo que te fiz abandonar um amigo especial em minha coleção de não amantes. a representação viva dessa cidade, o berloque de São Paulo, o mapa dela inteira gravada em você. talvez possamos ser algo em outro plano e em outra esfera. lembro a vez em que subimos o alto do prédio mais alto dessa cidade sem amor e com o frio anoitecido virei uivo de selvageria de pecaminosos pensamentos. fingi que fumava um cigarro – mesmo nunca tendo colocado nenhum na boca – e olhei pra sua boca e seu rosto de traços leves e quase ingênuos quase infantis mas daquele tipo em que podemos sentir que guarda uma águia dentro de si. embora eu sempre fosse mais chegada nos animais de quatro patas como os lobos, não faço pouco caso das aves. a minha parede de sustentação no meu novo mundo, um alicerce para eu adentrar a nova vida que eu encolhi, a cidade que acolhi ao te abraçar, que você trouxe consigo ao mesmo tempo em que me trazia em ti. em lugares que nunca fui mas porque você foi, agora fazer parte do meu corpo – estão gravadas em mim também. uma vez me disseram que eu encontraria o amor ao me mudar de cidade, ao descobrir-me e descobrir minha profissão; e foi tudo no mesmo dia, quando te conheci e quando me encontrei ou sera quando me conheci e quando te encontrei? você a ave sem limites e sem fronteiras, desconhece o abrigo de um coração, percebo que prefere as mais altas montanhas – ei você, faria amor nas alturas? um animal terrestre como eu poderia voar com você? mas voltemos ao nosso encontro no prédio mais alto da melhor cidade do mundo, há algo de especial em estar cada vez mais próximo do firmamento, tem um encanto ao sentir o cobertor de estrelas que nos envolve e eu sinto seus beijos e eu sinto que gostaria que fôssemos 3. e assim se fez. estamos melhor, mais felizes, somos a melhor versão de nós mesmos. eu sem pudores, você com amor, ela com mansidão. e nos completamos uns aos outros e rolamos juntos sob o manto sagrado do universo. mas acontece que sou animal terrestre, preciso em breve voltar ao chão. você é ave, ela também é, podem os 2 juntos voarem no infindável céu. alcançariam as estrelas? chegariam em saturno? se chegarem, diga aos irmãos de saturno que ainda os espero. quero minha redenção por todos os meus pecados. eles entendem nós animais da terra mas não tenho certeza se entenderão vocês animais do ar.  Pego meu vestido vermelho que ficou jogado cobertura do prédio; vocês são todos arranhões e mordidas de minhas presas, eu sou toda carícia e macies das penas de v o c ^ e s. vô o

sou animal veloz de tempo rápido e de chão

sou garras e te devoro

 

Lembranças do “quartinho do fundão”| Um texto sobre desatulhamento
Ecdise – Conto de Samira Oliveira +18
Amigo, ainda me sobraram dedos para te contar.